5/05/2019
O homem que fazia sabão
Naquele povoado tudo era comandado por uma pequena comunidade religiosa, cujo pastor era um homem severo e antiquado. Detentor de uma palavra forte e vibrante, fazia tremer quem ousasse discordar de alguma das suas ideias e todos se preocupavam em agradar-lhe sem restrições.
As crianças eram as primeiras a correr, quando do alto do seu metro e quase noventa escancarava uma boca rasgada e advertia com voz de trovão.
Todos se preocupavam em louvar um Deus que era formatado à imagem daquela realidade, de acordo com as condições da maioria das pessoas; pobres, sofridas e com um horizonte muito restrito, encurtado ainda mais pela impossibilidade de saírem dali para conhecerem outros lugares.
Mesmo assim, parecia existir uma espécie de serenidade podre e envolvente que deixava tudo com um aspecto de alegria forçada e contagiante, não fosse algumas histórias estranhas e perturbadoras que contavam sobre algumas pessoas da região.
Dentre esses relatos, os mais velhos tinham eleito um personagem que era o principal responsável pelo temor das crianças e deixava os adultos numa incerteza muito grande quando o assunto assim o exigia. Ou sempre que esse homem aparecia na aldeia, transportando consigo todas as maldições concebíveis e inconcebíveis que lhe diziam respeito. Era injusto, mas aquele homem estava fadado a um destino trágico e obscuro apesar de, aparentemente, nunca ter feito mal a ninguém. Diziam que aquele homem era tão estranho e nefasto que, em alguns casos em que fora afrontado pelas crianças, as tinha levado consigo dentro de um enorme saco e com elas, tinha feito sabão...
E um dia, quando todos estavam no início de mais um culto, ele apareceu subitamente no meio daquela multidão e dirigiu-se apressadamente ao púlpito da igreja para se tornar o orador da noite. Tinha vindo substituir o pastor titular, sem o conhecimento do grupo que aguardava descontraidamente a chegada do seu líder. Não foi imediatamente reconhecido pelos presentes, mas o seu vulto exageradamente magro e desengonçado, a sua cabeça ossuda e projetada para trás em que exibia no vidro de um dos olhos uma expressão marcadamente desconcertante e transfigurada, deixou um rasto de apreensão naquela sala.
Quando começou a falar, a sua voz era cristalina e melódica como uma lira, os seus movimentos eram estéticos, graciosos e a expressão era eloquente e segura. Nunca ninguém ousara escutar aquela voz que transmitia segurança e prendia a atenção, até dos menos devotos. Os mais velhos acotovelavam-se e faziam observações uns aos outros quase em surdina e entre dentes. As crianças, à medida que o iam reconhecendo tremiam, ao aguardar um gesto que indicasse que aquele homem pegaria inadvertidamente em um saco para as levar consigo. Aquela figura manteve-se por bastante tempo entregue e atenta aos seus fiéis, transbordando palavras de amor e esperança na sua homilia, quase fazendo esquecer o seu passado lendário e impiedoso.
Não fosse um gesto inesperado daquele orador e tudo teria decorrido na mais santa paz. A certa altura, quando todos os fiéis já se encontravam envolvidos por aquele destino crente e louvável, o homem pediu a todos os adultos que perfilassem as suas crianças junto ao altar, já que pretendia ofertá-las e honrá-las com uma pequena lembrança. E assim foi. Aquelas crianças pobres, empurradas pelos seus pais, começaram a formar uma longa fila junto àquele homem que parecia agora ser mais uma figura de regeneração divina do que uma criatura sinistra e do mal.
