9/30/2020

 A Figueira

Cheguei de madrugada naquele lugar misterioso. Havia muitas camas e muitos corpos adormecidos. Fui recebido como um irmão, com simplicidade, desapego e muita fé. Trabalhei, rezei, comunguei e refleti. Fiz uma amizade. Ganhei a minha liberdade numa madrugada fria e sombria, mas promissora. Parti definitivamente em busca do meu amor.

Mongiardim Saraiva



9/24/2020

 O último abate

O velho Chico tinha o nariz adunco e mais parecia um cadáver ambulante. Naquele dia, saiu para caçar. A um estalo dos seus dedos, o motorista freou o velho Mercedes. Caçadeira por cima do vidro e dois tiros certeiros. Os cães salivavam loucamente, mas o velho Chico tombara antes daquelas perdizes. 

Mongiardim Saraiva




 O banho de enxofre

Entrei naquela banheira cheia de água, salpicada por pétalas que exalavam a enxofre. Mergulhei o meu corpo e alguns minutos depois comecei a ouvir uma voz melodiosa e muito jovem que atravessava a parede do quarto. Deslizei um pouco mais para baixo, fechei os olhos e comecei a relaxar. Extasiado, perplexo e incrédulo, pedi para que aquele momento se prolongasse como num sonho real e eterno.

Mongiardim Saraiva



7/01/2020

Raízes soberanas


 
                                         
                                       










A árvore possuía e perpetuava os belos corpos,
Esquálidos e entrelaçados no tronco delirante. 
Jovens iluminados por um campo verdejante,
Desnudados e adormecidos na seiva branca,
Escorriam pelos lapsos da minha ausência
Em espasmos doces e confinados à memória. 
Era eu um andarilho em busca da minha história...
Raízes que pudessem sustentar-me ao passado,
Na luz e no sol que sempre foram a minha glória.
Ao permanecer atento e alegre como uma sentinela,
Confinado às vozes sábias, ricas e soberanas,
Pude sentir o quanto almejava junto a mim,
A natureza de todo esse mistério sem fim...

Mongiardim Saraiva

5/12/2020

Terra apagada



Não te conheço mais,
Oculta em máscaras,
Ausências e desencontros
Nos horrores mortais
Da tristeza velada.
És uma réstia apagada,
Naquilo em que teimaste
E não quiseste, alucinada...
Já não suportas mais a tua dor,
Presa a ti sem a luz e o amor.
Queres libertar-te das tuas amarras
Para seres livre como um pássaro.
Poderes vagar pela imensidão do nada
E gritares o canto de uma terra consternada.
Sigo o teu pranto e conheço-te das madrugadas.
Sei que guardas no peito a prisão e a liberdade.
Sacudo-te entre as minhas mãos sem te magoar.
Sou da tua imensidão o mais fiel e dedicado guardião.
Lanço-me no teu perdão como nas profundezas do mar.
Aguardo-te sereno e renovado para passearmos de mão dada.
Não suporto mais a tua longa e permanente ausência.
Vem aliviar-me das máscaras, do álcool e das lacunas da guerra. 
Permite, ao menos, que construa contigo uma nova Terra...

Mongiardim Saraiva





4/11/2020

Doar é viver!













Doar é libertar um amor que está aprisionado
É sacudir a alegria de poder ajudar realmente
É o eco de um dom que encanta e não mente
É cortar as amarras do nosso receio confinado
Saborear o encanto de ajudar a quem precisa
Elevar a nossa missão ao altar da comunhão
Trazer de volta a esperança de voar com a brisa
Escutar o cântico dos anjos dentro do coração
Abrir portas em muitas portas de um outro portão
Caminhar em liberdade na alegria e no perdão
Olhar a floresta do alto de uma nuvem que chora
E fazer o bem que se quer por esse mundo afora
O mundo está cheio de quem não tem mais pão
Doar é celebrar a vida que escorre pela nossa mão

Mongiardim Saraiva

3/08/2020

Marsoalex



4036323326?profile=RESIZE_710x























M  uito
A  tônito
R  everencio
S  entimento
O  nipresente
A  mor
L  uto
E  scritora
X  amã

Mongiardim Saraiva






2/09/2020

A família Addams


Era uma vez, numa pequena estrada vazia onde costumava caminhar descontraído e tardiamente com a ajuda da natureza, mas que naquele dia ficara estranhamente transfigurada e apagada pela bruma.



