12/28/2015

RESTOS DE MIM

Quando o vento me levar                                
Serei novelo varrido e solto
Envolto em penas pelo ar
Subirei no horizonte revolto
Para cair na incerteza do mar
O que restar de mim será teu
No amor que juntaste ao meu
Musa da cor e plena por criar

mongiardimsaraiva

12/15/2015

MEU SOL POENTE

Saí por uma rua sem nome                              
Fome do passado que não vi
No peito essa certeza enorme
De me olhar sem a vida que ri
Quis passar pela dura provação
Do ser sozinho e acompanhado
No dom e na imagem da razão
Ter-me a mim como um cajado
Desapegado inteiro conformado
Liberto das asas em que morri
Hoje sinto o que foi renovado
Ao passado dedico o presente
Que escorre limpo pelas veias
Sereias de um mar consciente
Que me trazem para as ideias
O sol nas ondas desse poente

mongiardimsaraiva

12/09/2015

CÂNTICO DE NATAL

Não adianta cantar o natal sem voz                                    
Lamento doce cristalino que sai de nós
É preciso honrar o espírito desse ideal
Erguer muralhas de pureza contra o mal
E perpetuar sentimentos com grandeza
Deixar no planeta um rasto de cometa
Ouvir das estrelas um eco que nos cala
Albergar no nosso asilo coisas sem fala
Abraçar simplicidades sós com gentileza
Abrir o coração para o grito da natureza
Ver na reunião mais do que uma mesa
E saborear as migalhas do nosso pão
Com devoção e louvor a essa estação
Cânticos sedentos de amor se elevarão
Magia dos sentimentos puros sem igual
Como nuvens do nosso céu romântico
Glorificando a nossa intenção de natal

mongiardimsaraiva

12/01/2015

VERSOS AO MEU AMOR

Dedico-me nestes versos ao amor                
Submersos e vivos no calor de nós
A voz que aqui ouves não sou eu
Apenas um eco daquilo que é teu
A ti te pertenço doce e confinado
O que buscas em mim será assim
Enviado num beijo só e desejado
O nosso caminho é a nossa lagoa
Serena e com reflexos da tua voz
Escuna que nos balança sem abrigo
Apenas náufraga daquilo que te digo
Sonhada e pura nascente até à foz

mongiardimsaraiva
(poema e imagem)

11/24/2015

ESCADARIA BRANCA

Um dia só após o outro                                                      
Caminho árido seco e louco
Muito pouco de pura fantasia
Não quero ofertar o meu sufoco
Às vezes quero ser o que não sou
Escolho a mentira e finjo que te dou
Perpetuo movimentos dentro de mim
Sou uma escada longa gasta e sem fim
Que se ergue reta e apontada para o céu
Já ouço o cântico dos louvores sem agonia
Vou subi-la aos poucos sem pisar essa alegria
Achar-te plena e sentada na luz dos nossos dias
Para lá das nuvens imersas no branco da tua paz
Docemente altiva segura ousada encantada e sagaz

mongiardimsaraiva
 


11/20/2015

NOSTÁLGICA

Se não sentes em mim a nostalgia                
Não quero que me chames poesia
Escorro sentimentos desfigurados
Agarrados a pedaços de fantasia
Sou um fracasso com asas de ti
Nunca te contei como o aprendi
Um véu que encerra o teu rosto
Pedaços de mim aqui sem esforço
Para te dar suavemente o encosto
Amolecendo o teu rosto que não ri
Sou o teu lado nostálgico e trágico
Que te leva na correnteza do rio
Frio que não arrefece o teu canto
Que guarda no encanto o teu vazio

mongiardimsaraiva

SONHO PRECÁRIO

Tudo não passa de um sonho    
Sonhado numa terra precária
Pária do tempo e do lamento
Uma desgraça no céu risonho
Momento na certeza primária
No rosto medonho sem alento
Veem-se perfilados os dentes
Ausentes doentes sem espaço
Sem língua terem para lamber
Palavras sem a noção do viver
Comprometidas sós e sem laço
Escorrem por entre o que faço
Letras pobres do meu ego ser
Tarde me arrasto mudo e cego
Pela lama da terra que não vejo
Duro excremento do meu ensejo
Que crio em pranto sem saber

mongiardimsaraiva
 

 