Mas quando tudo previa tratar-se de um final feliz e honroso para aquela comunidade envolvida pelo seu Deus, um pequeno detalhe foi responsável pelo reinício da dúvida cruel que pairou sobre aquela criatura; aquele homem fizera subitamente aparecer do nada, uma grande sacola pesada que arrastou até ao centro da igreja e dela começou a tirar pequenos embrulhos que distribuiu por todos os presentes. E disse, num tom suave, feliz e aprazível: - Esperei muitos anos por este momento e esta é uma dívida que tinha para com muitos de vocês. - Recebam humildemente cada amostra deste sabão, em nome do Senhor Jesus e com ele lavem cuidadosamente o corpo e a alma para remissão dos vossos pecados!
mongiardimsaraiva
4/27/2019
mesmo confinado às profundezas abissais
por vezes lanço mão do meu periscópio
um olho apontado a tantos olhos normais
envoltos por uma cortina no denso ópio
dentro do meu submarino aguardo pelo sol
apesar de não poder senti-lo nem abraçá-lo
sou refém dessa claridade tímida e velada
E estou imerso nas águas sem um farol
qualquer clareza é uma lua dentro de mim
apontada ao espaço de muitas estrelas
quando avisto alguém recolhido assim
apetece-me chamá-lo e acolhê-lo
no frio do meu barco só e desatracado
divido a minha paz com as medusas
e sinto-as rejubilar no meu horizonte
em movimentos esbeltos e educados
às vezes sou apenas como uma concha
bivalve e entreaberta que respira
pressinto cada onda que me atira
ao mar consternado do meu fado
mongiardimsaraiva
Arquivo morto
pessoas e coisas que acabaram
vidas e passos que chegaram ao fim
não te iludas se no tempo se amaram
já nada e ninguém os faz ser assim
ciclos são encerrados para sempre
sem retorno ao passado que se foi
outras obras voltarão ricas e renovadas
por um fulgor aceso que quase dói
ousa perguntar aos que foram amigos
se ainda te podem realizar um favor
pede-lhes com todo o teu clamor
e vê-os escorregar para os abrigos
desfeitos em desculpas esfarrapadas
não existe mais nada além de ninguém
para te trazer o sopro de um vintém
por isso não deves te importar
com os amigos que já não o são
devolve-os à sua origem perdida
eles não estão mais aí para ti
são apenas o teu passado torto
deixa-os na paz de um novo ciclo
manda-os para o teu arquivo morto
mongiardimsaraiva
4/09/2019
Perplexo
admiro a tua tenacidade
quando lutas contra a corrente
quando empurras o amor ausente
e queres mostrar a tua vontade
admiro-te mesmo além do razoável
quando sinto que usas a saudade
apesar do tempo pouco afável
acho-te um poço de sabedoria
mesmo quando abanas a cabeça fria
e descobres em mim um sim amável
não te deixas nunca abater
e arrastas sempre a sombra da vida
és feita de quê sem saber
por ti aclamo à natureza sábia
uso o teu canto para me ver
e sigo o teu olhar sem te ter
mongiardimsaraiva
3/19/2019
O meu infinito (poema selecionado - 2019)
somente o infinito para me guiar
sem margens paragens e descompassos
um caminho sem estradas para cruzar
nos abraços que teimei em não dar
nos beijos que transformei em laços
certezas que ficaram para me guiar
tudo se esvaiu por essa terra solta
sinto que os poros se fecharam
nada mais me faz lembrar de mim
sou apenas poeira decantada pelo ar
restos desse ser dão-me a última voz
num sibilar rente às nuvens brancas
infinitamente nutrido e só esvoaço
parcas partículas agregadas ao pó
não consigo mais olhar para trás
sinto-me suspirar infinito e incerto
é tarde para não querer voar
sou agora o mito da minha natureza
pertenço às regiões desabitadas
onde os abismos acolhem os deuses
peregrino de toda uma fé tamanha
vejo água e luz por toda a parte
por cima do sol nessa montanha
mongiardimsaraiva
3/14/2019
Apenas
basta-me semi cerrar os olhos
transportar-me para longe daqui
dentro de uma nuvem sobre o vento
sou do ar e da verdade que chora e ri
