7/05/2019

A condição humana sob a ótica do bem e do mal: um estudo comparativo entre Milton, Dante e Goethe



O papel da literatura não é o de explicar ou definir, mas sim o de ajudar a compreender ou facilitar observações de parâmetros esclarecedores que possam enriquecer e/ou esclarecer algumas questões que interessam à humanidade.
Assim acontece com a temática do bem e do mal, cujas entidades sempre fizeram parte do imaginário de grandes escritores que povoaram e provocaram a interpretação dos leitores, muitas vezes de uma forma peculiar e subjetiva.
O mal (muito mais do que o bem), sempre exerceu um fascínio enorme em todas as classes sociais, prendendo leitores e espectadores a desfechos criativos e mirabolantes, ao ponto de criar legiões de seguidores em todo o mundo. Os personagens (vilões, associados ao macabro) assumem muitas vezes uma projeção tal que são responsáveis pelo enredo de grandes obras literárias, enchem teatros, cinemas e garantem famosos espetáculos.
Por outro lado, o bem, não parece adquirir a mesma força e envergadura, o que nos leva a pensar que talvez o ser humano necessite de testar, através de emoções fortes, os limites da sua própria existência.
Dessa forma, o mal surge como grande protagonista, ao ponto de todas as religiões incorporarem alguma força de desordem ou destruição. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ligados ao cristianismo, apontaram a soberba humana como a raiz do mal e a graça divina como a fonte do bem. Charles Darwin, considerado o pai da teoria da evolução, colocou em xeque a ideia de uma natureza projetada por um Deus bondoso e misericordioso. O filósofo alemão, Immanuel Kant, afirmou que o ser humano está associado a uma vontade maligna que se constitui como um mal radical. Friedrich Nietzsche transcendeu a questão do bem e do mal na sua filosofia, ao idealizar um super-homem que estaria além de qualquer moral.
Neste breve estudo, são abordadas três obras de três grandes autores, respectivamente, John Milton (1667), Dante Alighieri (1308) e Johann Wolfgang Goethe (1774) e as suas obras, Paraíso Perdido, Divina Comédia e Fausto.
Em Paraíso Perdido, Milton inspira-se na tradição clássica e épica dos grandes poemas e trata magistralmente, em verso branco, alguns aspectos filosóficos e religiosos do ser humano, através da história da condenação de Adão e Eva quando cometem o pecado original e são expulsos do Paraíso. A obra trabalha a relação entre o bem e o mal, ao mostrar que a felicidade provém da obediência a Deus e a desobediência pode acarretar na queda do homem.
Na Divina Comédia, Dante idealiza uma viagem ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso, ao ser conduzido por Virgílio (a voz da sua consciência). Nessa epopeia, é apresentada (em versos decassílabos) uma sequência admirável de figuras conhecidas, condenadas pelos seus pecados e em busca da salvação. O bem é personificado pela mulher amada, Beatriz, que aparece para guiá-lo até Deus, já que ela fora iluminada pela graça. No "Inferno de Dante", os horrores são descritos de uma forma impressionante e quase real, o que torna a obra intensa e marcadamente expressiva.
Fausto, de Goethe, é uma obra clássica escrita admiravelmente em versos (diálogos rimados) que falam metaforicamente da existência humana. O personagem Fausto é um cientista e mago que é inconformado com a sua vida mundana. Ele resolve fazer um pacto com o diabo (Mefistófeles), ao vender a sua alma em troca de prestígio e regalias. A obra procura refletir os conflitos e dilemas do ser humano em relação à tomada de uma postura espiritual (bem) ou essencialmente material (mal), tendo como eixo as relações entre natureza e consciência, razão e emoção.
Através da literatura comparada, como ferramenta de análise e estudo, é possível estabelecer alguns pontos convergentes e divergentes nas três obras, apesar de terem sido escritas por autores com nacionalidades diferentes, em épocas diferenciadas e, consequentemente, em contextos variados.
Por exemplo, podemos considerar que em relação a Milton, em Paraíso Perdido e Dante, em A Divina Comédia, ao efetuarmos um paralelo, ambos os autores utilizam adjetivos muito poderosos para descrever a relação de forças antagônicas (bem e mal). Em Paraíso Perdido, Satã é considerado como um astro em todo o texto, já que o seu autor é um homem com fortíssimas convicções religiosas que deseja assim enfatizar o perigo do mal nas relações com a humanidade.
