7/27/2018

Entre Telas e Telinhas: o Comportamento da Sociedade no Uso do Celular




"Poderíamos pensar a Internet como uma enorme célula que se alimenta, expande e transforma continuamente, multiplicando incessantemente o seu poder de alcance e disseminação. Como um grande cérebro que constrói as suas sinapses e cadeias, de uma forma prodigiosa e precisa. Magnífica e tentadora, como uma bela mulher insinuante e cheia de predicados. Perigosa e reservada, como aqueles que não se mostram totalmente. Intensa, magnífica e exuberante nos seus propósitos de grande dama. Sempre na moda, usando uma maquilhagem reluzente ou sóbria, de acordo com os momentos ou situações. Exigente, ciumenta e possessiva para todos aqueles que não lhe dão a devida atenção ou manifestam o seu interesse. Uma poderosa máquina agregadora, que exige a presença de todos, sem exceção. Navegar pela Internet é poder cruzar, quase instantaneamente todos os oceanos ao mesmo tempo. Uma verdadeira odisseia fantástica e inconcebível, quase capaz de suplantar as velhas e ilustres caravelas do nosso passado remoto e glorioso". (MONGIARDIMSARAIVA, Recanto das Letras, Internet, p.1)
O celular é a principal ferramenta responsável pelo acesso facilitado a essa poderosa máquina viciante e exigente. Durante todo o dia não somos mais capazes de deixá-lo de lado e muito menos esquecê-lo. É através dele que nos conectamos uns aos outros e com o mundo. Conseguimos saber coisas mirabolantes sobre a vida dos outros e informamos, através dele, muitas coisas que acontecem conosco. 
Com isso, gera-se uma dependência dificílima de eliminar, já que o nosso cérebro habitua-se a receber notícias constantemente e com isso, passa também a procurá-las avidamente. Funciona como se nós nos alimentássemos alienadamente e sem parar de um imenso jornal coletivo do cotidiano, do qual fazemos parte.
Estudos realizados, apontam que esses dispositivos eletrônicos agem como uma espécie de pacotinhos de prazer, através das novidades que são endereçadas ao nosso cérebro. A dopamina, substância estimulante que é produzida, encarrega-se de gerar uma sensação de satisfação que faz com que fiquemos subjugados a essa rotina. 
E assim, algumas pessoas tornam-se dependentes, a ponto de brigar para não perder oportunidades de conexão ou aparelhos que trazem um bem estar efêmero, precioso e inadiável. Ou em outras situações, tomando atitudes verdadeiramente inusitadas por extravio dessas máquinas gerando até, nalguns casos, a perda de voos agendados e/ou compromissos inadiáveis.
Em algumas situações, segundo estudos efetuados por psicólogos, o aparelho celular pode funcionar como uma espécie de alívio ou terapia para aquelas pessoas que sofrem de ansiedade, já que é suposto perceber que quem se vicia já traz consigo algum tipo de problema... 
No caso dos adolescentes, o comportamento é especialmente preocupante, visto que eles adquirem hábitos que arrastarão para a fase adulta. Segundo pesquisas, 15% acabam por ler menos livros, em virtude do tempo que gastam ao estar conectados. A maioria dos adolescentes reconhece que está viciada. Por razões biológicas, esses jovens têm menos controle sobre os seus impulsos e por isso, maior dificuldade para dosar o uso dos seus aparelhos. Como o desenvolvimento cerebral é processado por etapas, acontece que a última região a maturar é o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, o que deixa o adolescente ainda mais à mercê do hábito viciante.
Para além dos aspetos negativos e perigosos, é justo também referir algumas vantagens relevantes e objetivas. Os celulares possuem o poder de nos conectar a um mundo que está ativo 24 horas por dia, o que por si só já é um fator de enorme sucesso. Eles contribuem também para dissolver alguns problemas emocionais graves do ser humano, como a solidão. O smartphone tornou-se uma espécie de espaço individual aconchegante. Ele funciona na zona de conforto, principalmente para aquelas pessoas que vivem nas grandes metrópoles. O seu potencial é enorme quando se trata de estabelecer e alimentar relacionamentos, mesmo que seja através da frieza e artificialidade da sua rede e estrutura. 
Diante de toda essa realidade, é lícito perguntar qual será o futuro da humanidade que parece cada vez mais não abrir mão de um estilo de vida compartilhado, atraente e prático, mas que ao mesmo tempo parece comprometer profundamente a sua capacidade de criar laços naturais, profundos e duráveis. Inclusivamente quando a célula familiar, tão importante para a manutenção da espécie, parece dar graves sinais de fragilidade e balança por falta de capacitação e aproximação entre os elementos que a compõem.
É habitual, nestes casos, apelar-se para o bom senso, como último reduto para uma saída razoável e sustentável. Mas será que não é um pouco tarde?

