12/30/2018

A morte da poesia



para que serve a poesia

senão para cantar uma vida vazia

onde estão os que a acolhem e enobrecem

de coração aberto para a realidade fria

cada vez mais velha vai se esboroando

em mares de lama e labaredas de cristal

aos sarracenos foi dada a alegria do mal

por entre as frestas de castelos sem sal

aos poetas foi dada a liberdade do dizer

em soluços e prantos até morrer

o que farei se a tristeza nunca me cala

e a verdade parece escorrer por mim

como se fosse mortalha de uma vela acesa

certeza de me encontrar perdido e só

apenas com as migalhas deste poema

como um andarilho oculto pelo pó


mongiardimsaraiva





12/23/2018

Um texto sem pretexto















chove rãs e peixes do céu
sanguessugas rolam nas estradas
a lama engole as famílias enlutadas
e os cardeais expugnam o réu
há sinais de uma franca orgia
quem diria na casa do pai
toda a alegria é contagiante
delirante a honra que sai
só nos navios a casa não cai
não sentimos a tristeza que vai
só nos traz mais pesadelos
somos carcaças suadas e frias
aos ossos doamos a alegria
vemos até um peixe no céu
sanguessugas sem ter sangue
e rãs que molham o nosso véu

mongiardimsaraiva






12/16/2018

João sem Deus?



Embora tivesse várias vezes afirmado ser apenas um instrumento nas mãos de Deus, o povo atribuiu-lhe o dom divino de algumas curas milagrosas, algo que o aproximou definitivamente da intocabilidade do céu.
Por isso, é extremamente difícil desconsiderar esse pressuposto quando alguns factos muito sombrios e avassaladores remetem a sua reputação na vala comum, onde os mais vis e repugnantes aguardam a hora do acerto final. Quisera Deus que alguns dos seus filhos não tivessem de passar por essas provações. A ira do povo é do tamanho da sua fé inabalável, duramente ferida por um golpe traiçoeiro e lascivo.
E agora? Como atribuir (ou não) a esse homem a mentoria dos propósitos libidinosos de que é acusado, se à partida ele seria apenas um canal receptor de identidades (um médium) que o incorporaram com fins de cura e redenção, aceite e aclamado por aqueles que o procuraram e agora o acusam? Será legítimo responsabilizá-lo, à partida, pelas monstruosidades e práticas realizadas à luz de uma doutrina espírita, regeneradora e misericordiosa? Existe tribunal e legislação para julgar a espiritualidade nas suas mais intrigantes e instigantes instâncias, ou tudo não passa de uma farsa orquestrada por aqueles que se acham acima do bem e do mal? E as milhares de curas realizadas em pessoas do mundo inteiro que o visitaram e se entregaram à sua conduta e espiritualidade? É difícil! Teriam sido então muitos anos de charlatanismo acobertado, sem que tivessem ocorrido depoimentos desabonatórios de qualquer tipo, o que constrói efetivamente uma poderosa aura de elevação e proteção. É estranho que só agora tenha surgido um rol de mulheres ditas abusadas e inconformadas com o seu guru, sendo que nunca a sua sanidade mental e intelectual fora posta em causa.
Queira Deus que este homem não seja culpado no contexto das acusações que contra ele pesam. Certamente, será muito difícil reconhecer a fronteira entre o real e o ilusório, ainda mais quando o assunto é sobre os desígnios de Deus e a conduta dos homens. Não cabe a nós tecer juízos de valor sobre a religião e a fé de cada um. 
Se tiver de pagar por atos conscientes que realizou, que seja feita uma justiça fria, divina e pragmática. Que sirva para aclarar ideias, dúvidas e atitudes sobre causas e assuntos ainda pouco conhecidos e que ninguém tenha a pretensão de julgar os outros sem primeiro se julgar a si próprio, através dos seus pensamentos, palavras e obras.
Tenho comigo que a João (homem) foi dada uma dimensão ilusória e exagerada, sob pretexto de um juízo que talvez não pertença só a Deus.
Acredito que as curas podem se tornar reais e miraculosas quando acreditamos que isso seja possível. Por vezes, temos tendência a idolatrar personagens, rituais e cerimônias, mas esquecemos facilmente que a cura pode estar, simplesmente, dentro de nós.

mongiardimsaraiva


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