2/20/2015

BUCÓLICA

Sem proferir uma queixa                                      
Beijarei a minha gueixa
Linda gentil e serviçal
Corpo sedoso e material
Deusa dos meus sonhos
Uma dádiva materializada
Mulher com olhos risonhos
Quero perpetuar em concha
Longas noites nesse orvalho
Nos campos ser o espantalho
De corvos águias e pássaros
Sentir o cibilar do nosso trigo
Em correntezas de ar fresco
Cheirar a doce palha contigo
E gemer cantigas de amor
No torpor do nosso abrigo

mongiardimsaraiva


2/10/2015

NOITE SEM LUZ

Procuro acariciar-te                                      
Persigo o teu passo
Beijos quero dar-te
Perto do teu abraço
Penso em amar-te
Deixar-te não faço
Sou o teu parceiro
Dos dias sem luz
Na cruz derradeiro
Morro só primeiro
Que a tua alegria
De seres escrava
De muitas orgias
Que ao dia conduz

mongiardimsaraiva





2/09/2015

JAZIDA

Apodrecimento vil e generalizado                                      
Homens e mulheres como o gado
Numa trilha sem chão e sem mata
Profunda ilusão na escuridão escapa
Raízes profundas se desagregaram
Da terra molhada e ensanguentada
Os vermes frios não puderam fugir
Ao descaso e à pobreza se juntaram
O dinheiro traçou sulcos e gerou pós
Tristeza que jaz a dois passos de nós

mongiardimsaraiva

2/06/2015

O LAMBER DAS FERIDAS

A noite veio lamber as feridas                                          
Causadas pela luz clara e cruel
Molhou e beijou todas as crostas
Chamou-as de queridas sem fel
E encerrou-as a sós como ostras
Dentro de uma sala de partidas
Sem destino e sem gosto de mel
A dor foi hoje mergulhada no rio
E os restos flutuaram sem navio
Gotas de sangue em água escura
Sem cinzas e lixos de amargura
Até ao raiar do dia novo e claro
Que aguarda as próximas noites
Como pedaços de um amor raro

mongiardimsaraiva

2/05/2015

ALCOVA

Quem nos ama esquece a nossa tristeza insana                                  
E ainda ri na nossa cama com a boca que aquece
Contagia a nossa pele com os odores perfumados
E entoa na voz do amor belos acordes amaciados
Pela doce vida longa desses afagos perpetuados
Com regozijo invocados nos cânticos da nossa fé
Tudo é motivo e abrigo para o fervor e esplendor
Dor sem dor que se aninha na alcova e esquece
De viver os dias do desamor e quase enlouquece

mongiardimsaraiva

MELANCOLIA

 Não observo nada em volta
Apenas fluxos descontínuos
Confundidos e sem escolta
Coisas que andam por andar
Sem um motivo e sem parar
Olhos pesados vazios irados
Que observam esbugalhados
Vidas que escoam pelo ralo
Triste compasso de um pesar
Por onde passam sem amar
Sem doces ritmos e embalos
Cadência triste vaga sombria
Beijando a nossa noite fria
Que nos deixa sem amá-los

mongiardimsaraiva

                                  

2/03/2015

ABRAÇO

Abro os braços para ti                                        
Sinto o teu corpo a abrir
A minha alma deliciada ri
Do amor indolor sem sentir
Somos corpos navegantes
Num mar sem ondas e vagas
Natureza aclama verdejante
Terra enxuga nossas mágoas
Quero te deixar uma semente
Madura serena e proclamada
Por nós e por essa alegria só
Fruto eterno da carne e do pó
Na tua carente e casta morada

mongiardimsaraiva

1/17/2015

MUDANÇAS

Resisto às novas mudanças profundas                                
Sou a espada de um velho guerreiro
O meu paradeiro é a minha memória
Sinto uma vontade imensa de glória
Mas permaneço atento e à escuta
Quero perceber os sinais dessa luta
Que flui nesse verão de muito calor
Como se a razão derretesse o sabor
E as lágrimas fossem sempre adiadas
Eternamente ocultas sós e guardadas
Em rostos que expressam o novo amor

mongiardimsaraiva

8/11/2014

A VERDADE NUA E CRUA

Quero encontrar o meu alimento                                
Procurar sustentos que não tenho
Estou perdido no meio do rebanho
Sinto o gelo molhado da montanha
O frio corta-me todas as entranhas
Sou apenas a carne exposta e crua
Expulsaram-me sem dó da minha rua
A verdade obriga-me a ser verdade
E a procurar o alimento nas estrelas
Sustentar a matéria à luz das velas
Improvisar hinos e canções de glória
Renunciarei amargo à minha história
Serei um arauto de outras certezas
Não pedirei dinheiro às sociedades
Procurarei as ideias e as saudades
Como um espírito que vive do Amor
Das contemplações sem sentir dor

mongiardimsaraiva


7/20/2014

VERSOS SOLTOS

Escuto os sons cristalinos                        
Música expansiva dos sinos
Mente sagaz contemplativa
Leituras breves e precisas
Viagens aladas e sem volta
Idas marcadas sem revolta
Paisagens eleitas no espaço
Nos braços do eco do som
Meu profundo e amigo tom
Abro as asas e me comovo
Sou um pássaro desse chão
Subo ao céu do meu perdão
Quero ser uma estrela acesa
Acima da terra e da riqueza
Energias ligam-me à mente
Semente da minha natureza
Sou teu espaço para sempre
Aqui neste repente presente

mongiardimsaraiva

7/19/2014

ROTINAS

O regresso à dura rotina,                            
Nas formas categóricas
Do arrastado rame rame,
Que todos dizem infame.
Sem belezas eufóricas,
Acorrentadas na ilusão;
Escravizada a sugestão.
Dependemos de rotinas;
Das órbitas e das marés.
A energia vem do pulsar,
Do andar dos nossos pés.
Assim sou rotineiramente,
Rotina que não quer ser.
Que teima em desprezar,
Nossa rotina permanente.