mongiardimsaraiva

7/12/2018

Otorrinolaringologia



Cheguei cedo. O acesso à sala de espera manteve-nos de pé, junto à porta da entrada. Era um prédio daqueles com muitas salas de atendimento comercial e as pessoas circulavam impacientes por todos os lados. Os elevadores eram todos fechados e em aço, onde cabiam umas oito ou dez pessoas bem espremidas. Junto à porta de entrada, no piso térreo, havia um porteiro que ordenava o fluxo destinado aos vários pisos. 
Finalmente, alguém abriu aquela porta de vidro que nos possibilitou o acesso à sala de espera. Uma mulher de meia idade com uma expressão séria e pesada deu-nos um "bom dia", num tom arrastado e grave. Quando ela passou por detrás de um pequeno balcão e se sentou, percebemos tratar-se da secretária. Não parecia muito comunicativa e dava a sensação que cumpria mais um enfadonho período da sua rotina diária. De pele e olhos claros, fez-me lembrar uma matriarca alemã, com o seu ar formal, rigoroso e severo. 
Fomos os primeiros a entrar, juntamente com uma mulher muito magra e mais nova que nos lançou um sorriso de resignação e cumplicidade. Passado pouco tempo chegaram mais três pessoas; uma senhora idosa muito cansada e um senhor de meia idade que acompanhava a filha, uma adolescente que aparentava ter uns treze ou quatorze anos. Embora tenhamos chegado primeiro, não fomos logo atendidos. 
Já passava bem das quatorze horas quando entrou na sala um homem muito baixo que trajava uma roupa simples e enxovalhada. Aparentava ter mais de setenta anos e a sua expressão não deixava nada a desmerecer ao semblante da secretária. O rosto fechado e seco não transmitia nenhuma simpatia, o que fez com que não emitisse qualquer som à chegada. Apenas um "boa tarde" entre dentes, emitido em tom de favor. Percebemos tratar-se do médico, apenas porque se dirigiu com a sua chave a uma outra porta em vidro de comunicação com o consultório. Quando a porta voltou a se fechar, a senhora de idade que estava ao nosso lado perguntou: - Esse médico é bom?! Olhei para ela, para a minha amiga e respondi apenas com um sorriso. Como não fomos os primeiros a ser atendidos, tivemos que esperar mais uma meia hora. O ambiente da sala estava calmo e o som baixinho de uma pequena televisão suspensa transmitia uma certa atmosfera de paz, apesar de tudo.
Quando aquela segunda porta de vidro se abriu de repente, a figura de um homem baixo e empertigado anunciou numa voz metálica e estridente o nome da minha amiga, de uma forma soletrada, cadenciada e extensa como uma máquina que reproduz a sua gravação. A expressão do médico era agora a de um pequeno comandante no uso pleno das suas credenciais e direitos. Não era mais aquele homem triste e apagado que tinha passado por nós. Reparei no seu pequeno bigode escuro, quadrado e bem delineado que imediatamente apelou para a minha memória sensível e fotográfica. Sim, eu já tinha visto aquele rosto, ou pelo menos, um rosto muito parecido com aquele. O tom, o gesto e a expressão condiziam nitidamente com os parâmetros que me transmitiam aquela sensação nítida de semelhança. Procurei a minha amiga, numa rápida troca de olhares. Não havia a menor dúvida. Por obra de um acaso inimaginável e transcendente, tinha a sensação de ter sido transportado para uma Alemanha em guerra dos anos 40, onde a presença daquele casal parecia representar uma encenação quase real de Adolf Hitler e a sua secretária. O olhar de espanto da minha amiga traduzia bem essa sensação estranha de realidade fantasmagórica. Era inacreditável. Apesar de tudo, levantamo-nos e seguimos aquele homem.