11/06/2015

AGONIA

Estou dentro de mim                          
Fortificado inerte atento
Sou o meu lamento assim
Agonizante só sem sustento
Do meu ser sou delirante
Excremento sem cor e fim
Nesta sociedade ultrajante
O vazio mata-me o instante
Leva-me ao fundo do meu ser
Morrer sem me ver para crer
Pensar é cruel na dura ilusão
Nada passa pela minha mão
Prisão fria suja e sem grades
Enredos que não são verdades
Enterram o meu corpo no chão

mongiardimsaraiva

11/03/2015

O LAMENTO DAS GARÇAS





A voz vinha do reduto das garças e assemelhava-se a um lamento, baixo e rouco. Olhei e não vi os pássaros. Tinham desaparecido sem deixar rasto, apesar do hábito de se reunirem sempre ali para dormir.

Costumavam passar aos bandos, pairantes sobre a cidade e provenientes de várias direções e lugares. Eram maravilhosamente brancas e emprestavam ao nosso céu um véu branco e magnífico de penas e plumas, num movimento sincronizado digno da mãe natureza.

Já era tarde e começava a escurecer, o que dificultava reconhecer aquele local e a presença delas. Aproximei-me devagar e procurei a velha árvore de galhos secos e cinzentos que servia de abrigo às garças, que um dia a tinham adotado como morada. Era ali que descansavam e se sentiam protegidas e unidas por um ideal irracional de pássaros, num gesto solidário e espontâneo. Procurei avançar mais um pouco e esforcei-me em reconhecer melhor o local, apesar da escuridão. Aos poucos, fui notando que o matagal em volta tinha desaparecido e a terra estava agora escura e seca, dando a impressão de ter sido mal tratada e desapropriada. Reconheci aos poucos, um cheiro a folhas queimadas que parecia exalar das profundezas da terra. Agora, eu estava certo de uma coisa; algo muito grave tinha acontecido àquelas aves. O local não era mais o mesmo e o lamento que eu tinha ouvido, denunciava algo muito sério e trágico.

Quando me preparava para voltar para casa, escutei de novo aquela voz baixinha e grave. O som, fez-me dar mais alguns passos e quando tudo parecia árido e sombrio, consegui notar a presença de alguns pontos brancos espaçados naquela clareira, que agora refletia uma cor pálida. Eram dezenas de animais imóveis, cansados e em silêncio. Conformados, tristes, solitários e que apesar de reunidos ali não tinham mais a sua velha árvore para dormir. Procuravam descansar naquele chão, corroído pelo fogo.

Senti a dor lancinante do desrespeito à natureza e suas formas magníficas. Tive a nítida certeza que, aquele som de lamento que escutara há instantes, fora o murmurar da terra compadecida com o choro daquelas garças brancas que se preparavam agora para dormir sobre as cinzas da sua velha árvore.    

mongiardimsaraiva  

10/30/2015

O AMOR NA MINHA VOZ

Ouvi uma vez aquela voz                                  
Que sussurrava gemidos
Contida no aperto dos nós
Queria apertar-me a sós
Como albatroz sem asas
Pairar por cima das casas
Nadar em círculos na foz
Na água funda do meu rio
Arrastar-me sem piedade
Entre as pedras sem idade
Senti o algoz da dor atroz
Que aguarda sereno e frio
O doce amor na minha voz

mongiardimsaraiva

10/20/2015

DIA DO POETA

Poesias não são dias                                    
Acontecem em tudo
Como um beijo mudo
Que nos faz chorar
Ou nos deixam a sorrir
A todos querer abraçar
É vital sermos felizes
Sonhadores aprendizes
O mundo testemunhar
Sem teorias para achar
No amor vive a poesia
Que nos quer a viajar
Entre corações partidos
E nos sonhos perpetuar

