7/10/2019
7/05/2019
NEO
achei-os na imensidão daquela sala
sentados sós quietos e pendentes
amarelados e ausentes na fala
um olhar infinito sem distância
para dentro de uma tristeza rala
esperança que não podia esperar
pela ameaça de não poder estar
gente de todos os quadrantes
gordos magros brancos e negros
novos velhos jovens e sem idade
nivelados pelo mesmo estertor
corações flutuantes sem jangada
obras do infinito sem morada
apenas reféns da dor e do amor
tudo reduzido à imagem da cruz
sofrimento que nos transforme
no alimento para outras vidas
em seres que busquem a glória
e que aceitem o nó das partidas
mongiardimsaraiva
A condição humana sob a ótica do bem e do mal: um estudo comparativo entre Milton, Dante e Goethe
O papel da literatura não é o de explicar ou definir, mas sim o de ajudar a compreender ou facilitar observações de parâmetros esclarecedores que possam enriquecer e/ou esclarecer algumas questões que interessam à humanidade.
Assim acontece com a temática do bem e do mal, cujas entidades sempre fizeram parte do imaginário de grandes escritores que povoaram e provocaram a interpretação dos leitores, muitas vezes de uma forma peculiar e subjetiva.
O mal (muito mais do que o bem), sempre exerceu um fascínio enorme em todas as classes sociais, prendendo leitores e espectadores a desfechos criativos e mirabolantes, ao ponto de criar legiões de seguidores em todo o mundo. Os personagens (vilões, associados ao macabro) assumem muitas vezes uma projeção tal que são responsáveis pelo enredo de grandes obras literárias, enchem teatros, cinemas e garantem famosos espetáculos.
Por outro lado, o bem, não parece adquirir a mesma força e envergadura, o que nos leva a pensar que talvez o ser humano necessite de testar, através de emoções fortes, os limites da sua própria existência.
Dessa forma, o mal surge como grande protagonista, ao ponto de todas as religiões incorporarem alguma força de desordem ou destruição. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ligados ao cristianismo, apontaram a soberba humana como a raiz do mal e a graça divina como a fonte do bem. Charles Darwin, considerado o pai da teoria da evolução, colocou em xeque a ideia de uma natureza projetada por um Deus bondoso e misericordioso. O filósofo alemão, Immanuel Kant, afirmou que o ser humano está associado a uma vontade maligna que se constitui como um mal radical. Friedrich Nietzsche transcendeu a questão do bem e do mal na sua filosofia, ao idealizar um super-homem que estaria além de qualquer moral.
Neste breve estudo, são abordadas três obras de três grandes autores, respectivamente, John Milton (1667), Dante Alighieri (1308) e Johann Wolfgang Goethe (1774) e as suas obras, Paraíso Perdido, Divina Comédia e Fausto.
Em Paraíso Perdido, Milton inspira-se na tradição clássica e épica dos grandes poemas e trata magistralmente, em verso branco, alguns aspectos filosóficos e religiosos do ser humano, através da história da condenação de Adão e Eva quando cometem o pecado original e são expulsos do Paraíso. A obra trabalha a relação entre o bem e o mal, ao mostrar que a felicidade provém da obediência a Deus e a desobediência pode acarretar na queda do homem.
Na Divina Comédia, Dante idealiza uma viagem ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso, ao ser conduzido por Virgílio (a voz da sua consciência). Nessa epopeia, é apresentada (em versos decassílabos) uma sequência admirável de figuras conhecidas, condenadas pelos seus pecados e em busca da salvação. O bem é personificado pela mulher amada, Beatriz, que aparece para guiá-lo até Deus, já que ela fora iluminada pela graça. No "Inferno de Dante", os horrores são descritos de uma forma impressionante e quase real, o que torna a obra intensa e marcadamente expressiva.
Fausto, de Goethe, é uma obra clássica escrita admiravelmente em versos (diálogos rimados) que falam metaforicamente da existência humana. O personagem Fausto é um cientista e mago que é inconformado com a sua vida mundana. Ele resolve fazer um pacto com o diabo (Mefistófeles), ao vender a sua alma em troca de prestígio e regalias. A obra procura refletir os conflitos e dilemas do ser humano em relação à tomada de uma postura espiritual (bem) ou essencialmente material (mal), tendo como eixo as relações entre natureza e consciência, razão e emoção.