mais acima sinto-me tão eu e atento
como pássaro que gargalha fora de si
gosto de seguir a marcha das formigas
que pisam a terra oca que se contrai
chupam a água pelas barrigas
escravas no ritual dos seus ais
quanto mais alto me transporto
mais distante estou das formas
perco-me fora das normas
e separo-me do jugo da palavra
estou na garganta de uma fada
que me empurra mais para dentro
da minha explosão sem trovão
apenas sinto a divisão do meu corpo
provocada pela pólvora que desagrega
em migalhas de um tiro de canhão
finalmente sou do etéreo e do perdão
em voo suspenso e incerto para sempre
bato agora as minhas asas de borboleta
como uma pena só e sem pena de voar
flutuo na garupa deste poema que vai
apenas subo choro e desço lento
permaneço estático e finjo apenas
que sou um observador atento
embalado pela tristeza que dói
não ouço mais o riso das hienas
apenas um doce e leve lamento
em volta da minha nuvem que cai
estou agora numa lua sem vento
sem onda balanço e sem sustento
apenas ausência que sai
mongiardimsaraiva
2/23/2019
Muito além
hoje acendo esta vela
uma luz que não se apaga
uso a minha saudade singela
para te dizer quase nada
sou mais uma estrela perto de ti
nessa imensidão só e sagrada
junto-me aqui à tua morada
naquilo que sonhamos e sofremos
estou apenas suspenso no ar
numa bolha em que nos vemos
és ainda o meu maior bem
apesar de não seres mais ninguém
és muito mais do que a lua tem
no manto prata do teu regaço
sou ausente no amor que faço
recordo-te assim muito além
mongiardimsaraiva
2/06/2019
O pastor
sou o silêncio de um pastor
guardo o meu rebanho atrás do monte
uso em liberdade as minhas cores
penso nas estrelas sem ter ciência
apenas cuido dos meus amores
observo o céu sem metafísica
basto-me no regalo do vento
sou pássaro pousado em vida
água que escorre do meu lamento
quando avisto as outras terras
marco as ovelhas na memória
e ouço o eco do seu balir
no sol escrevo outra história
conto os passos que hão-de vir
os meus cães são como gente
levam e trazem o meu rebanho
são anjos que me seguem de perto
abrem o caminho que vem a seguir
quero deixar para as estrelas
uma janela sempre aberta
por essa imensidão distante
quero sempre poder vê-las
em volta do meu rebanho
de uma forma delirante
mongiardimsaraiva
2/05/2019
Epitáfio
em um lapso tudo termina
no estalo vazio que te leva
nas garras perpétuas do não ser
serpente que se enrosca quente
no teu pescoço frio e dormente
aproveita cada abraço sagrado
cada beijo oferecido ao teu corpo
cada criatura que te faz sonhar
logo estarás numa rua deserta
seguindo apenas os teus passos
não deixes que a magia se esvaia
por entre os teus dedos de pedra
e caia no chão sangrento das feras
reluz a cada raio de luz enviado
e não te esqueças de nós
também somos feitos de ti
quando fores embora
leva a tua saudade
e não batas a porta
perdoa-nos a maldade
ainda estamos por aqui
mongiardimsaraiva
2/04/2019
Com um olho no burro e outro no cigano
o cigano passou por mim agora
na garupa do seu burro cinzento
não conseguiu olhar-me nos olhos
parecia apressado mundo afora
a trotar perdido e a rir aos molhos
fiquei sem saber o que lhe dizer
aquele era o meu melhor amigo
que parecia não mais me conhecer
por isso fui ter com uma cigana
que leu baixinho a minha mão
fitou-me no viés do seu olhar
e perguntou-me com toda a razão
se não conhecia bem o meu amigo
através do seu olhar mediano
como observar sempre um gitano
sempre a não ver e a ver todos
sempre com um olhar incerto e fugaz
sempre com um olho no burro
e outro no cigano
mongiardimsaraiva
1/19/2019
Extremos
os extremos sempre se tocam
agarram-se e sacodem-se
como dois irmãos de sangue
abraçam-se e beijam-se
levitam e pairam no ar
corpos sagrados e vorazes
nas carícias e nos segredos
são cúmplices e viajam
numa aventura certeira
pelas planícies do sem fim