mongiardimsaraiva




10/08/2015

UM POEMA REFUGIADO

Homens refugiados sem direção                                    
Caminham para fugir do medo
No degredo não têm a condição
Arrastam-se famílias dizimadas
Espezinhadas sem ter uma nação
Noção de angústia dor e covardia
Tarde se arrepia uma falsa moral
Sociedade que não ama por igual
Tudo é a hipocrisia das lágrimas
Que escorrem brandas e sem sal
Para chorar uma criança que morre
Faz-se uma reza e vendem-se jornais
De notícias cruas vagas e fatais
Que animam a humanidade canibal
A vergonha anda por aí distraída
Em francas orgias de dinheiro rival

mongiardimsaraiva

10/07/2015

OS VERSOS NA TUA BOCA

Não adianta imaginar-te                                  
Porque fluis sem me dizer
Não sou dono da tua magia
Quero amar-te sem te ter
O poema não tem rédeas
Cavalos galopam sem sela
Espuma branca e fala pouca
O arfar de uma corrida louca
Usa-me num dilema rarefeito
De amor consumado no peito
Vejo no teu sangue que jorra
Uma poesia sagrada e rouca
Sou prazer enquanto lambes
Os meus versos na tua boca

mongiardimsaraiva

9/23/2015

OLHOS NOS OLHOS

Vejo-me no espelho dos teus olhos                                  
Profundamente dispostos a receber-me
Sou aquela tua imagem que quer entrar
Estou pronto para brilhar e te agradar
Dizer-te o quanto demoraste em ter-me
Olhos vazios saudosos cheios de lágrimas
Quero levar-te para dentro e merecer-te
Sou o brilho que deixaste no nosso olhar
Que quase abandonaste por aí sem saber
Hoje quero que me recebas no teu amar
Em memória dos beijos que não demos
E da imagem que tardou em se formar

mongiardimsaraiva

9/21/2015

ALÉM DO BOJADOR

Não existe amor sem dor                                              
"É preciso passar o Bojador"
Sentir lágrimas e rancor
Lições que nos amem
E nos façam amar mais
Vidas provêm do desamor
Que nos leva mais além
É preciso crescer sem temer
Ser aprendiz no que se tem
As estrelas não são de ninguém
Mas são nossas aqui e além

mongiardimsaraiva

9/01/2015

NAS ASAS DE MORPHEUS

Sonhei que te arrastava nas entranhas                    
Num doce e suave mergulho sem medo
Pelas águas de um oceano sem degredo
Povoado por criaturas vivas e estranhas
Descíamos felizes sós e de mãos dadas
Por nada queríamos sofrer nessa morte
Sorte preparada por um leito de fadas
Abaixo no areal das conchas sem norte
Uma fenda brilhante insegura acenava
Boca febril que me lambeu e mastigou
Língua cúmplice cega e desconcertante
Como o tempo antigo sem lembranças
Não havia mais dor tristeza e saudade
Tudo era calma vigília luz e suavidade
Permanecemos abraçados sem a terra
Corpos fundidos e achados sem guerra
Luz do Amor que nos trouxe a vontade

mongiardimsaraiva





8/20/2015

SEM LEI NEM GREI

Ó povo embrutecido e sem escola,                        
Que sois mostrado ao mundo numa bola
E que teimais em ser rei, sem ter grei!
Enganais a quem, se não fizeres o bem?
Acordai desse choro vil e cru sem a lei!
Fazei o vosso ouro nesse rico namoro,
Com as coisas certas e com o decoro!
Tudo voltará a vós, com alma e glória,
Numa outra bola que rolará com arte.
Não ousais o vosso morrer sem o viver!
Parca nação rica de nenhuma parte;
Triste miséria de um povo sem o ser...  

mongiardimsaraiva

8/12/2015

MAR Á VISTA!