Através da literatura comparada, como ferramenta de análise e estudo, é possível estabelecer alguns pontos convergentes e divergentes nas três obras, apesar de terem sido escritas por autores com nacionalidades diferentes, em épocas diferenciadas e, consequentemente, em contextos variados.
Por exemplo, podemos considerar que em relação a Milton, em Paraíso Perdido e Dante, em A Divina Comédia, ao efetuarmos um paralelo, ambos os autores utilizam adjetivos muito poderosos para descrever a relação de forças antagônicas (bem e mal). Em Paraíso Perdido, Satã é considerado como um astro em todo o texto, já que o seu autor é um homem com fortíssimas convicções religiosas que deseja assim enfatizar o perigo do mal nas relações com a humanidade.
Por outro lado, Dante oferece-nos a maior e a mais contundente descrição do Inferno com todos os seus horrores. Existe um propósito em descrever o Inferno acompanhado dos seus pecadores, como um lugar muito triste e de grande sofrimento. O autor faz questão em nomear algumas pessoas que conviveram com ele e de relacionar os seus pecados com as diversas penitências atribuídas.
Um outro ponto a observar, ilustra a expressão poético-romântica na obra de Milton, quando Eva é tentada pelo fruto proibido e desobedece às determinações de Deus. Adão não aceita logo imitá-la, mas acaba por degustar a maçã e, ao fazê-lo de uma forma consciente, manifesta o seu amor incondicional à amada. Nesta obra, Deus é magnânimo na sua bondade, mesmo diante do pecado, ao estender a sua mão misericordiosa àqueles que são fracos e reconhecendo a sua natureza humana.
Em Fausto (obra do Romantismo), o personagem do cientista parece possuir uma índole generosa, para além do pacto realizado com o demônio, o que lhe atribui uma certa conotação com o bem, apesar de ter sucumbido às argumentações de Mefistófeles. É importante observar, a partir da personagem de Margarida, impregnada de romantismo, toda a manifestação do bem, em contraponto ao mal, representado por Mefistófeles.
Na Divina Comédia e apesar de todas as descrições do sofrimento, existem alguns momentos representativos do romantismo e do poético. O relato sobre o Paraíso é repleto de alusões ao amor, à felicidade e à realização dos bem-aventurados. É muito profundo e emotivo o encontro entre Dante e a sua amada Beatriz quando ela o recebe no Paraíso.
É notória e fortíssima a presença desta dualidade (bem e mal) durante toda a trajetória de vida dos homens, assumindo sempre um papel ativo e decisivo no campo filosófico e na conduta de uma sociedade pautada por hábitos, valores, convenções e doutrinas cujos interesses nem sempre foram convergentes. Em relação à literatura e particularmente, no texto literário, não poderia ser diferente.
Na história humana, a representação de Satã na literatura sofreu diversas metamorfoses ao longo dos séculos. Do diabo satírico ao trágico e da bestialização à humanização de anjo. Essas metamorfoses já haviam começado na Bíblia, ao ganharem força alegórica e simbólica na boca dos profetas. Os cristãos vão transformá-lo em inúmeros demônios que influenciaram as ações humanas através da possessão e depois através de várias metamorfoses, ao ser condenado a simbolizar todo o mal da humanidade. Os primeiros cristãos, especificamente os Padres do Deserto, que ao imitarem as provações de Jesus o transformaram em tentador nas suas crenças que estabeleceram um confronto de forças entre o bem e o mal, criaram uma cultura de profundo medo durante a Idade Média e Moderna. Medo esse que assolou boa parte da população da Europa e que moldou a nossa moral, os nossos padrões culturais e principalmente modificou a nossa maneira de pensar e fazer arte, incluindo a literária.