dão a volta ao mundo
e amam-se assim
como dois extremos
longe e perto
inevitavelmente
sem palavras
mongiardimsaraiva
1/18/2019
Uma terra marcadamente dura
que terra tão marcadamente dura
montes escuros redondos de pedra densa
encostas que escorrem uma baba imensa
mato queimado no meio dessa secura
os rebanhos procuram na encosta intensa
vestígios de um novo capim que não vem
transformado em ossos de carcaça pura
e mugidos dos bois à chuva que não vem
os cães abandonados uivam na madrugada
em alcateias de sons levados pelo vento
são da brisa como ecos de um lamento
e trazem-nos a melodia consternada
cortam o silêncio no fio de uma navalha
apontada à imensidão do céu estrelado
os seres mais pacatos são os caboclos
que bocejam no mato enquanto falam
são como lagartos apontados para a lua
à espera que um inseto pouse na palha
de voz estridente como quem ri e ralha
espantam as onças e atraem as corujas
nessa noite preciosa infindável e escura
naquela terra tão marcadamente dura
mongiardimsaraiva
1/15/2019
Peste bubônica
Como se não bastasse as pragas e os maus agoiros que parecem transitar ultimamente pelo país, foi registrado no Rio de Janeiro um caso de peste bubônica, doença fatal que dizimou um terço da Europa no século XIV. A doença é contraída por uma bactéria alojada no sangue das pulgas de roedores e nos piolhos. No entanto, há indícios de que no Brasil a doença tenha sido disseminada através da ingestão de crustáceos, moluscos e peixes contaminados, nomeadamente a lula por ser o seu principal hospedeiro. A paciente internada e isolada, passa bem, apesar do tratamento à base de potentes antibióticos. Ao que tudo indica, o risco de uma pandemia parece não existir e o alerta vermelho foi acionado em todo o país.
mongiardimsaraiva
1/07/2019
Mitos
quanta ingenuidade e apatia
quanta alegria sem serventia
nesse planalto desarborizado
enfeitado pobre e sem magia
quanto sorriso estampado e sem cor
um amor estarrecido e consignado
violado pela essência do não ter
povo que usa bandeira sem ter eira
na beira de uma praça sem saber
os mitos são exacerbados e trôpegos
exaltados pela matilha aventureira
mas as ostras já estão apodrecidas
na água morna e suja de um viveiro
onde as pérolas são apenas ofuscantes
como o brilho de uma nova cegueira
oxalá o mito seja perene e se consagre
como orixá de um rico candomblé
venham séculos de magia e certeza
e os sóis voltem a brilhar nos paetês
mongiardimsaraiva
12/30/2018
A morte da poesia
para que serve a poesia
senão para cantar uma vida vazia
onde estão os que a acolhem e enobrecem
de coração aberto para a realidade fria
cada vez mais velha vai se esboroando
em mares de lama e labaredas de cristal
aos sarracenos foi dada a alegria do mal
por entre as frestas de castelos sem sal
aos poetas foi dada a liberdade do dizer
em soluços e prantos até morrer
o que farei se a tristeza nunca me cala
e a verdade parece escorrer por mim
como se fosse mortalha de uma vela acesa
certeza de me encontrar perdido e só
apenas com as migalhas deste poema
como um andarilho oculto pelo pó
mongiardimsaraiva
12/23/2018
Um texto sem pretexto
chove rãs e peixes do céu
sanguessugas rolam nas estradas
a lama engole as famílias enlutadas
e os cardeais expugnam o réu
há sinais de uma franca orgia
quem diria na casa do pai
toda a alegria é contagiante
delirante a honra que sai
só nos navios a casa não cai
não sentimos a tristeza que vai
só nos traz mais pesadelos
somos carcaças suadas e frias
aos ossos doamos a alegria
vemos até um peixe no céu
sanguessugas sem ter sangue
e rãs que molham o nosso véu
mongiardimsaraiva
12/16/2018
João sem Deus?
Embora tivesse várias vezes afirmado ser apenas um instrumento nas mãos de Deus, o povo atribuiu-lhe o dom divino de algumas curas milagrosas, algo que o aproximou definitivamente da intocabilidade do céu.
