7/20/2014

VERSOS SOLTOS

Escuto os sons cristalinos                        
Música expansiva dos sinos
Mente sagaz contemplativa
Leituras breves e precisas
Viagens aladas e sem volta
Idas marcadas sem revolta
Paisagens eleitas no espaço
Nos braços do eco do som
Meu profundo e amigo tom
Abro as asas e me comovo
Sou um pássaro desse chão
Subo ao céu do meu perdão
Quero ser uma estrela acesa
Acima da terra e da riqueza
Energias ligam-me à mente
Semente da minha natureza
Sou teu espaço para sempre
Aqui neste repente presente

mongiardimsaraiva

7/19/2014

ROTINAS

O regresso à dura rotina,                            
Nas formas categóricas
Do arrastado rame rame,
Que todos dizem infame.
Sem belezas eufóricas,
Acorrentadas na ilusão;
Escravizada a sugestão.
Dependemos de rotinas;
Das órbitas e das marés.
A energia vem do pulsar,
Do andar dos nossos pés.
Assim sou rotineiramente,
Rotina que não quer ser.
Que teima em desprezar,
Nossa rotina permanente.

mongiardimsaraiva







7/17/2014

NO LIMIAR

Estou no limiar da espera,                                      
Que me espera sem pesar.
Ainda respiro o ar devagar
E sinto a madrugada fria.
Uma língua de terra vazia,
Sem árvores e sem flores,
Limita a minha empatia;
Íngua dos meus amores,
Sozinha e sem as dores.
O tempo cerca-me agora,
Sem máscaras e anseios.
Quer mandar-me embora,
Pela bruma e sem rodeios.
Mudo, resisto às esperas
Sem ponderar os receios.
Apesar do pouco que veja,
Quero sentir nessa quimera,
Uma só fantasia que seja...

mongiardimsaraiva


7/11/2014

MARIPOSA

Abri a minha carta...                                      
Havia uma borboleta
Morta e seca, sem cor.
No papel manchado,
O desenho do pólen
Das asas de uma dor.
Quem assim a enviou,
Sofreu no duro amor
A saudade que ficou.
Agradeço-te meu pai,
Essa doce lembrança
Com asas de condor.
Deixaste-a suspensa
Para sempre em mim,
Mariposa morta e viva,
Musa do meu jardim...

mongiardimsaraiva

DESUMANIZAÇÃO

Humanização perdida no tempo.                                  
Esfumado o alento e a relação.
Não existe mais coração lento.
Tudo é rápido, vil e sangrento,
Como a guerra sem sentimento.
Efémeras batalhas entre irmãos.
Quem sobrevive a esse lamento,
Seca as suas lágrimas nas mãos
E padece do amor sem sustento.
Não há rajadas do nosso vento.
Tudo é vago, cru, seco e vão.
Pão frio, leve e sem fermento.

mongiardimsaraiva

7/08/2014

DESTROÇOS

A falta de profundidade,                              
Encalha todos os corpos
Na areia fina e movediça
Que arrasta sem piedade,
Esconde, suja e enfeitiça...
No lodo estão os destroços
Da nossa barcaça perdida,
Que jaz sem cor de justiça.
Quem mergulhar os ossos
No frio cruel da despedida,
Verá uma pérola escondida,
Brilhante, pura e radiante;
Carente dos destroços...

mongiardimsaraiva

7/07/2014

CÉUS E CURAS

Os dias são todos iguais;                                    
Pardais que só esvoaçam
Em bandos sós e desiguais.
Céu que teima em ser azul,
De norte a sul; sem nuvem.
Noites escuras que rugem
E encerram a madrugada.
Não vejo luzes; só cruzes,
Nessa terra sem mutação.
A oração não toca o céu;
Arrasta-se sem compasso.
À deriva e passo a passo.
Quando chegar a chuva,
O céu poderá escurecer
E abrigar a noite madura.
Os dias trarão essa cura
E mais um sopro do viver.

mongiardimsaraiva




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