5/27/2019

VERSOS IMPREGNADOS




























receba estas palavras impregnadas


por tudo o que passamos juntos


em doces epopeias encantadas

pela luz do dia que nos confinou

saiba que o meu apreço maior

é tê-la aqui comigo para sempre

como borboleta que em mim pousou

por isso suplico por outras primaveras

flores e odores no nosso belo jardim

que a semente do grande amor floresça

e nos ofereça muitas quimeras assim


mongiardimsaraiva

5/17/2019

Talento




















quero eleger o meio-amargo
talentosamente indescritível
como um paraíso tropical
que mostra a sua ilha visível
dentro de uma boca colossal
salpicada por doces amêndoas
que teimam em não desfazer
a alegria de não querer morrer
para saboreá-lo até ao final
obra de um talento marcado
em belos quadrados perfilado
ele existe como um santo graal
fervoroso dedicado e espiritual
um devoto das causas perdidas
cálice divino dos seres amados
uso lascivo para todos os coitados
tudo nele tem um toque sagrado
provem-no sem constrangimento
e deem graças ao saborear o amor
transformem a vossa dor em talento

mongiardimsaraiva





5/15/2019

Pelas barbas do profeta





















pelas barbas do profeta
continuo o meu caminho
pelo profeta e pelas barbas
sigo hoje o mesmo rumo
sou um profeta no sentir
vou segurando o meu prumo
como serei um novo profeta
sem as barbas que não arrumo
se aparecer um novo cometa
em um céu de outras estrelas
vou saber que sou o asceta
do sonho de poder tê-las
entretanto sigo sem meta
pelas barbas do profeta

mongiardimsaraiva

5/11/2019

Bucólica


















exalto as florestas coníferas
de agulhas longas e finas
próprias das regiões frias
ou temperadas do planeta
como nos cartões de natal
que guardo numa gaveta
para esquecer de todo o mal
queria poder plantar flores
em todas os lutos e horrores
poder cheirar e presentear
com singelos botões de rosa
impregnados de um doce aroma
que me lembrasse o amor refinado
tonto e inebriado das paixões
sou refém dos meus sólidos portões
que só abrem quando me sinto ilhado
sou sentinela atenta e impregnada
pelos aromas que voam à minha beira
os meus muros são brancos e silenciosos
por entre as ervas nasce uma trepadeira

mongiardimsaraiva

5/05/2019

O homem que fazia sabão

























Naquele povoado tudo era comandado por uma pequena comunidade religiosa, cujo pastor era um homem severo e antiquado. Detentor de uma palavra forte e vibrante, fazia tremer quem ousasse discordar de alguma das suas ideias e todos se preocupavam em agradar-lhe sem restrições.

As crianças eram as primeiras a correr, quando do alto do seu metro e quase noventa escancarava uma boca rasgada e advertia com voz de trovão.

Todos se preocupavam em louvar um Deus que era formatado à imagem daquela realidade, de acordo com as condições da maioria das pessoas; pobres, sofridas e com um horizonte muito restrito, encurtado ainda mais pela impossibilidade de saírem dali para conhecerem outros lugares.

Mesmo assim, parecia existir uma espécie de serenidade podre e envolvente que deixava tudo com um aspecto de alegria forçada e contagiante, não fosse algumas histórias estranhas e perturbadoras que contavam sobre algumas pessoas da região.

Dentre esses relatos, os mais velhos tinham eleito um personagem que era o principal responsável pelo temor das crianças e deixava os adultos numa incerteza muito grande quando o assunto assim o exigia. Ou sempre que esse homem aparecia na aldeia, transportando consigo todas as maldições concebíveis e inconcebíveis que lhe diziam respeito. Era injusto, mas aquele homem estava fadado a um destino trágico e obscuro apesar de, aparentemente, nunca ter feito mal a ninguém. Diziam que aquele homem era tão estranho e nefasto que, em alguns casos em que fora afrontado pelas crianças, as tinha levado consigo dentro de um enorme saco e com elas, tinha feito sabão...

E um dia, quando todos estavam no início de mais um culto, ele apareceu subitamente no meio daquela multidão e dirigiu-se apressadamente ao púlpito da igreja para se tornar o orador da noite. Tinha vindo substituir o pastor titular, sem o conhecimento do grupo que aguardava descontraidamente a chegada do seu líder. Não foi imediatamente reconhecido pelos presentes, mas o seu vulto exageradamente magro e desengonçado, a sua cabeça ossuda e projetada para trás em que exibia no vidro de um dos olhos uma expressão marcadamente desconcertante e transfigurada, deixou um rasto de apreensão naquela sala.

Quando começou a falar, a sua voz era cristalina e melódica como uma lira, os seus movimentos eram estéticos, graciosos e a expressão era eloquente e segura. Nunca ninguém ousara escutar aquela voz que transmitia segurança e prendia a atenção, até dos menos devotos. Os mais velhos acotovelavam-se e faziam observações uns aos outros quase em surdina e entre dentes. As crianças, à medida que o iam reconhecendo tremiam, ao aguardar um gesto que indicasse que aquele homem pegaria inadvertidamente em um saco para as levar consigo. Aquela figura manteve-se por bastante tempo entregue e atenta aos seus fiéis, transbordando palavras de amor e esperança na sua homilia, quase fazendo esquecer o seu passado lendário e impiedoso.

Não fosse um gesto inesperado daquele orador e tudo teria decorrido na mais santa paz. A certa altura, quando todos os fiéis já se encontravam envolvidos por aquele destino crente e louvável, o homem pediu a todos os adultos que perfilassem as suas crianças junto ao altar, já que pretendia ofertá-las e honrá-las com uma pequena lembrança. E assim foi. Aquelas crianças pobres, empurradas pelos seus pais, começaram a formar uma longa fila junto àquele homem que parecia agora ser mais uma figura de regeneração divina do que uma criatura sinistra e do mal.

Mas quando tudo previa tratar-se de um final feliz e honroso para aquela comunidade envolvida pelo seu Deus, um pequeno detalhe foi responsável pelo reinício da dúvida cruel que pairou sobre aquela criatura; aquele homem fizera subitamente aparecer do nada, uma grande sacola pesada que arrastou até ao centro da igreja e dela começou a tirar pequenos embrulhos que distribuiu por todos os presentes. E disse, num tom suave, feliz e aprazível: - Esperei muitos anos por este momento e esta é uma dívida que tinha para com muitos de vocês. - Recebam humildemente cada amostra deste sabão, em nome do Senhor Jesus e com ele lavem cuidadosamente o corpo e a alma para remissão dos vossos pecados!

mongiardimsaraiva








Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)