Por isso, é extremamente difícil desconsiderar esse pressuposto quando alguns factos muito sombrios e avassaladores remetem a sua reputação na vala comum, onde os mais vis e repugnantes aguardam a hora do acerto final. Quisera Deus que alguns dos seus filhos não tivessem de passar por essas provações. A ira do povo é do tamanho da sua fé inabalável, duramente ferida por um golpe traiçoeiro e lascivo.
E agora? Como atribuir (ou não) a esse homem a mentoria dos propósitos libidinosos de que é acusado, se à partida ele seria apenas um canal receptor de identidades (um médium) que o incorporaram com fins de cura e redenção, aceite e aclamado por aqueles que o procuraram e agora o acusam? Será legítimo responsabilizá-lo, à partida, pelas monstruosidades e práticas realizadas à luz de uma doutrina espírita, regeneradora e misericordiosa? Existe tribunal e legislação para julgar a espiritualidade nas suas mais intrigantes e instigantes instâncias, ou tudo não passa de uma farsa orquestrada por aqueles que se acham acima do bem e do mal? E as milhares de curas realizadas em pessoas do mundo inteiro que o visitaram e se entregaram à sua conduta e espiritualidade? É difícil! Teriam sido então muitos anos de charlatanismo acobertado, sem que tivessem ocorrido depoimentos desabonatórios de qualquer tipo, o que constrói efetivamente uma poderosa aura de elevação e proteção. É estranho que só agora tenha surgido um rol de mulheres ditas abusadas e inconformadas com o seu guru, sendo que nunca a sua sanidade mental e intelectual fora posta em causa.
Queira Deus que este homem não seja culpado no contexto das acusações que contra ele pesam. Certamente, será muito difícil reconhecer a fronteira entre o real e o ilusório, ainda mais quando o assunto é sobre os desígnios de Deus e a conduta dos homens. Não cabe a nós tecer juízos de valor sobre a religião e a fé de cada um.
Se tiver de pagar por atos conscientes que realizou, que seja feita uma justiça fria, divina e pragmática. Que sirva para aclarar ideias, dúvidas e atitudes sobre causas e assuntos ainda pouco conhecidos e que ninguém tenha a pretensão de julgar os outros sem primeiro se julgar a si próprio, através dos seus pensamentos, palavras e obras.
Tenho comigo que a João (homem) foi dada uma dimensão ilusória e exagerada, sob pretexto de um juízo que talvez não pertença só a Deus.
Acredito que as curas podem se tornar reais e miraculosas quando acreditamos que isso seja possível. Por vezes, temos tendência a idolatrar personagens, rituais e cerimônias, mas esquecemos facilmente que a cura pode estar, simplesmente, dentro de nós.
mongiardimsaraiva
11/30/2018
Banho de enxofre
O local era um enorme pavilhão em pedra acastanhada situado no meio da mata e continha, no seu interior, um claustro muito largo rigorosamente preservado e limpo. No meio, existia um jardim, recortado por sebes geométricas com alguns canteiros de flores de tons suaves. O ambiente fazia lembrar um retiro espiritual, onde fosse possível esquecer tudo o que se passa no mundo terreno; uma espécie de Shangri-la. Algumas pessoas, na maioria idosos, percorriam o claustro lentamente, outros, estavam sentados em bancos compridos de madeira. O tempo parecia ter parado naquele lugar e apenas o som de um cântico remoto e aprazível perpetuava como um poderoso mantra. Algumas mulheres mais novas com um ar extremamente determinado e prático pareciam estar programadas em rituais e rotinas de silêncio, previamente ensaiadas.
Eu não estava ali por acaso. Tinham-me dito que aquele era um lugar de cura, cuja regência espiritual estava a cargo do Padre Pio, figura muito conhecida e querida no meio religioso e espiritual. A ele foram atribuídas algumas graças que o marcaram como uma figura santificada e venerada por todos. Já algumas vezes tinha visitado o lugar, mas nunca como naquele dia em que me fora prescrito um "banho de enxofre". De acordo com os preceitos espiritualistas, ele era indicado nalguns casos, nomeadamente quando havia a necessidade de purificar o ser humano, levando-o a uma postura mais espiritualizada e com menor densidade material.
