5/10/2017

SEPULTAMENTO

O ar está quente e rarefeito                                                    
Não ouço mais o teu canto
Escureceu dentro do meu leito
Sinto náuseas sem ter pranto
As larvas preparam-se para viver
No meu corpo frio pálido e direito
Querem mutilar-me por dentro
Achar carne dentro do meu peito
A sepultura é a minha última morada
Talhada em pedra sobre o meu feito
Ossos duros seguram-me ao corpo da terra
Imagens imundas lembram-me a guerra
O melhor será morrer já para esquecer
Adormecer sem tarde para não sofrer
Aproveitar essa casa como um abrigo
E dar graças por não ter aqui um amigo
Oferecer-me à importância dessa cova
Que me concede o direito de não ser
Como um parasita inconsciente e mudo
Que não precisa mais de usar as manhas
Despeço-me do mundo sem clemência
Para habitar finalmente nas entranhas
Não quero ser mais cruz nem penitência
Somente preambular sem o meu escudo
Apenas ausência e amor por tudo

mongiardimsaraiva







5/09/2017

HORIZONTE PERDIDO

Perdoai-me a franqueza                                    
A dureza de não ser brando
O que vejo ofende a natureza
Em golpes de fogo queimando
Nesse país à beira do óbito
Sem soldados e sem comando
Quase perdido e perambulando
Sigo uma jornada sem céu
Réu também nessa tristeza
Que apodrece rostos sem véu
Queria não ter de olhar-vos
Passar por vós na doce brisa
Ausentar-me dessa maldade
Correr para a vida interrompida
Sei que estou na contramão
De uma criação desmerecida
Lanço-me na imensidão do poço
Num vazio sem contestação
Sou um pedaço de incerteza
Que busca abrigo em outra mão

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)

Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)