Sou refém da maresia                                  
Nas ondas navego por acaso
Viajo no tempo por cortesia
Marinheiro novo em solo raso
Ás águas dedico o meu amor
Em tons de azul e verde mar
Sou a nortada a meu favor
Que despe a roupa do meu par
Quando chegar a tempestade
Quero estar na gávea mais alta
Avistar a minha parte que falta
E aclamar com propriedade
Ó mar profundo e encantado
Sou escravo da tua majestade
Não quero gritar terra à vista
Ao mar lanço a minha saudade

mongiardimsaraiva





8/11/2015

NUVENS BRANCAS

Viajo pelas nuvens brancas              
Entro na bruma da memória
Sou história inacabada e só
Que paira no céu sem voz
Nas rotas largas e francas
Quando subo sou albatroz
Ao descer pareço uma águia
Feroz contumaz e sem dó
Ao sobrevoar a nossa terra
Sinto uma tontura dormente
Dos lapsos do amor sem paz
Isso mantém-me pairante
Distante ausente e além
Queria subir muito acima
Olhar o mundo todo branco
Descolorido como um mangue
Sem migalhas e restos de sangue

mongiardimsaraiva

 

8/05/2015

AUSÊNCIA

Estou ausente no meu presente              
Nos dias que tenho em mente
Sem coração e humanização
Onde os meus poros se fecham
Para não receber o pó e o frio
Arrepio que sinto até aos ossos
Os nossos filhos vagueiam por aí
Cansados de não saberem sonhar
Mecanizados sós e mergulhados
Na densa penumbra sem saudade
Quando o passado for esquecido
Restará um vasto e seco deserto
Semeado de carcaças sem idade
Onde as areias reinarão sem cor
Amor esquecido e aqui tão perto

mongiardimsaraiva

8/04/2015

SALVADOR DALÍ

Um olhar perdido e desencontrado                            
Esferas que se movem sem parar
Na ponta de um fino bigode eriçado
Criam-se metáforas loucas sem par
Dali emerge belo o efêmero salvador
Da nossa mesmice apática apodrecida
Haja loucuras sãs que nos sustentem
Na madrugada doce suave embevecida
Belas estrofes da beleza que nos livrem
Do fardo vil das mágoas sujas de guerra
Queremos uma trégua nessa noite escura
Que nos aperta dura e seca a nossa terra

mongiardimsaraiva

7/30/2015

PAS DE DEUX

Muita saudade                                                              
Da nossa dança
Dos dias sem idade
Dos beijos de esperança
Sou o teu pai com amor
Mesmo ausente e incolor
Abraço-te sem aí estar
Na idade da tua flor

mongiardimsaraiva
(para Maria Laura)

7/11/2015

LISBOA

Lisboa menina dos meus olhos                                                    
Sentada a olhar o berço do Tejo
Lágrimas que escorrem pela face
Sal e alface por entre as ameias
Luzes serenas no castelo de areia
Serás sempre a mais bela raínha
Dessa foz até às ondas do Bugio
Estarei contigo sem seres minha
Nessa saudade e no meu arrepio

mongiardimsaraiva

6/24/2015

O RUÍDO DO SILÊNCIO

Ouço ruídos no teu silêncio      
Uma voz que agora se cala
Sinto-te só na tristeza rala
Prostrada e caída num poço
Água suja densa e estagnada
Humedecendo a tua entrada
Criando musgos sem esboço
Paredes estéreis e sem nada
Sem permitir os raios de luz
Conduzem o sol à tua morada
Aquecem-te os pés numa cruz
Deixam-me sozinho sem fala
Morto sem a fé que me conduz

mongiardimsaraiva

6/15/2015

O CIÚME

O ciúme é capaz de nos cegar e contribuir decisivamente para apagar a luz do nosso precário discernimento...

mongiardimsaraiva


5/19/2015

ABRAÇO ANIMAL

Quis abraçar a besta                                                    
abraço animal - Carlos Saraiva - arte digital - 2015
Há muito que a procurava
Brava pujante e sem fala
Uma criatura da natureza
Certeza e alteza perpetuava
Senti-lhe o cheiro nos sovacos
Húmidos molhados e opacos
A nossa carne gemeu e roncou
Pelo sangue que ali borbulhava
Nesse abraço que nos escapava
Éramos uma só besta delirante
Distante amante e apaziguada
Sorrimos até não haver mais nada
Queríamos morrer nesse abraço
Profundo nobre e desconcertante
Como duas bestas passo a passo  

mongiardimsaraiva


5/09/2015

DE TI...