O "carocha" azul claro estava lá, como de costume, estacionado no começo da pista e passava quase despercebido para quem passasse por ali. Era de um azul desbotado e gasto pelo tempo. Fazia lembrar um automóvel que há muito tinha sido utilizado e que escolhera aquele lugar para descansar para sempre. Os pneus não tinham cor e o pó era visível em toda a extensão das rodas.


Já não era a primeira vez que notava aquela presença misteriosa que sugeria alguém muito velho e com poucos recursos materiais. Nunca tinha visto ninguém entrar nem sair daquele carro, o que aguçava bastante a minha curiosidade.
Tudo ficou mais claro, quando naquele dia apareceu ao longe a silhueta de um grupo de pessoas que se arrastavam pela trilha numa postura cadenciada, cujo movimento dos braços fazia lembrar o pêndulo de um  velho relógio de sala. Eram quatro vultos longilíneos, ligeiramente arqueados e vacilantes. A sua postura não era de caminhantes atléticos, mas sim de penitentes conformados com o seu destino incerto. 


Quando se aproximaram, pude constatar a presença de uma família que se deslocava compassada e silenciosamente em fila indiana, rigorosamente pelo lado direito, de modo a permitir espaço a quem quisesse ultrapassá-los ou cruzasse o seu caminho.  Na frente, surgiu uma mulher muito magra, nova, de rosto feio e ossudo, pele baça de tom de azeitona e rosto sério, mas que curiosamente parecia preparada para um cumprimento casual em caso de necessidade. Logo atrás dela estava uma outra mulher um pouco menos magra e muito semelhante à primeira. Os traços eram os mesmos e somente o seu corpo era menos esquelético que o da sua irmã. O terceiro elemento daquela família era a matriarca, de meia idade, rosto mais aberto que fugia ligeiramente aos traços das filhas, apesar da expressão facial muito parecida. Por último, e a fechar a fila como guardião, a figura de um homem alto, muitíssimo magro e com o rosto exatamente igual ao das suas filhas, expressão responsável, olhar penetrante e um ligeiro sorriso de cordialidade. O mais impressionante neles era a capacidade de se deslocarem milimetricamente afastados uns dos outros, em espaços iguais e no mais absoluto silêncio. 


Uns dias depois, enquanto caminhava já tardiamente por aquele mesmo lugar na companhia da minha mulher, percebi que o velho carro, vazio e enigmático, ainda lá estava. O meu impulso foi dizer-lhe que já o avistara antes e que achava que conhecia os ocupantes daquele "fusquinha". Adivinhando os meus pensamentos, ela perguntou-me se eu sabia a quem pertencia. Falei que sim, que tinha praticamente a certeza de quem era, embora nunca tivesse visto pessoas perto do carro e muito menos dentro dele. Ela olhou-me admirada e reconheci no seu rosto uma certa relutância por aquele lugar e por aquela situação estranha e desconcertante.


Quando estávamos já no final do nosso percurso, talvez a uns quinhentos metros do final da pista, apareceram eles, tradicionalmente enfileirados e cambaleantes à nossa frente. Como de costume, muito chegados à direita e preparados para se cruzarem conosco numa atitude silenciosa de reverência e simpatia, apesar do ar estranho e da feiura desmedida.


Notei, na minha mulher, uma certa curiosidade no olhar e uma vontade de me perguntar qualquer coisa. Já não dava tempo. Eles estavam muito próximos de nós e qualquer deslize da nossa parte poderia causar estragos e provocar algum constrangimento naquele encontro mágico e inusitado. 


