4/11/2020
3/08/2020
2/09/2020
A família Addams
Era uma vez, numa pequena estrada vazia onde costumava caminhar descontraído e tardiamente com a ajuda da natureza, mas que naquele dia ficara estranhamente transfigurada e apagada pela bruma.
O "carocha" azul claro estava lá, como de costume, estacionado no começo da pista e passava quase despercebido para quem passasse por ali. Era de um azul desbotado e gasto pelo tempo. Fazia lembrar um automóvel que há muito tinha sido utilizado e que escolhera aquele lugar para descansar para sempre. Os pneus não tinham cor e o pó era visível em toda a extensão das rodas.
Já não era a primeira vez que notava aquela presença misteriosa que sugeria alguém muito velho e com poucos recursos materiais. Nunca tinha visto ninguém entrar nem sair daquele carro, o que aguçava bastante a minha curiosidade.
Tudo ficou mais claro, quando naquele dia apareceu ao longe a silhueta de um grupo de pessoas que se arrastavam pela trilha numa postura cadenciada, cujo movimento dos braços fazia lembrar o pêndulo de um velho relógio de sala. Eram quatro vultos longilíneos, ligeiramente arqueados e vacilantes. A sua postura não era de caminhantes atléticos, mas sim de penitentes conformados com o seu destino incerto.
Quando se aproximaram, pude constatar a presença de uma família que se deslocava compassada e silenciosamente em fila indiana, rigorosamente pelo lado direito, de modo a permitir espaço a quem quisesse ultrapassá-los ou cruzasse o seu caminho. Na frente, surgiu uma mulher muito magra, nova, de rosto feio e ossudo, pele baça de tom de azeitona e rosto sério, mas que curiosamente parecia preparada para um cumprimento casual em caso de necessidade. Logo atrás dela estava uma outra mulher um pouco menos magra e muito semelhante à primeira. Os traços eram os mesmos e somente o seu corpo era menos esquelético que o da sua irmã. O terceiro elemento daquela família era a matriarca, de meia idade, rosto mais aberto que fugia ligeiramente aos traços das filhas, apesar da expressão facial muito parecida. Por último, e a fechar a fila como guardião, a figura de um homem alto, muitíssimo magro e com o rosto exatamente igual ao das suas filhas, expressão responsável, olhar penetrante e um ligeiro sorriso de cordialidade. O mais impressionante neles era a capacidade de se deslocarem milimetricamente afastados uns dos outros, em espaços iguais e no mais absoluto silêncio.
Uns dias depois, enquanto caminhava já tardiamente por aquele mesmo lugar na companhia da minha mulher, percebi que o velho carro, vazio e enigmático, ainda lá estava. O meu impulso foi dizer-lhe que já o avistara antes e que achava que conhecia os ocupantes daquele "fusquinha". Adivinhando os meus pensamentos, ela perguntou-me se eu sabia a quem pertencia. Falei que sim, que tinha praticamente a certeza de quem era, embora nunca tivesse visto pessoas perto do carro e muito menos dentro dele. Ela olhou-me admirada e reconheci no seu rosto uma certa relutância por aquele lugar e por aquela situação estranha e desconcertante.
Quando estávamos já no final do nosso percurso, talvez a uns quinhentos metros do final da pista, apareceram eles, tradicionalmente enfileirados e cambaleantes à nossa frente. Como de costume, muito chegados à direita e preparados para se cruzarem conosco numa atitude silenciosa de reverência e simpatia, apesar do ar estranho e da feiura desmedida.
Notei, na minha mulher, uma certa curiosidade no olhar e uma vontade de me perguntar qualquer coisa. Já não dava tempo. Eles estavam muito próximos de nós e qualquer deslize da nossa parte poderia causar estragos e provocar algum constrangimento naquele encontro mágico e inusitado.
Não resistimos à tentação de nos virarmos para trás para conferir aquela família especial e misteriosa que acabara de passar e também para que pudéssemos ver se eles entrariam, efetivamente, naquele carro. Mas não foi isso que aconteceu. Seguimos aquele estranho cortejo com o olhar, até se tornarem uma pequena mancha quase indelével no final da trilha. A minha mulher, extasiada e maravilhada com aquele episódio, perguntou-me com um ar levemente sarcástico e divertido se eu nunca tinha visto, por acaso, uma pequena "mão" (autônoma, rápida, expressiva, com os dedos transformados em pernas) acompanhando-os alegremente como se pertencesse à família... Achei o comentário estranhíssimo e sem sentido. Parei por um momento, olhei para ela e fiquei a pensar. O que ela queria dizer com isso? Ah, mas só se... Claro, ela tinha razão. Nunca tinha pensado nisso! Esbocei um sorriso de cumplicidade e tornei a olhar aquele horizonte, em busca de uma confirmação. Podia ser essa a chave da solução...
