6/29/2016

ABRAÇADOS

Sinto essa tua doce presença                                    
Abraçada ao meu corpo quente
Presente em toda a madrugada
Sou uma esponja desse amor
Impregnado na minha mente
Mentor de tudo e do meu nada
Delicio-me no teu seio ardente
Que queima em fogo latente
Mantido por mãos de uma fada
Queria ficar assim para sempre
Preso ao calor dessa fogueira
Que arde nua e só sem se ver
Alvorecer sagrado na natureza
Dias consagrados sem tristeza
Abraçados ao prazer de nos ter

mongiardimsaraiva

6/15/2016

HOMEOPATIA

Um baile sem música                                    
Figuras tristes e embriagadas
Sem a noção do uso da vida
Miseráveis da moralidade
Ocultada em gestos forçados
Sedentos do soro da mentira
Servido em doses invisíveis
Homeopáticas e malignas
Teimam em ter e não ser
Mídia vazia e desconstruída
Semente da nossa morte
Inimiga sangrenta da sorte
Com ideias vãs e estupradas
Amarrados ao prazer dos nós
Vamos prosseguindo sós
Solitariamente apagados
Pelas más e vis lembranças
Ilhados tristes amargurados
Esquecidos de sermos nós

mongiardimsaraiva
       






6/14/2016

A MANADA




Escurecia rapidamente e a manada reuniu-se para iniciar a descida; sombras que ganhavam forma aos poucos, até se tornarem bois enormes, com um cheiro forte e hastes retorcidas. O mais velho parecia ganhar a dianteira, logo seguido pelos mais novos e por algumas crias, num cortejo silencioso e ordeiro. Juntos, vinham ocupar a lateral junto à cerca, próximo da estrada e muito perto de mim. Tinham um ar indolente e desconfiado. Ao menor movimento, pareciam assustar-se e desembestavam em pequenos trotes de nervosismo. Aguardavam uns pelos outros até ao cair da noite, quando formavam uma intensa e misteriosa fila indiana. Ninguém sabia qual o seu propósito, para onde se deslocavam e qual era o seu destino. De repente pareciam sumir na noite, envolvidos pela bruma junto ao matagal. Isso acontecia quando, espontaneamente, desapareciam ao atingir uma pequena depressão junto a um dos bebedouros improvisados ao lado da estrada. Desconhecia-se como isso era possível e alguns, atribuíam-no a um poder sobrenatural da montanha. Tudo acontecia num compasso de mágica e as criaturas deixavam de repente de ser vistas, como se existisse alguma caverna que as engolisse. Algo as absorvia ou dissipava, como um pesado nevoeiro feito para ocultar. Eu queria entender o que acontecia nesse momento e o que existia efetivamente junto àquela pequena depressão na beira da estrada, onde o trânsito circulava normalmente e com bastante intensidade. Naquele fim de tarde, aproximei-me cautelosamente do local antes que chegasse o chefe da manada. Para isso, agachei-me cuidadosamente por detrás de umas ervas. Esperei talvez uns quinze ou vinte minutos, até sentir os passos pesados e indolentes do comandante. Estava gelado e nervoso quando encarei de muito perto aquele animal, possante e escuro. Sentia que ele me notava, apesar do seu ar distante, compenetrado e seguro. O medo tomou conta de mim e por um instante, percebi que ali o intruso era eu. Definitivamente, eu não parecia fazer parte daquele ritual quase sagrado. Em alguns instantes, o segundo e o terceiro boi apareceram e logo toda a manada estava ali presente, como que reunida numa cerimônia ensaiada. A névoa parecia ter baixado ainda mais e o primeiro animal caminhava agora na minha direção, num compasso lento e definitivo. Prestei toda a atenção e aguardei por um milagre ou por algo que pudesse explicar aquela história fantástica. Petrificado, mal podia acreditar no que via, ou melhor, no que não via; os bois pareciam desaparecer por baixo de mim, como num compasso de mágica sem qualquer explicação. Algo muito inusitado acabava de acontecer, o que me deixou ainda mais curioso, apreensivo e com vontade de investigar. Aguardei então pacientemente a chegada do último animal e assim que ele desapareceu perante os meus olhos, levantei-me assustado e desci trêmulo aquele pequeno declive. A noite estava muito escura e pude constatar que os animais não estavam mais ali, o que me fez suar frio perante a possibilidade de poder desaparecer também. Bastante assustado olhei em volta e procurei os bois, ofuscado por uma pequena luz amarelada que brilhava agora por baixo da estrada. Fui atraído por ela e dei alguns passos na direção. O mistério aumentou e pude reconhecer uma pequena abertura na parede rochosa. Havia um túnel improvisado, com menos de dois metros de diâmetro, salpicado por alguns pedaços de esterco ainda úmido. Enchi-me de coragem e percorri aquele espaço vazio, na direção da luz. Não havia vestígios da manada, mas logo adiante ouvi um som que me pareceu familiar. Um pouco à frente reconheci uma grande e tosca casa branca que parecia semi abandonada e vazia. Quando me aproximei da porta, um forte odor tomou conta do meu corpo. Pé ante pé, cheguei perto da porta e espreitei. Uma imensa massa viva, sombria, repousante e formada por cabeças e hastes indicava o paradeiro da minha manada que pareceu não dar pela minha presença, após mais uma longa jornada de pasto na montanha. Um sentimento de regozijo e cumplicidade percorreu a minha mente, como uma pluma muito leve e esvoaçante que parecia indicar-me um caminho. Aquele final, foi determinante e marcante para mim. Muito além da minha expetativa e imaginação. Pude sentir naquele momento, a presença de algo estranho e ao mesmo tempo natural. Uma sensação de plenitude e integridade que me ligava profundamente àqueles seres e àquelas famílias. Agora, tudo começava a fazer sentido. Uma calorosa mensagem tinha acabado de chegar dentro do meu coração. Percebi que era hora de retroceder e voltar para casa...

mongiardimsaraiva

6/08/2016

CÉU E ÁGUA NUM SÓ OLHAR

O pássaro desceu ao rio
O peixe subiu à margem
Entreolhavam-se curiosos
Naquela quase miragem
Permaneciam cuidadosos
Asas adormecidas e seguras
Barbatanas retraídas e duras
Lapso no vazio da viagem
Aos reinos sagrados e sãos
Agora eram quase amigos
Sem se tocarem nas mãos
Voltariam lá muitas vezes
À fronteira desses mundos
Apenas para se olharem
O pássaro não sabia nadar
Um peixe sem poder voar
Céu e água num só olhar

mongiardimsaraiva





 

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