Todo esse simbolismo vai ser vivenciado, de alguma forma, por diversos autores como Dante Alighieri, John Milton, William Blake e principalmente pelos poetas do romantismo como Lord Byron e Charles Baudelaire. Esse último, foi o que talvez melhor utilizou o mito de Satã como representação de si mesmo, a partir da sua identificação com essas metamorfoses (Les Fleurs du Mal), atravessado pela angústia da existência, pelo tédio, pela visão pessimista do futuro e pelo desejo de retorno ao primordial. Satã tornar-se-ia um símbolo daquilo que Baudelaire acreditava ser o homem moderno, construído a partir de tensões entre o bem e o mal, o belo e o feio, o lírico e o antilírico, passado e futuro, tradição e modernidade.
No Brasil, a ideia do mal foi inicialmente lançada pela catequese do medo e do terror associada à ação dos padres jesuítas. Entretanto, o satanismo como elemento estético e artístico, só iria ser abordado como construção literária a partir do romantismo. Em um primeiro momento, com uma percepção do mal a partir de certa herança do maniqueísmo medieval, o Diabo foi materializado como tentador nas suas crenças e como manipulador das ações maléficas dos seres humanos. Em um segundo momento, o satanismo é reverenciado pelos poetas como parte de si. A partir daí, o homem toma consciência que traz em si o bem e o mal (Deus e Satã). Essa nova percepção vai mudar a ideia de que o poeta era um ser divino. Assim, a desmistificação da arte e do poeta proveniente do satanismo, a partir do afastamento de certos dogmas religiosos, da rebeldia contra os sistemas morais e éticos, o fascínio pelo grotesco e pela morte, viabilizará uma certa dialética entre a literatura e a comunidade e, consequentemente, uma aproximação maior entre a arte e a vida.
De forma diferente de Baudelaire que pensava Satanás como símbolo da visão pessimista do progresso, os poetas do realismo vão usar o mito como símbolo de renovação progressista e de rebeldia contra o passado. É a partir do simbolismo que as manifestações literárias ligadas ao mito vão ganhar diversas perspectivas, como por exemplo, um Satã arrependido que pede clemência a Deus ou que simboliza o poeta que sofre por amor. Outros construíram os seus poemas dirigidos a Satã quando imitaram as ladainhas e as orações católicas que faziam descrições bestiais ou angelicais de um Satã que refletia a própria solidão e tristeza, como um homem dividido em constantes crises espirituais. Algumas das ideologias que alicerçaram a formação da República no Brasil foram repensadas, principalmente porque o racionalismo e a descrença por algumas dessas correntes ideológicas como o positivismo, não supria o vazio existencial e a carência por algo indefinível. Por isso a busca pela transcendência, pela libertação da alma do cárcere da vida. Implicitamente, havia toda uma busca pelo esclarecimento dos mistérios da vida e da morte para que pudessem determinar os propósitos existenciais que não aceitavam como absolutas as teorias científicas, deterministas e evolucionistas que eclodiram no final do século XIX. Dessa forma, Satanás torna-se um agente vital para a recuperação do individualismo e aprofundamento da reflexão sobre o próprio ser.
Independentemente dos usos do mito de Satanás terem tido na poesia brasileira uma intenção satírica, trágica, metafísica ou apenas estética, é perceptível que eles refletem a própria condição do homem, buscando sempre algo para preencher um grave vazio existencial. A grande importância do mito de Satanás, associado à condição humana sob a ótica do bem e do mal, é que ele está ligado diretamente ao desejo de conhecimento e à contestação dos padrões.
Foi através do uso literário e muitas vezes com a preciosa utilização da literatura comparada, associada à problemática de questões cruciais como esta (a dualidade entre o bem e o mal), obtidas através de muitos contextos, opiniões e políticas diferentes da nossa história que surgiram reflexões (outros textos literários) que, certamente, vieram influenciar decisivamente a nossa literatura moderna na busca incessante por termos e valores que conduzam o homem a patamares de conhecimento que valorizem toda a sua existência de uma forma expressiva, bela e transcendental.
mongiardimsaraiva
Referências:
FELIZARDO, Alexandre Bonafim et al. Estudos semânticos-discursivos da obra literária, volumes 1 e 2. Uberaba: Uniube, 2011. 27/58 p.
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