O consultório era pequeno e bem arrumado onde os objetos pareciam encaixar-se rigorosamente. Havia duas poltronas vazias defronte de uma secretária escura de linhas modernas e bem apetrechada com dois notebook. Sentamo-nos lado a lado e aguardamos a presença do nosso anfitrião. Quando tentávamos trocar algumas palavras sobre aquele impactante momento, reparamos que o nosso homem já tinha assumido o seu lugar de comando bem à nossa frente. Aguardava-nos, com um olhar intenso e inquisidor. Fez-se silêncio. - Senhora Maria, tal, tal, profissão tal, moradora em tal, cidade de tal... A minha amiga pronunciava as palavras e seguia-o com um olhar arregalado de surpresa total, limitando-se a confirmar os seus dados. - Bom, e qual é a história que a senhora tem para nos contar? Nesse momento, e talvez apelando para a minha fértil imaginação, eu não pude deixar de recordar aqueles relatos do holocausto em que os médicos nazistas fizeram experiências terríveis com judeus, em nome da purificação da raça. - Vamos observar, disse o médico. - Sente-se naquela cadeira! A minha amiga levantou-se lentamente e eu permaneci estático, entregue ao meu pensamento. Aquilo parecia muito real, mas talvez fosse só uma forte sugestão. - O senhor, venha aqui! Olhei para trás, afastei a cadeira e levantei-me rapidamente. - Coloque-se aqui atrás de mim! Assim fiz e aguardei. - Vê essas duas manchas brancas no fundo da boca, perto dos dois molares? Fiz que sim com a cabeça e ele desligou rapidamente a lanterna. Voltamos os três para a mesa do consultório.  Olhou para nós e fez uma curta pausa. - Vamos ali numa outra sala! - Abra a boca! E pingou algumas gotas que pareciam ser de anestésico. Acompanhei-os e observei que o médico empunhava um instrumento comprido em forma de sonda, com uma luz na ponta. Naquele momento, mais nítidas se aguçaram em mim as imagens do nazismo, ao associar aquele instrumento e aquele homem a um cenário de tortura. - Abra a boca! Não dói! E enfiou aquilo pela boca abaixo da minha amiga. Logo, através de um monitor, começaram a aparecer as imagens de um percurso inusitado de cavidades e protuberâncias rosadas. - Não tem nada! Voltamos para o consultório. E começou a preparar a sua receita. - Não tem nada grave! - É ansiedade! - Estresse! - Vou receitar apenas alguns medicamentos que penso irão resolver o problema! E olhou bem nos olhos da minha amiga para dizer: - E não fique nesse nhãnhãnhã de mastigação que vai ser pior, ouviu? - Tem de aprender a controlar-se! E apontava agora com o dedo indicador para a sua cabeça. Para ajudar, deverá fazer vários gargarejos com Mylanta Plus, assim!!! E num gesto muito rápido puxou a cadeira para trás e simulou o gargarejo através de um som de glóglóglógló, muito alto, que mais parecia uma sirene de aviso de ataque aéreo... E logo a seguir exemplificou o bochecho; blublublublu, corpo para a frente, olhando fixamente a minha amiga nos olhos e movimentando as suas bochechas para cima e para baixo, sem parar. Era impossível não rir perante aquela cena alucinante de um quase Hitler já na sua fase decadente... Enfim, aquele final servira para aliviar um pouco toda a tensão daqueles momentos, patéticos e surreais. Agora, eu e a minha amiga ríamos sem temor daquele homem engraçado e sem graça que nos olhava ainda sério, como se não pudesse rir. - Muito obrigado, doutor!

mongiardimsaraiva

7/08/2018

Por cima das ondas





um olhar sobre as ondas
por cima das cristas do mar
salpicos que brilham ao luar
como peixes feitos em prata
no refluxo das minhas entranhas
sacudo as margens do meu ser
sou náufrago sem o saber
e balanço numa escuna só
perdido no meu pouco tempo
tento desatar o aperto dos nós
lanço meus prantos em tons de cinza
e seguro o meu olhar a esse cais
vou embarcar na luz de uma imagem
escutar o som do eco da miragem
e perpetuar-me no voo de uma gaivota
sou agora mais do que uma onda
sou do mar um amigo que se esvai
em sangue que lambe as feridas
na saudade dissolvo as partidas
e morro pelo amor que não sai

mongiardimsaraiva

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