Dedico-a inteiramente a ti                                                          
Que me olhaste e recebeste
Sem teres visto o que eu sou
O teu encanto sol me chamou
Numa verdade só do teu rosto
Sem maldade e maus terjeitos
O encanto fica em nosso canto
Sentado no meu colo e no peito
Quero silenciar no teu desejo
Ser pássaro com asas de ti

mongiardimsaraiva

5/02/2015

COVAS RASAS

Tudo é bruma inconsistente                              
Há castelos ocultos em areia
Uma teia quadrada está latente
A vida cai numa lágrima cheia
Que rola nas faces sem expressão
Uma mão que nunca está cheia
Do sangue e da carne sem perdão
Não existe o milagre dos pães
Mães destroçadas no sofrimento
Morrem aos poucos sublimadas
Enterram filhos em covas rasas
Que exalam o fogo das brasas

mongiardimsaraiva



4/24/2015

PAIXÃO

Um rasgão escancarado no peito                                                
Paixão - óleo s/tela - Carlos Saraiva
Coração vermelho inchado e pulsante
Vísceras que choram a dor no leito
Lágrimas escorrem no sal contagiante
A paixão é esse animal desconcertante
Que agride sentimentos e o conceito
Sem perguntar o que sente e garante

mongiardimsaraiva




4/21/2015

MARLY SOBRE TELA

Ela pintava acordes de ternura                                            
Desenvoltura carinho e aconchego
Desenhava campos de semeadura
Com verde e terra com sossego
Céus claros tranquilos e sem estrelas
Ervas vermelhas campos de verdura
Matizados em tons crus e instigantes
Com a força de um culto que dura
Fiquei preplexo ao vê-la deliciada
Nesse campo em que só ela corria
Lembrei-me que a conhecera um dia
Claramente e após uma noite fria

mongiardimsaraiva


4/17/2015

NAU À DERIVA

Nau à deriva                                        
Rota sem rumo
Prumo sem esquiva
Barcaça sem a frota
Águas cálidas e paradas
Cheiro de nafta e a crude
Palidez sem sol e atitude
Ranger de madeiras grogues
Que se espreguiçam e riem
Por piedade não me afogues
Peregrina sem eira nem beira
Levada no tropeço da corrente
Flutuo dormente e consternada
Sou sentinela do meu presente
Durmo na bruma do meu nada

mongiardimsaraiva

4/01/2015

ESCORRO PARA O MAR

Escorro necessariamente para o mar
Amar persinto ser o meu rio serpente                                    
Sou digno daquilo que não me mente
Verdade sublime que sorri ao chorar
Perpetuo ideias a quem não as sente
Crio imagens das saudades sem par
Estou na cruz do meu canto semente
Caranguejo oculto e sem ter mangue
Sinto sede nas gotas do meu sangue
Necessito dos abrigo no nosso estar
Quero que o amor me dispa urgente
Devore o profundo dessas entranhas
E me devolva à vida sem meu pesar
Pássaro que sobrevoa as montanhas
Avistando o rio e voando para o mar

mongiardimsaraiva

Nota do Autor: Este poema foi selecionado para ser publicado na VII Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho" (Chiado Editora / Lisboa / Portugal / 2016).


3/31/2015

MARIPOSA REAL

Negra borboleta preta e clara                                            
No preto e no branco casada
Com asas e olhos de veludo
Cara feita de ti e do meu nada
Voa serena no meu rosto mudo
Suga-me as entranhas mais doces
Digere-as sem choro e sem dor
Percalços vividos do nosso amor
Saboreia-me e não digas nada
Sou pranto por não seres acabada
E tremor ao conduzir o meu fervor

mongiardimsaraiva

3/27/2015

ATRAVÉS DA VIDRAÇA

Observei-te nítida pela vidraça                                                          
Alta segura imóvel e com graça
Olhos sós e preparados para o vazio
Afagaram sonhos breves e desafios
Muitas incertezas entraram no cio
Fui um passageiro louco e com frio
Que percorreu ileso essa madrugada
Senti na minha carne a longa espera
Afagada por angústias e pela quimera
Como uma esperança abençoada e sã
Nunca pensei nela como a tristeza vã
Mas como abraço certo e consagrado
Naquela só vidraça do nosso quadro

