6/13/2019

Olha a peluda!
















O tempo de ser militar
Escoa-se pelo ralo do quartel.
Oficiais sargentos e praças
Festejam as virtudes do fel.
Soldados velhos que se vão
Em arrufos de insana glória.
Cabelos que voltam a crescer
No começo de outra história.
E gritam alegres os saudosos:
Olha a peluda! Olha a peluda!
No pátio triste de outrora
Há uma imagem sem ternura;
Da "velhice" que se vai embora...


Nota: "Passar à peluda" (gíria militar) é uma expressão portuguesa que significa a transição do serviço militar obrigatório para o regime civil, quando os soldados terminam a sua prestação de serviço. Na origem dessa expressão, pensa-se que a palavra "peluda" diz respeito à permissão do uso dos cabelos mais compridos (associado a um conceito de liberdade),  no momento da saída dos militares dos quartéis. Já o termo "velhice", é alusivo aos soldados que estão há muito tempo a cumprir o serviço militar obrigatório e prestes a terminá-lo.



mongiardimsaraiva


6/12/2019

Atos inglórios




Não invoques nenhum deus na origem dos teus atos inglórios.

mongiardimsaraiva


Cântico misericordioso


difama-se
acoberta-se
engana-se
proclama-se
diz-se
desdiz-se
mente-se
sobrevive-se
e vegeta-se
tudo em nome
do misericordioso
piedoso
magnânimo
condescendente
benevolente
e transcendente
as igrejas estão cheias
de uma devoção ardente
mas o canto está doente
ausente nas causas alheias


mongiardimsaraiva




6/11/2019

Um arranjo eleitoral


















Hoje ocorreu mais uma eleição. 

Não uma eleição para presidente, deputado ou prefeito, mas uma singela eleição numa escola de um pequeno município, nesse país de todos e de ninguém. 

Nem por isso menos feroz, na luta pelo poder que todos querem idolatrar e reconhecer como única via. Em um país onde as decisões passam muitas vezes por colegiados fabricados e obrigados a servir quem é mais forte. Onde os votos são contados em voz alta e sem piedade, doa a quem doer. Ou, contrariamente, são silenciosos mas já estão previamente destinados e acorrentados a um poder sequencial, objetivo, frio e malicioso de longa data que não pretende operar quaisquer mudanças. Em que os mecanismos de coação e violência são realizados à luz do dia, de uma forma explícita e pouco ortodoxa, empurrando para fora quem ousa peitar o sistema que serve interesses. 

Tudo é orquestrado sem que a música toque acordes de felicidade e liberdade, mas sim em compassos monótonos, cadenciados e fúnebres. Um samba que tem medo de sambar. O país não ousa ter força para combater os seus erros primários e arrasta-se numa toada sórdida, comprometida e enfadonha que conduz à prostração e ao desânimo. 

A luta pelo poder deixou de ser um ato humanitário e razoável, para se transformar em violação dos direitos mais elementares, ao trazer-nos o que existe de mais vil e sórdido no ser humano. As pessoas têm um medo profundo de quase tudo e também uma das outras, sem que consigam atribuir uma causa para isso. E muito menos querem expor-se às rajadas de uma metralhadora invisível que não pára de disparar em todas as direções. O território está em guerra, seja uma guerra sangrenta e declarada, seja um combate entre forças fantasmas que cavam sulcos profundos de terror e miséria. 

Esta pequena eleição que ocorreu em termos rituais e padronizados, pode parecer apenas uma gota de água num imenso oceano de lamúrias e desajustamentos. Mas não deixa de reiterar e comprometer (numa escala menor mas vital), ao contribuir manifestamente para o apodrecimento do tecido social que cada vez nos deixa mais expostos e vulneráveis à nossa própria condição. 

Não fosse assim, teria sido apenas mais uma eleição...


mongiardimsaraiva

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Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)