O meu banho estava marcado para as 16 horas e esforcei-me por chegar uns quinze minutos antes. Estava com uma certa apreensão, apesar do lugar me transportar para uma realidade absolutamente tranquila e prazerosa. Afinal, sempre associei o enxofre a uma substância um tanto ou quanto perigosa com um odor muito forte e quase insuportável.
Às 16 horas em ponto, uma mulher aproximou-se de mim e convidou-me a acompanhá-la pelas dependências do pavilhão. Era muito nova, simpática, cordial e fez-me lembrar um personagem extraído da mitologia grega ou de um conto de fadas. Antes de chegarmos na sala do banho parou e fez algumas recomendações breves e preliminares acerca da sessão. Disse-me também que, quado entrasse na sala, teria tudo o que precisasse para permanecer ali o tempo que quisesse e que deveria entrar completamente nu numa banheira e mergulhar nela todo o corpo à excepção da cabeça.
Assim procedi. Entrei na sala e reparei que era francamente espaçosa e arejada. Extremamente limpa e organizada, apesar da sua decoração austera composta por uma grande banheira de esmalte, duas cadeiras de madeira, um balcão comprido, um tapete e duas toalhas rigorosamente brancas. Olhei em volta e pensei que tudo aquilo era fantástico e digno de ficar registado na minha mente, já que tive a nítida sensação que passava por uma experiência indescritível e muito misteriosa. Tirei a roupa e experimentei a temperatura da água. Estava morna e notei que a tonalidade era amarelada e com um cheiro que imediatamente me fez lembrar o enxofre. O odor não era muito forte e a sensação que dava era mais parecida com a de uma mistura de especiarias. Entrei na água e mergulhei o meu corpo totalmente naquele líquido estranho e envolvente. Parecia que flutuava num caldo docemente preparado para me transportar ao portal de uma outra dimensão, em que os sonhos se tornassem realidade e me revelassem algo de oculto e crucial. Assim fiquei alguns minutos imerso no meu banho até ouvir sons que me fizeram ficar muito atento e ao mesmo tempo muito curioso. Apurei o meu ouvido. Era verdade. Escutei algumas pancadas secas junto à parede, mesmo ao lado da minha banheira. Pareciam sinais emitidos pelo bater de um objeto que poderia ser a mão de alguém a avisar-me que alguma coisa poderia acontecer a partir desse momento.
Ainda não recuperado da surpresa pude perceber, logo a seguir, alguns sons límpidos e cristalinos que emanavam da voz de uma mulher. Provinham daquela mesma parede onde escutara os primeiros sinais. Era uma voz angelical e afinadíssima que entoava mantras e cânticos, como se aquela experiência atingisse agora um patamar absolutamente único e surreal. Reconheci imediatamente a voz da mulher que me acompanhara há instantes e que agora, num compasso de mágica, fazia parte daquela cena verdadeiramente única e magistral. Aparentemente, ela estaria do lado de fora da casa junto à parede e provavelmente deitada ou agachada, de forma a proporcionar-nos aquele efeito extraordinário. Tudo tinha sido rigorosamente planejado de uma forma singular, aparatosa e ao mesmo tempo muito simples. Afinal, o banho de enxofre tinha um propósito determinado e o ritual trazia-me a sensação de algo muito poderoso e cuidadosamente embasado na espiritualidade. Sentia-me muito relaxado e envolvido por todo aquele mistério. Tentei esvaziar a minha mente o mais possível e focar apenas aquele canto que me seguia e embalava num passeio suave e transcendental. Não sei quanto tempo permaneci envolvido por aquela sensação de paz e harmonia. E a voz continuava lá, emitindo a sua mensagem sem códigos, extremamente poderosa na sua dimensão espiritual e humanística.