mongiardimsaraiva







7/17/2014

NO LIMIAR

Estou no limiar da espera,                                      
Que me espera sem pesar.
Ainda respiro o ar devagar
E sinto a madrugada fria.
Uma língua de terra vazia,
Sem árvores e sem flores,
Limita a minha empatia;
Íngua dos meus amores,
Sozinha e sem as dores.
O tempo cerca-me agora,
Sem máscaras e anseios.
Quer mandar-me embora,
Pela bruma e sem rodeios.
Mudo, resisto às esperas
Sem ponderar os receios.
Apesar do pouco que veja,
Quero sentir nessa quimera,
Uma só fantasia que seja...

mongiardimsaraiva


7/11/2014

MARIPOSA

Abri a minha carta...                                      
Havia uma borboleta
Morta e seca, sem cor.
No papel manchado,
O desenho do pólen
Das asas de uma dor.
Quem assim a enviou,
Sofreu no duro amor
A saudade que ficou.
Agradeço-te meu pai,
Essa doce lembrança
Com asas de condor.
Deixaste-a suspensa
Para sempre em mim,
Mariposa morta e viva,
Musa do meu jardim...

mongiardimsaraiva

DESUMANIZAÇÃO

Humanização perdida no tempo.                                  
Esfumado o alento e a relação.
Não existe mais coração lento.
Tudo é rápido, vil e sangrento,
Como a guerra sem sentimento.
Efémeras batalhas entre irmãos.
Quem sobrevive a esse lamento,
Seca as suas lágrimas nas mãos
E padece do amor sem sustento.
Não há rajadas do nosso vento.
Tudo é vago, cru, seco e vão.
Pão frio, leve e sem fermento.

mongiardimsaraiva

7/08/2014

DESTROÇOS

A falta de profundidade,                              
Encalha todos os corpos
Na areia fina e movediça
Que arrasta sem piedade,
Esconde, suja e enfeitiça...
No lodo estão os destroços
Da nossa barcaça perdida,
Que jaz sem cor de justiça.
Quem mergulhar os ossos
No frio cruel da despedida,
Verá uma pérola escondida,
Brilhante, pura e radiante;
Carente dos destroços...

mongiardimsaraiva

7/07/2014

CÉUS E CURAS

Os dias são todos iguais;                                    
Pardais que só esvoaçam
Em bandos sós e desiguais.
Céu que teima em ser azul,
De norte a sul; sem nuvem.
Noites escuras que rugem
E encerram a madrugada.
Não vejo luzes; só cruzes,
Nessa terra sem mutação.
A oração não toca o céu;
Arrasta-se sem compasso.
À deriva e passo a passo.
Quando chegar a chuva,
O céu poderá escurecer
E abrigar a noite madura.
Os dias trarão essa cura
E mais um sopro do viver.

mongiardimsaraiva




6/24/2014

FIO AGONIZANTE

Escorraçado e sem limite,                                  
Um só fio, escorre isolado.
Quase parado; agonizante.
Águas podres sem nascente,
Perpetuam o caos delirante.
Uma reserva escassa e pura,
Quer beijar o nosso campo.
O pranto acenderá a chama;
Laços perdidos e sem cura.
Pó, transformado em lama,
Deitando-nos nessa cama
De mortalha fria e escura.

mongiardimsaraiva

6/15/2014

O VOO DO ALBATROZ

O teu talento é o teu sustento...                                        
Envolve o teu ser de sentimento
E transforma-te em energia cintilante,
Constante e eternizada pelo teu saber...
Que não te deixa morrer e te trás o viver,
Que se renova em cada detalhe dominante.
Mantem-te atento, positivo; entusiasmado,
Como um pássaro que observa a montanha
Em busca do alimento e que te acompanha,
Por vales, encostas e cumes esvoaçantes.
Quando sobrevoas a paisagem do sagrado,
Ouve-se o teu canto apaixonado; delirante.
As tuas asas sustentam-te, pleno e parado,
Como um grande albatroz divino; alucinante.
Deslizando entre correntes, brisas e rajadas
De vento e de lamento, pelas coisas paradas.

mongiardimsaraiva

6/01/2014

FOLHA SECA

Sonhei que era uma folha seca...                                            
E balançava na brisa, sem lamento.
Uma nau sem destino e sem vento;
Rangendo, oscilando e sem vida...
Apenas à espera de um sustento,
Que mantivesse a calma à deriva...
Tentei acordar, mas não consegui.
A folha, tinha voado para longe
E me arrastou, embevecida...
Tão longe, que no longe morri
E me tornei, uma folha sem vida.

mongiardimsaraiva

5/31/2014

TRANSE

O sangue percorre as entranhas,                        
Molhadas e banhadas pelo transe.
A carne, agita-se quente e fraca,
Em estímulos vagos e imperfeitos.
Tudo é um vazio, oco e rarefeito,
Como uma vil matança, sem faca.
Alegorias de uma morte profana,
No centro de uma robusta cama
Que segura dois corpos pesados.
Sons repetidos, agudos e cavos
Ecoam das tristes paredes nuas.
Escorrem suores transfigurados,
Que exortam o cheiro das ruas...

mongiardimsaraiva

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