10/10/2018

Incerteza

o amor é feito de incertezas                                     
como num passeio à beira mar
em que os salpicos nos refrescam
as conchas sorriem só para nós
e os barcos nos saúdam ao longe
com o som grave das suas sirenes
apesar de estarmos ali de passagem
a brisa traz-nos o cheiro da maresia
e o amor que sentimos é como o sol
ávido por nos possuir nas estrelas
incertamente sonhamos com a lua
e trazemos para nós o doce balançar
de uma gôndola em águas paradas
queremos uma certeza acabada
mas não possuímos nunca esse amor
que escorre só por entre as pedras
entramos na água quase em segredo
mergulhamos nas ondas sagradas
e nadamos rápido para muito longe
correnteza da incerteza que nos leva
para dentro do mantra de um monge
que um dia abdicou da sua riqueza
e pôde ver alguma certeza ao longe


mongiardimsaraiva







10/05/2018

A serpente

Cristas de fogo descem pela mata                               
Como serpentes ardentes e alvoroçadas.
Há um rasto que se apaga inocente;
Mais vidas têm de morrer queimadas
Ou abandonar depressa a inocência
Comovente e urgente de quem sente.
Os animais e as plantas sem ter nada,
Apavorados e famintos sem saber;
A fugir no desespero de não morrer.
Aos homens foi tirada mais uma casa,
Embora não sintam que estão sós...
Sacudidos pelo calor que derrete,
Não têm os olhos virados para a serra;
Só para as guerras dos seus avós...
Não se lembram do verde das folhas.
Não percebem que a água secou por ali.
São apenas escravos do poder de ter,
Do agora que emite gritos e gemidos...
Quando um dia acordarem aflitos,
Talvez os seus filhos já estejam mortos,
Ou não vivam nem sequer para chorar.
Aos deuses sacrificados da floresta
Resta apenas tentar num outro local.
Partir para terras com menos mal
E afagar a alma de quem não sobreviveu.
A montanha segurou todas as suas cobras,
Mas a última serpente, essa morreu...

mongiardimsaraiva

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Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)