Quando fomos embora, o velho automóvel tinha desaparecido como que por encanto, apesar de nunca os termos visto entrar no carro e/ou escutado o ruído do seu motor.
Mongiardim Saraiva
1/31/2020
Ode à genialidade
não deixe o seu gênio encarcerado
nas masmorras frias e desconcertantes
não se esconda na selva social degradante
que o quer sem voz pálido e anulado
não se baste como um boneco só e articulado
deixe que a sua genialidade faça estragos
e lhe traga um cariz de verdade verdadeira
ouse capitanear o seu navio em águas desgovernadas
ouça o rugir das águas que estalam no cavername
e receba os salpicos das ondas poderosas no casco
abra os braços e sorria para o grasnar das gaivotas
seja terra e porto seguro para aqueles que o procuram
deixe-os levar um pouco daquilo que o faz diferente
nos tons do seu sentimento e na pureza do olhar
nunca deixe ninguém comandar o seu barco
ele é seu e está a si destinado e acorrentado
atreva-se a desejar o que de melhor tem a vida
ofereça-se à experiência de exibir a sua arte
e não se deixe morrer nunca sem mostrar genialidade
à vida ofereça o que de melhor existe em si
tenha muita coragem grite e solte as amarras
há sempre alguém que o espera na outra margem
pronto para abraçá-lo e levá-lo para casa
não tenha medo de perder a sua outra imagem
decente e condizente com o orgulho social
a vida são dois dias e o seu gênio é imortal
Mongiardim Saraiva
1/22/2020
Fantasia em sépia
Quando abracei esse homem sem rosto,
Senti no seu raro perfume o meu tempo voltar;
De mulher bela e envolvida por um doce amar,
Nos braços quentes e ardentes desse encosto.
Imagens nuas em sépia fizeram-me transpirar
Por querer que nesse abraço pudesse sonhar.
Hoje sou uma mulher madura e realizada.
Aos devaneios devo a minha obra prima,
Encantada pela luz daquela madrugada
Que teima em me beijar no calor desta rima.
Mongiardim Saraiva
1/19/2020
Língua Portuguesa
Porque estou longe dela (pátria),
Mas carrego no peito o que ela me ensinou;
Palavras que são como abraços ou adagas
Que cravei na carne,
Na saudade daquilo que sou...
Mongiardim Saraiva
1/16/2020
Carta de Amor
Minha bela e doce amada,
A inspiração nua e crua provém de ti, ó Lua!
Quando saio pela rua, olho as casas, o céu e as pessoas. Mas à noite, só tenho olhos para ti, minha Lua. Na linda forma redonda, brilhante e só tua. Quando sorris para mim com malícia e me convidas, peço-te as carícias e os belos raios da tua essência.
Mandas-me um beijo e observas-me de longe, com paciência.
Quero sempre que desças e sonho convidar-te para um passeio. Mas quando te aproximas, olho-te curioso, apaixonado e com receio, já com saudades da tua ausência e radiante pela tua presença.
Vou levar-te para morar numa casa, longe e abandonada, onde possamos namorar em versos e estrofes do nada. Onde só tu e eu criaremos imagens e frases aladas.
E um dia voaremos juntos, pelo céu de muitas luas. Ficaremos íntimos e carentes, no brilho do teu luar. Anunciaremos então e por fim ao mundo, o dia em que iremos casar.
