11/30/2018

Banho de enxofre


O local era um enorme pavilhão em pedra acastanhada situado no meio da mata e continha, no seu interior, um claustro muito largo rigorosamente preservado e limpo. No meio, existia um jardim, recortado por sebes geométricas com alguns canteiros de flores de tons suaves. O ambiente fazia lembrar um retiro espiritual, onde fosse possível esquecer tudo o que se passa no mundo terreno; uma espécie de Shangri-la. Algumas pessoas, na maioria idosos, percorriam o claustro lentamente, outros, estavam sentados em bancos compridos de madeira. O tempo parecia ter parado naquele lugar e apenas o som de um cântico remoto e aprazível perpetuava como um poderoso mantra.  Algumas mulheres mais novas com um ar extremamente determinado e prático pareciam estar programadas em rituais e rotinas de silêncio, previamente ensaiadas.
Eu não estava ali por acaso. Tinham-me dito que aquele era um lugar de cura, cuja regência espiritual estava a cargo do Padre Pio, figura muito conhecida e querida no meio religioso e espiritual. A ele foram atribuídas algumas graças que o marcaram como uma figura santificada e venerada por todos. Já algumas vezes tinha visitado o lugar, mas nunca como naquele dia em que me fora prescrito um "banho de enxofre". De acordo com os preceitos espiritualistas, ele era indicado nalguns casos, nomeadamente quando havia a necessidade de purificar o ser humano, levando-o a uma postura mais espiritualizada e com menor densidade material. 
O meu banho estava marcado para as 16 horas e esforcei-me por chegar uns quinze minutos antes. Estava com uma certa apreensão, apesar do lugar me transportar para uma realidade absolutamente tranquila e prazerosa. Afinal, sempre associei o enxofre a uma substância um tanto ou quanto perigosa com um odor muito forte e quase insuportável. 
Às 16 horas em ponto, uma mulher aproximou-se de mim e convidou-me a acompanhá-la pelas dependências do pavilhão. Era muito nova, simpática, cordial e fez-me lembrar um personagem extraído da mitologia grega ou de um conto de fadas. Antes de chegarmos na sala do banho parou e fez algumas recomendações breves e preliminares acerca da sessão. Disse-me também que, quado entrasse na sala, teria tudo o que precisasse para permanecer ali o tempo que quisesse e que deveria entrar completamente nu numa banheira e mergulhar nela todo o corpo à excepção da cabeça.
Assim procedi. Entrei na sala e reparei que era francamente espaçosa e arejada. Extremamente limpa e organizada, apesar da sua decoração austera composta por uma grande banheira de esmalte, duas cadeiras de madeira, um balcão comprido, um tapete e duas toalhas rigorosamente brancas. Olhei em volta e pensei que tudo aquilo era fantástico e digno de ficar registado na minha mente, já que tive a nítida sensação que passava por uma experiência indescritível e muito misteriosa. Tirei a roupa e experimentei a temperatura da água. Estava morna e notei que a tonalidade era amarelada e com um cheiro que imediatamente me fez lembrar o enxofre. O odor não era muito forte e a sensação que dava era mais parecida com a de uma mistura de especiarias. Entrei na água e mergulhei o meu corpo totalmente naquele líquido estranho e envolvente. Parecia que flutuava num caldo docemente preparado para me transportar ao portal de uma outra dimensão, em que os sonhos se tornassem realidade e me revelassem algo de oculto e crucial. Assim fiquei alguns minutos imerso no meu banho até ouvir sons que me fizeram ficar muito atento e ao mesmo tempo muito curioso. Apurei o meu ouvido. Era verdade. Escutei algumas pancadas secas junto à parede, mesmo ao lado da minha banheira. Pareciam sinais emitidos pelo bater de um objeto que poderia ser a mão de alguém a avisar-me que alguma coisa poderia acontecer a partir desse momento. 
Ainda não recuperado da surpresa pude perceber, logo a seguir, alguns sons límpidos e cristalinos que emanavam da voz de uma mulher. Provinham daquela mesma parede onde escutara os primeiros sinais. Era uma voz angelical e afinadíssima que entoava mantras e cânticos, como se aquela experiência atingisse agora um patamar absolutamente único e surreal. Reconheci imediatamente a voz da mulher que me acompanhara há instantes e que agora, num compasso de mágica, fazia parte daquela cena verdadeiramente única e magistral. Aparentemente, ela estaria do lado de fora da casa junto à parede e provavelmente deitada ou agachada, de forma a proporcionar-nos aquele efeito extraordinário. Tudo tinha sido rigorosamente planejado de uma forma singular, aparatosa e ao mesmo tempo muito simples. Afinal, o banho de enxofre tinha um propósito determinado e o ritual trazia-me a sensação de algo muito poderoso e cuidadosamente embasado na espiritualidade. Sentia-me muito relaxado e envolvido por todo aquele mistério. Tentei esvaziar a minha mente o mais possível e focar apenas aquele canto que me seguia e embalava num passeio suave e transcendental. Não sei quanto tempo permaneci envolvido por aquela sensação de paz e harmonia. E a voz continuava lá, emitindo a sua mensagem sem códigos, extremamente poderosa na sua dimensão espiritual e humanística.
Não sei quanto tempo passou, mas a sensação que tive foi a de um intervalo enorme, com certeza muito além da realidade comum. O que era o tempo afinal, senão um desdobramento do nosso condicionamento e expectativas? Saí muito leve, como se tivesse entrado e saído de uma experiência sensorial que tinha alterado, por instantes, a minha visão de mundo. A mulher, aguardava-me do lado de fora, com o mesmo sorriso alegre de anfitriã que me tinha oferecido à chegada. Olhei dentro dos seus olhos e agradeci também com o meu olhar. Respirei fundo e fui embora sozinho, já que não tive nenhuma dificuldade em reconhecer o meu caminho de volta...