Não sei quanto tempo passou, mas a sensação que tive foi a de um intervalo enorme, com certeza muito além da realidade comum. O que era o tempo afinal, senão um desdobramento do nosso condicionamento e expectativas? Saí muito leve, como se tivesse entrado e saído de uma experiência sensorial que tinha alterado, por instantes, a minha visão de mundo. A mulher, aguardava-me do lado de fora, com o mesmo sorriso alegre de anfitriã que me tinha oferecido à chegada. Olhei dentro dos seus olhos e agradeci também com o meu olhar. Respirei fundo e fui embora sozinho, já que não tive nenhuma dificuldade em reconhecer o meu caminho de volta...
mongiardimsaraiva
11/25/2018
Noraney coice de mula
Era uma vez, num lugar distante em que as cobras desciam a pedra gigantesca para fumar o cachimbo da paz e as mulas procuravam avidamente por mais capim...
Havia nesses confins quem passasse o tempo a contar os pardais que pousavam freneticamente nos fios entre os postes da eletricidade e a observar as moscas que pousavam na mesa da cozinha à procura dos restos do almoço.
Nessa pasmaceira, vivia uma mulher de meia idade que aparentava ser daquelas que teimavam em não querer mostrar a idade; cabelo preto asa de corvo comprido e bem esticado, provavelmente pintado com uma tinta barata e de qualidade duvidosa.
Diziam que o seu gênio era terrível e que à mínima tensão repostava um arsenal de palavrões que fazia corar os mais tímidos e pacatos.
Conhecia-a por acaso, quando passei pelo local há muitos anos atrás.
Lembro-me que avistei ao longe uma pequena casinha de madeira com um ar pitoresco e convidativo. Havia perto da casa um pequeno grupo de crianças que brincavam alegremente e, por momentos, associei-os àquela paisagem atraente e bucólica. Quando me aproximei, notei que todos me encararam com um ar apreensivo e espantado. Perguntei-lhes se moravam ali por perto e se conheciam bem aquele lugar. Olharam uns para os outros e o mais velho adiantou-se gaguejando. Disse-me num tom quase secreto que ali, naquele lugar, ninguém era bem vindo e que a casinha era habitada por uma mulher muito perigosa. Diziam que era a encarnação de uma velha mula que por ali tinha vivido.
Era uma burra que tinha pertencido a um fazendeiro e que fora vendida a um mercador rico que tinha passado por aquelas terras. A mula era muito apegada ao seu primeiro dono e nunca mais conseguiu demonstrar afeto e submissão por ninguém. Diziam que, por isso, o mercador foi obrigado a desenvencilhar-se dela. Na primeira oportunidade que teve, ofereceu-a a uma das suas amantes que prometeu estimá-la. Assim, essa mulher criou a mula até morrer, apesar da dificuldade em lidar com o animal. Essa mulher tinha uma filha que, diz a lenda, nunca gostou do bicho e que fez tudo para que a burra desaparecesse sem deixar rasto. Quando a mula morreu e para disfarçar, a moça, com remorsos, perguntou ao padre da aldeia se podia enterrar o animal no cemitério da igreja. E assim foi. Sem o animal, a vida daquela menina teria tudo para se tornar mais alegre e promissora. No entanto, a personalidade daquela mulher começou a apresentar sinais preocupantes de um certo nervosismo, o que deixou a população do lugar bastante preocupada. Diziam que ao menor sinal de aproximação e intimidade manifestado pelos vizinhos, a mulher abria as goelas e arrotava um rol imenso de pesados impropérios, como se por momentos fosse tomada pelo espírito da sua velha mula.
Aquela criança que me contava essa história tinha um ar sério e jamais me passou pela cabeça duvidar das suas palavras que pareciam jorrar da sua boca como verdades insofismáveis. Nesse momento, um dos outros rapazes que aparentava um certo desinteresse por tudo aquilo, olhou bem nos meus olhos e perguntou de repente: - Você nunca ouviu falar na Noraney coice de mula?!!!
mongiardimsaraiva
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