Do teu amoroso, ardente e eterno apaixonado,
Mongiardim Saraiva
12/30/2019
Ausência
vida é expansão sensorial e consciente
algo que não tem tamanho nem forma
uma energia que brota de dentro de nós
para se tornar essência da nossa norma
sentimento ilhado preso na nossa voz
que procura outros lugares para morar
como albatroz pairante só e compassado
uma odisseia perpetuada no crepúsculo
das noites que nos agarram sem guarda
nas manhãs vagas do chilrear dos pássaros
e no brilho fugaz de uma estrela que tarda
somos essa ausência que nos transcende
que nos impulsiona para dentro do ser
uma imensa vontade de tudo abraçar
para lá do horizonte que podemos ter
Mongiardim Saraiva
12/27/2019
A esquerda pariu um sapo
a esquerda pariu um sapo
uma obra do reino fantástico
da roubalheira e da enganação
no planalto da encruzilhada
fizeram aparecer um charco
onde girinos comandam a nação
um sapo nunca aparece por acaso
mas no meio de muitos mosquitos
o império ficou assim mais raso
e os esquerdistas urram aflitos
agora não vale a pena chorar
o leite que já foi derramado
tudo é obra de um bando perdido
no ocaso de um país acabado
Mongiardim Saraiva
12/05/2019
Entre o sonho e o sono
a janela entreaberta e larga
permitia a entrada de uma luz
que inundava o meu quarto encantado
onde os meus heróis não paravam de entrar
oriundos daquele cometa apaixonado
animados por aquele azul sem mar
como se estivessem vivos e presentes
nas aventuras e histórias de sonhar
eu passeava por entre o anil do céu
e o brilho cintilante das estrelas
como se tudo me pertencesse agora
ausente e contente no meu brincar
sentia no sono um acordar latente
que me queria ali feliz para sempre
puro encanto de um despertar
Mongiardim Saraiva
11/30/2019
Análise do discurso

aquilo que sou não me pertence
devo-o à ideologia e à formação discursiva
não passo de uma bolha entre interdiscursos
que saltita imanente e dialógica sem parar
que arrasta ditos e já-ditos na interação verbal
sou muito pouco e gostaria de ser mais
não apenas o sujeito pobre da enunciação
mas um enunciado carregado de muitos sentidos
que não dependam de condições de produção
o sujeito de um discurso breve único e só
uma heterogeneidade mostrada e marcada
apenas constituída por vozes na minha voz
talvez um belo e perene novo enunciado
fora do tempo e do rol das memórias
sem conceitos estigmas e histórias
Mongiardim Saraiva
11/18/2019
Cão que ladra não morde
só te ouço ladrar
bradar um uivo sem par
morder que é bom
não é o teu dom
a tua arma são as arruaças
badernas que usas de cor
em praças de muitas raças
que fingem morrer de amor
queres uma vida bem melhor
mas só pensas em reclamar
daqueles que te ousam calar
por que não cerras os dentes
de branco vil ensanguentado
e não usas a tua louca mente
para morder o teu próprio rabo
"cão que ladra não morde"
sempre ouvi o meu pai dizer
se for verdade vais enlouquecer
aos poucos parado e ilhado
só te resta seguir a matilha
que cospe um fel açucarado
Mongiardim Saraiva
11/11/2019
Brado retumbante
soltaram-no(s)
repentinamente
nas nossas barbas
de molho inocentes
até quando sorriremos
apenas para disfarçar
a nossa vil tristeza
da alegria que mente
ó povo embrutecido
que se ignora presente
é hora de nos cuidarmos
como a quem se quer
e não deixarmos soltar
quem solto nos quer presos
onde estão vocês agora
entristecidos e enganados
agitai-vos no vosso trono
feito de lama e de fuligem
trazei o vosso respeito à tona
e imaginai uma pátria virgem
desflorada pela luz de um sonho
não percais a calma e a alma
segurai a vossa bandeira firme
serrai os dentes bradai e repudiai
a nossa casa é um templo sagrado
o lugar de um bandido é na prisão
empunhai a espada do ardor inusitado
mesmo que a lança corte a tua mão
Mongiardim Saraiva
11/05/2019
Brado de guerra
às vezes é melhor passar pela guerra
apesar da injustiça e das matanças
o horizonte abre-se com uma serra
e apagam-se os nós e as heranças
só de paz não vive o homem de bem
que teima em manter-se amargurado
é preciso acabar com o que é ditado
em versos que não abonem a glória
em letras fundas e cruas ser o brado
mudar o caos vazio e desfigurado
para que uma nova raça seja gerada