mongiardimsaraiva


3/21/2015

DIA DA POESIA

O dia da poesia é todos os dias                                
Manhãs tão vazias sem maresia
Que deixam os meus dias ilhados
Sinto-me vaguear pela simpatia
Quando a minha chama não é fria
E os meus orvalhos são confinados
Dedico-te o meu louco sentimento
Atento nas coisas que não são nada
Constante isolada por esse fermento
Que cresce de noite e na madrugada

mongiardimsaraiva


MÃE

Parabéns mãe                                                                          
Como ninguém
Serás sempre além
Da graça e do dom
Em que me deste raça
No teu sangue corro só
Por veias cheias e dilatadas
Sou um barco sem o teu porto
Que balança sozinho e torto
Em águas por ti consternadas

21/03/2015 - mongiardimsaraiva

3/02/2015

UM AMOR COMO O NOSSO

Um amor como o nosso                                                
Quero dar-te sem medo
Encerro nesse segredo
Muitas entregas a mim
Quero que fiques assim
Mar sem medo nem fim
No fundo dos teus olhos
Avisto a calma da areia
Que reflete ri e permeia
No brilho do orvalho só
Madrugadas sem enredo
Que tardam em ser cedo
Nascer claras e ser pó

mongiardimsaraiva

2/28/2015

MULHER-CÃO

Já fui uma bela mulher                                                          
Hoje passeio o meu cão
Pela mão e sem usar batom
No tom de Deus sou a rebelião
Um ser sem nexo sexo e tesão
Cabelos curtos e muito grisalhos
Orvalhos que quis ter sem perdão
Dura provação e entrega ao medo
Segredo e clausuras sem restrição
Quando olham para mim sou mastim
Protegida por auras santas e sem fim
No puro desejo de não existir segredo
Enredo de um cão mantido em degredo

mongiardimsaraiva

2/26/2015

ÊXODO

Olhei para trás e não te vi                                          
Saí só sem dares por isso
Não podia mais ficar aqui
Os ossos gemiam de frio
E de ausência deste corpo
Queriam a carne e o estio
No calor de um amor rouco
Agora que rio já não choro
Sou uma criatura feito louco
Farejo cheiros sós e doentios
Não quero mais viver pouco

mongiardimsaraiva


RECIPROCIDADE

Quero dar-te como me darias                                
Da mesma forma ou melhor
Amarias fazê-lo a mim de cor
Vibrantemente e com gratidão
Segurar e apertar a tua mão
Como gostarias de me sentir
Teu querido e eterno irmão
Na paz dos nossos corações
Navegarmos em naus vazias
Embriagadas pelo nosso amor
Por rumos e tempos incertos
À deriva da nossa rica cura
Mas saudosos de sermos nós
A voz do nosso apelo e ternura

mongiardimsaraiva

2/24/2015

ESPIRITUALIDADE

Espiritualidade e conexão                                                      
A mão que toca a realidade
Da terra e do espaço vão
Uma viagem pelo infinito
Ocas partículas sem chão
Unidade pensamento e mó
Possibilidades com gabarito
Mergulho sem medo nem dó
Atalhos que levam a credos
Em galáxias e nos arvoredos
Mistura de medos sem atrito
Mágoas acesas sem candura
Rios com lama e pedra dura
Que brotam sozinhos e sós
No tempo ausente e criador
Das coisas tão presas a nós
Escorre a verdade e o fervor
Líquidos e sem o peso da dor  

mongiardimsaraiva

2/23/2015

MOSCAS

Moscas moscas moscas                                            
Toscas grandes insistentes
Presentes em sujos bacanais
Ardentes fartos e indecentes
Pousam e posam nos currais
Lambem as feridas grupais
São os aviões dessa guerra
Que lança as bombas fatais
Zumbidos surdos e bêbados
Armas de fogo sem soldados
Pairam como gigantes alados
Na luz do calor da nossa dor
Jazem já pútridas as infames
Como gargalos que escorrem
Venenos de sangue sem cor

mongiardimsaraiva


 