Não resistimos à tentação de nos virarmos para trás para conferir aquela família especial e misteriosa que acabara de passar e também para que pudéssemos ver se eles entrariam, efetivamente, naquele carro. Mas não foi isso que aconteceu. Seguimos aquele estranho cortejo com o olhar, até se tornarem uma pequena mancha quase indelével no final da trilha. A minha mulher, extasiada e maravilhada com aquele episódio, perguntou-me com um ar levemente sarcástico e divertido se eu nunca tinha visto, por acaso, uma pequena "mão" (autônoma, rápida, expressiva, com os dedos transformados em pernas) acompanhando-os alegremente como se pertencesse à família... Achei o comentário estranhíssimo e sem sentido. Parei por um momento, olhei para ela e fiquei a pensar. O que ela queria dizer com isso? Ah, mas só se... Claro, ela tinha razão. Nunca tinha pensado nisso! Esbocei um sorriso de cumplicidade e tornei a olhar aquele horizonte, em busca de uma confirmação. Podia ser essa a chave da solução... 


Quando fomos embora, o velho automóvel tinha desaparecido como que por encanto, apesar de nunca os termos visto entrar no carro e/ou escutado o ruído do seu motor.



Mongiardim Saraiva






1/31/2020

Ode à genialidade













não deixe o seu gênio encarcerado
nas masmorras frias e desconcertantes
não se esconda na selva social degradante
que o quer sem voz pálido e anulado
não se baste como um boneco só e articulado
deixe que a sua genialidade faça estragos
e lhe traga um cariz de verdade verdadeira
ouse capitanear o seu navio em águas desgovernadas
ouça o rugir das águas que estalam no cavername
e receba os salpicos das ondas poderosas no casco
abra os braços e sorria para o grasnar das gaivotas
seja terra e porto seguro para aqueles que o procuram
deixe-os levar um pouco daquilo que o faz diferente
nos tons do seu sentimento e na pureza do olhar
nunca deixe ninguém comandar o seu barco
ele é seu e está a si destinado e acorrentado
atreva-se a desejar o que de melhor tem a vida
ofereça-se à experiência de exibir a sua arte
e não se deixe morrer nunca sem mostrar genialidade
à vida ofereça o que de melhor existe em si
tenha muita coragem grite e solte as amarras
há sempre alguém que o espera na outra margem
pronto para abraçá-lo e levá-lo para casa
não tenha medo de perder a sua outra imagem
decente e condizente com o orgulho social
a vida são dois dias e o seu gênio é imortal


Mongiardim Saraiva

1/22/2020

Fantasia em sépia





















Quando abracei esse homem sem rosto,
Senti no seu raro perfume o meu tempo voltar;
De mulher bela e envolvida por um doce amar,
Nos braços quentes e ardentes desse encosto.
Imagens nuas em sépia fizeram-me transpirar
Por querer que nesse abraço pudesse sonhar.
Hoje sou uma mulher madura e realizada.
Aos devaneios devo a minha obra prima,
Encantada pela luz daquela madrugada
Que teima em me beijar no calor desta rima.

Mongiardim Saraiva


1/19/2020

Língua Portuguesa















Porque estou longe dela (pátria),
Mas carrego no peito o que ela me ensinou;
Palavras que são como abraços ou adagas
Que cravei na carne,
Na saudade daquilo que sou...


Mongiardim Saraiva

1/16/2020

Carta de Amor













Minha bela e doce amada,


A inspiração nua e crua provém de ti, ó Lua!


Quando saio pela rua, olho as casas, o céu e as pessoas. Mas à noite, só tenho olhos para ti, minha Lua. Na linda forma redonda, brilhante e só tua. Quando sorris para mim com malícia e me convidas, peço-te as carícias e os belos raios da tua essência.


Mandas-me um beijo e observas-me de longe, com paciência.
Quero sempre que desças e sonho convidar-te para um passeio. Mas quando te aproximas, olho-te curioso, apaixonado e com receio, já com saudades da tua ausência e radiante pela tua presença.


Vou levar-te para morar numa casa, longe e abandonada, onde possamos namorar em versos e estrofes do nada. Onde só tu e eu criaremos imagens e frases aladas.


E um dia voaremos juntos, pelo céu de muitas luas. Ficaremos íntimos e carentes, no brilho do teu luar. Anunciaremos então e por fim ao mundo, o dia em que iremos casar.


Do teu amoroso, ardente e eterno apaixonado,



Mongiardim Saraiva










Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)