um povo que morre não tem história
apenas vive de uma lembrança ilhada
caminha na escuridão sem ter memória
segura na boca uma mordaça apertada
Mongiardim Saraiva
10/22/2019
Ávidos
tenho visto sórdidos trejeitos
afeitos e nus na prática decente
mentirosos contumazes e atentos
na sociedade doente sem semente
cicatrizes e meretrizes nos leitos
escorreitos que exalam a perfume
ode ao canibalismo cru e visceral
adubo com cheiro forte a estrume
que nos rega a carne nos rodízios
óleo que escorre do nosso animal
para outro animal já ressequido
fel que guarda a essência do mal
sempre pronto a engolir contido
dinheiro que nos mostra ser fatal
transformar uma natureza em cal
se nos deixarmos um dia abater
morrer vai ser um sonho delirante
radiantes e sós por esse turbilhão
cometeremos loucuras para ter pão
ávidos por um presente esfuziante
seremos carcaças podres e frias
cobertas de moscas e de orgias
as putas serão as nossas deusas
coitadas e exaltadas nas alegrias
à vida daremos o último suspiro
um longo pesado e eterno adeus
continuaremos a rir na batalha
e mataremos em nome de deus
mongiardimsaraiva
10/10/2019
As hienas
ouço ao longe o riso das hienas
que se aproximam em grupos
e corpos preparados para trucidar
bocas fétidas negras e obscenas
erguidas pelas patas dianteiras
que sacodem o instinto de matar
covardemente tentam cercar-me
conheço-as de ocasiões certeiras
feitas de migalhas do meu jantar
já sei que não devo mostrar temor
pela procura ávida do meu sangue
sou eu quem devo atacá-las primeiro
ou despistá-las para sempre ao luar
num gesto bravo e atento com ardor
elas não resistem à tortura do mangue
sangue misturado nas areias sem cheiro
esfarrapadas pela sede e pela fome
perdem-me rapidamente nesse terreiro
em risos vis de escárnio e fingimento
sigo agora o caminho muito atento
apenas aos homens que cruzem a estrada
das pobres hienas esfomeadas sou vento
que leva para longe o som do seu lamento
mongiardimsaraiva
9/21/2019
Voando na madrugada
quando a noite se curva sobre a tarde
e se apodera da fadiga que em mim ficou
liberto-me dos despojos de mais um dia claro
encanto-me na chegada dessa escuridão
as sombras projetam-se junto aos meus passos
como raros seres que caminham ao meu lado
em lapsos cegos de encantamento certeiro
sou lançado nos confins da madrugada
como ave de rapina atenta e encantada
subo lá no alto sereno em círculos fechados
e de lá avisto tranquilo todos os cansaços
da luta que se liberta dos laços
mergulho no vazio da imensidão velada
à procuro do meu alimento sagrado
não sou mais do que um pássaro ao vento
voando em círculos largos e concêntricos
livre leve e solto como a madrugada
mongiardimsaraiva
e se apodera da fadiga que em mim ficou
liberto-me dos despojos de mais um dia claro
encanto-me na chegada dessa escuridão
as sombras projetam-se junto aos meus passos
como raros seres que caminham ao meu lado
em lapsos cegos de encantamento certeiro
sou lançado nos confins da madrugada
como ave de rapina atenta e encantada
subo lá no alto sereno em círculos fechados
e de lá avisto tranquilo todos os cansaços
da luta que se liberta dos laços
mergulho no vazio da imensidão velada
à procuro do meu alimento sagrado
não sou mais do que um pássaro ao vento
voando em círculos largos e concêntricos
livre leve e solto como a madrugada
mongiardimsaraiva
9/20/2019
Suspenso
Suspenso, resiste às intenções dos amigos
Que torcem amigavelmente pela sua queda,
Apesar da luz forte e amarelada que parece mantê-lo ali para sempre
À mercê dos braços suaves e fortes da calmaria do lago.
À margem de si mesma, a imagem conseguiu parar no tempo
E evidenciar a saudade que sentimos dos tempos de outrora,
Em que as brincadeiras eram simples, leves e nos pertenciam...
mongiardimsaraiva
9/16/2019
9/03/2019
Amazônia selvagem
Música que brota da terra
No encanto da água
E nas matas que florescem
Onde a vida ri e serpenteia
Uma ode ao crepúsculo
Ao sol que tudo permeia
E às manhãs que cantam
Uma súplica a mil vozes
Que produz um eco infinito
E nos chama para afagar
Um estertor só e aflito
Que nos ama sem parar
mongiardimsaraiva
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