2/20/2015

BUCÓLICA

Sem proferir uma queixa                                      
Beijarei a minha gueixa
Linda gentil e serviçal
Corpo sedoso e material
Deusa dos meus sonhos
Uma dádiva materializada
Mulher com olhos risonhos
Quero perpetuar em concha
Longas noites nesse orvalho
Nos campos ser o espantalho
De corvos águias e pássaros
Sentir o cibilar do nosso trigo
Em correntezas de ar fresco
Cheirar a doce palha contigo
E gemer cantigas de amor
No torpor do nosso abrigo

mongiardimsaraiva


2/10/2015

NOITE SEM LUZ

Procuro acariciar-te                                      
Persigo o teu passo
Beijos quero dar-te
Perto do teu abraço
Penso em amar-te
Deixar-te não faço
Sou o teu parceiro
Dos dias sem luz
Na cruz derradeiro
Morro só primeiro
Que a tua alegria
De seres escrava
De muitas orgias
Que ao dia conduz

mongiardimsaraiva





2/09/2015

JAZIDA

Apodrecimento vil e generalizado                                      
Homens e mulheres como o gado
Numa trilha sem chão e sem mata
Profunda ilusão na escuridão escapa
Raízes profundas se desagregaram
Da terra molhada e ensanguentada
Os vermes frios não puderam fugir
Ao descaso e à pobreza se juntaram
O dinheiro traçou sulcos e gerou pós
Tristeza que jaz a dois passos de nós

mongiardimsaraiva

2/06/2015

O LAMBER DAS FERIDAS

A noite veio lamber as feridas                                          
Causadas pela luz clara e cruel
Molhou e beijou todas as crostas
Chamou-as de queridas sem fel
E encerrou-as a sós como ostras
Dentro de uma sala de partidas
Sem destino e sem gosto de mel
A dor foi hoje mergulhada no rio
E os restos flutuaram sem navio
Gotas de sangue em água escura
Sem cinzas e lixos de amargura
Até ao raiar do dia novo e claro
Que aguarda as próximas noites
Como pedaços de um amor raro

mongiardimsaraiva

2/05/2015

ALCOVA

Quem nos ama esquece a nossa tristeza insana                                  
E ainda ri na nossa cama com a boca que aquece
Contagia a nossa pele com os odores perfumados
E entoa na voz do amor belos acordes amaciados
Pela doce vida longa desses afagos perpetuados
Com regozijo invocados nos cânticos da nossa fé
Tudo é motivo e abrigo para o fervor e esplendor
Dor sem dor que se aninha na alcova e esquece
De viver os dias do desamor e quase enlouquece

mongiardimsaraiva

MELANCOLIA

 Não observo nada em volta
Apenas fluxos descontínuos
Confundidos e sem escolta
Coisas que andam por andar
Sem um motivo e sem parar
Olhos pesados vazios irados
Que observam esbugalhados
Vidas que escoam pelo ralo
Triste compasso de um pesar
Por onde passam sem amar
Sem doces ritmos e embalos
Cadência triste vaga sombria
Beijando a nossa noite fria
Que nos deixa sem amá-los

mongiardimsaraiva

                                  

2/03/2015

ABRAÇO

Abro os braços para ti                                        
Sinto o teu corpo a abrir
A minha alma deliciada ri
Do amor indolor sem sentir
Somos corpos navegantes
Num mar sem ondas e vagas
Natureza aclama verdejante
Terra enxuga nossas mágoas
Quero te deixar uma semente
Madura serena e proclamada
Por nós e por essa alegria só
Fruto eterno da carne e do pó
Na tua carente e casta morada

mongiardimsaraiva

1/17/2015

MUDANÇAS

Resisto às novas mudanças profundas                                
Sou a espada de um velho guerreiro
O meu paradeiro é a minha memória
Sinto uma vontade imensa de glória
Mas permaneço atento e à escuta
Quero perceber os sinais dessa luta
Que flui nesse verão de muito calor
Como se a razão derretesse o sabor
E as lágrimas fossem sempre adiadas
Eternamente ocultas sós e guardadas
Em rostos que expressam o novo amor

mongiardimsaraiva

Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)