11/24/2017

PRISIONEIRO DO MAR




Os dias são como as ondas do mar;
Cantam a música no sopro do vento,
Agitados na espuma que quer se levantar.
Espreguiçam-se na correnteza cálida e apaziguadora,
Vomitam labaredas de fogo e consternação.
São tímidos bivalves que evitam abrir a sua concha.
Às vezes, ouvem-se vozes que são puros lamentos de paixão.
Por vezes sussurros, queixumes sem eco e sem razão. 
Os cânticos mais alegres são aqueles do perdão...
A voz das sereias atrai-me para dentro do mar.
Ouço-as sempre que mergulho a pique e sem pensar.
Às vezes, sento-me no leito a soluçar
E chamo-as para junto do meu ficar...
Vêm rodeadas por cardumes de todas as cores.
Sorriem para mim, em sinal de júbilo e bem-estar.
A pouco e pouco, sentam-se em volta e começam a cantar.
Quando penso em respirar, já é tarde...
Estou tomado pelo canto e pela poesia das sereias.
Agora, faço parte dessa areia...
Sou prisioneiro do mar. 

mongiardimsaraiva




  

11/23/2017

O CAPOTE




Olhei aquele homem que atravessava a cidade. Apesar de o ter visto por pouco tempo, consegui observá-lo razoavelmente. Homem novo, alto, cara chupada e maçãs do rosto muito salientes. Cabelo comprido acastanhado, liso, penteado e com a pele escura danificada pelo sol de muitas caminhadas. Parecia seguir sozinho, absolutamente só, sem fazer parte de nós e daquele contexto. Tremendamente seguro, dentro de um capote escuro corroído pelo tempo e pelo pó. Camisa branca de colarinho fechado sem gravata, que envolvia o pescoço muito magro e enrugado. Pretendia certamente assegurar um ar social e formal, mas o traje era demasiado velho, apesar de extremamente engomado. Era um ser totalmente pairante e abstrato. Uma silhueta negra e determinada que seguia pela rua em passo cadenciado. Fazia lembrar um daqueles pistoleiros dos "western" que aparecia na linha do horizonte perto dos povoados, a arrastar as botas e pronto para honrar o seu nome em mais um duelo. Apesar dos seus estranhos trejeitos e do seu ar semi marginalizado, achei que transmitia alguma dignidade. Muito compenetrado e ciente do seu papel. Ou talvez não. De repente, percebi que já o avistara outras vezes, mas não como daquela vez. Parecia deslizar por entre as pessoas, como um figurante que acabara de desempenhar o seu papel numa longa filmagem. Estranhei o fato de ninguém olhar para ele. Todos pareciam já conhecê-lo ou, talvez, nem achassem pretexto para notá-lo. Só lhe faltava o "colt", segurando duas belas pistolas prateadas e reluzentes. As botas daquele pistoleiro eram uns velhos sapatos cambados, exageradamente engraxados e brilhantes. Olhei atentamente para uma das suas mãos, que se deixava parcialmente cobrir pelo punho muito branco da camisa. Havia nele um quê de fidalgo, pobre e rejeitado. De repente, senti vontade de saber um pouco mais sobre aquele homem que, apesar de uma aparência frágil e alienada, caminhava por entre o povo de cabeça levantada. Notei que, entre os dedos da sua mão direita, apertava algo intensamente. Era alguma coisa que parecia pertencer-lhe há muito, muito tempo. Procurei reconhecer aquele objeto, semi retorcido e gasto. Parecia um papel amassado. Naquele instante, o sino da velha igreja tocou duas vezes. Instintivamente, aquele homem transferiu o seu objeto para a outra mão, num gesto rápido e preciso, como se quisesse conferir que não esquecera o seu livro sagrado. Ao longe, aquele capote, gasto e surrado, parecia agora mais a batina de um monge a caminho do seu santuário. De cabeça baixa, implorando pelo seu destino... 

mongiardimsaraiva

11/14/2017

GOL DE PLACA

Sei que não tem nada a ver,                                     
Mas continuam a fazer gol;
Gol, gol, gol, a torto e a direito.
Bolas que batem no nosso peito
E entram no gol do nosso ser.
Alguém deve estar anestesiado,
Doido varrido ou embriagado,
Porque não se vê gol de outro jeito;
Gol sem placa, gol mal batido por falta.
Só gol de bola parada, sem respeito.
Onde estão os senhores da bola toda?
Tudo é gol, sem gol de espécie alguma.
Onde fica o país dessa bola quadrada?
Das bolas murchas de gente nenhuma?
Para onde vai esse jogo sem ser jogado?
Parem de fazer gol nas vossas balizas!
Olhem bem em volta dos estádios!
Façam gol nas vossas riquezas alienadas!
Criem jogos sem guerra e corrupção!
Façam o gol da sabedoria e do respeito!
Usem a vossa voz para criar laços!
Laços de humanidade e solidariedade.
Quero voltar a jogar um bom futebol...
Por enquanto, só escuto os gritos de gol;
Gol, gol, gol, das mentes apaziguadas.
Quero tanto gritar gol com vocês!
Um gol de muitas vidas que imploram...
Um gol decisivo, magnífico e sem igual;
Um gol para todo o sempre...
Gol de placa, com sabor a vitória!

mongiardimsaraiva






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