mongiardimsaraiva

11/25/2018

Noraney coice de mula



Era uma vez, num lugar distante em que as cobras desciam a pedra gigantesca para fumar o cachimbo da paz e as mulas procuravam avidamente por mais capim...
Havia nesses confins quem passasse o tempo a contar os pardais que pousavam freneticamente nos fios entre os postes da eletricidade e a observar as moscas que pousavam na mesa da cozinha à procura dos restos do almoço.
Nessa pasmaceira, vivia uma mulher de meia idade que aparentava ser daquelas que teimavam em não querer mostrar a idade; cabelo preto asa de corvo comprido e bem esticado, provavelmente pintado com uma tinta barata e de qualidade duvidosa.
Diziam que o seu gênio era terrível e que à mínima tensão repostava um arsenal de palavrões que fazia corar os mais tímidos e pacatos.
Conhecia-a por acaso, quando passei pelo local há muitos anos atrás. 
Lembro-me que avistei ao longe uma pequena casinha de madeira com um ar pitoresco e convidativo. Havia perto da casa um pequeno grupo de crianças que brincavam alegremente e, por momentos, associei-os àquela paisagem atraente e bucólica. Quando me aproximei, notei que todos me encararam com um ar apreensivo e espantado. Perguntei-lhes se moravam ali por perto e se conheciam bem aquele lugar. Olharam uns para os outros e o mais velho adiantou-se gaguejando. Disse-me num tom quase secreto que ali, naquele lugar, ninguém era bem vindo e que a casinha era habitada por uma mulher muito perigosa. Diziam que era a encarnação de uma velha mula que por ali tinha vivido. 
Era uma burra que tinha pertencido a um fazendeiro e que fora vendida a um mercador rico que tinha passado por aquelas terras. A mula era muito apegada ao seu primeiro dono e nunca mais conseguiu demonstrar afeto e submissão por ninguém. Diziam que, por isso, o mercador foi obrigado a desenvencilhar-se dela. Na primeira oportunidade que teve, ofereceu-a a uma das suas amantes que prometeu estimá-la. Assim, essa mulher criou a mula até morrer, apesar da dificuldade em lidar com o animal. Essa mulher tinha uma filha que, diz a lenda, nunca gostou do bicho e que fez tudo para que a burra desaparecesse sem deixar rasto. Quando a mula morreu e para disfarçar, a moça, com remorsos, perguntou ao padre da aldeia se podia enterrar o animal no cemitério da igreja. E assim foi. Sem o animal, a vida daquela menina teria tudo para se tornar mais alegre e promissora. No entanto, a personalidade daquela mulher começou a apresentar sinais preocupantes de um certo nervosismo, o que deixou a população do lugar bastante preocupada. Diziam que ao menor sinal de aproximação e intimidade  manifestado pelos vizinhos, a mulher abria as goelas e arrotava um rol imenso de pesados impropérios, como se por momentos fosse tomada pelo espírito da sua velha mula. 
Aquela criança que me contava essa história tinha um ar sério e jamais me passou pela cabeça duvidar das suas palavras que pareciam jorrar da sua boca como verdades insofismáveis. Nesse momento, um dos outros rapazes que aparentava um certo desinteresse por tudo aquilo, olhou bem nos meus olhos e perguntou de repente: - Você nunca ouviu falar na Noraney coice de mula?!!! 

mongiardimsaraiva

11/01/2018

Execução

transito no vácuo da incerteza                                     
não sei o que pense ou o que escreva
sou apenas um olho que observa
uma cabeça só sem ter escolha
persinto tristezas na escuridão
e alegrias claras sem noção
não sei se isso é bom ou não
mas de uma coisa tenho a certeza
a minha estranheza é certeira
como a alça de uma carabina
apontada à minha caveira
sinto a cegueira num calafrio
sei que não tenho a menor escolha
sou apenas uma não solução
que em solo raso respira a poeira
canto triste a morte desse rio
e preparo-me para a execução

mongiardimsaraiva






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