Por outro lado, Dante oferece-nos a maior e a mais contundente descrição do Inferno com todos os seus horrores. Existe um propósito em descrever o Inferno acompanhado dos seus pecadores, como um lugar muito triste e de grande sofrimento. O autor faz questão em nomear algumas pessoas que conviveram com ele e de relacionar os seus pecados com as diversas penitências atribuídas.
Um outro ponto a observar, ilustra a expressão poético-romântica na obra de Milton, quando Eva é tentada pelo fruto proibido e desobedece às determinações de Deus. Adão não aceita logo imitá-la, mas acaba por degustar a maçã e, ao fazê-lo de uma forma consciente, manifesta o seu amor incondicional à amada. Nesta obra, Deus é magnânimo na sua bondade, mesmo diante do pecado, ao estender a sua mão misericordiosa àqueles que são fracos e reconhecendo a sua natureza humana.
Em Fausto (obra do Romantismo), o personagem do cientista parece possuir uma índole generosa, para além do pacto realizado com o demônio, o que lhe atribui uma certa conotação com o bem, apesar de ter sucumbido às argumentações de Mefistófeles. É importante observar, a partir da personagem de Margarida, impregnada de romantismo, toda a manifestação do bem, em contraponto ao mal, representado por Mefistófeles.
Na Divina Comédia e apesar de todas as descrições do sofrimento, existem alguns momentos representativos do romantismo e do poético. O relato sobre o Paraíso é repleto de alusões ao amor, à felicidade e à realização dos bem-aventurados. É muito profundo e emotivo o encontro entre Dante e a sua amada Beatriz quando ela o recebe no Paraíso.
É notória e fortíssima a presença desta dualidade (bem e mal) durante toda a trajetória de vida dos homens, assumindo sempre um papel ativo e decisivo no campo filosófico e na conduta de uma sociedade pautada por hábitos, valores, convenções e doutrinas cujos interesses nem sempre foram convergentes. Em relação à literatura e particularmente, no texto literário, não poderia ser diferente.
Na história humana, a representação de Satã na literatura sofreu diversas metamorfoses ao longo dos séculos. Do diabo satírico ao trágico e da bestialização à humanização de anjo. Essas metamorfoses já haviam começado na Bíblia, ao ganharem força alegórica e simbólica na boca dos profetas. Os cristãos vão transformá-lo em inúmeros demônios que influenciaram as ações humanas através da possessão e depois através de várias metamorfoses, ao ser condenado a simbolizar todo o mal da humanidade. Os primeiros cristãos, especificamente os Padres do Deserto, que ao imitarem as provações de Jesus o transformaram em tentador nas suas crenças que estabeleceram um confronto de forças entre o bem e o mal, criaram uma cultura de profundo medo durante a Idade Média e Moderna. Medo esse que assolou boa parte da população da Europa e que moldou a nossa moral, os nossos padrões culturais e principalmente modificou a nossa maneira de pensar e fazer arte, incluindo a literária.
Todo esse simbolismo vai ser vivenciado, de alguma forma, por diversos autores como Dante Alighieri, John Milton, William Blake e principalmente pelos poetas do romantismo como Lord Byron e Charles Baudelaire. Esse último, foi o que talvez melhor utilizou o mito de Satã como representação de si mesmo, a partir da sua identificação com essas metamorfoses (Les Fleurs du Mal), atravessado pela angústia da existência, pelo tédio, pela visão pessimista do futuro e pelo desejo de retorno ao primordial. Satã tornar-se-ia um símbolo daquilo que Baudelaire acreditava ser o homem moderno, construído a partir de tensões entre o bem e o mal, o belo e o feio, o lírico e o antilírico, passado e futuro, tradição e modernidade.
No Brasil, a ideia do mal foi inicialmente lançada pela catequese do medo e do terror associada à ação dos padres jesuítas. Entretanto, o satanismo como elemento estético e artístico, só iria ser abordado como construção literária a partir do romantismo. Em um primeiro momento, com uma percepção do mal a partir de certa herança do maniqueísmo medieval, o Diabo foi materializado como tentador nas suas crenças e como manipulador das ações maléficas dos seres humanos. Em um segundo momento, o satanismo é reverenciado pelos poetas como parte de si. A partir daí, o homem toma consciência que traz em si o bem e o mal (Deus e Satã). Essa nova percepção vai mudar a ideia de que o poeta era um ser divino. Assim, a desmistificação da arte e do poeta proveniente do satanismo, a partir do afastamento de certos dogmas religiosos, da rebeldia contra os sistemas morais e éticos, o fascínio pelo grotesco e pela morte, viabilizará uma certa dialética entre a literatura e a comunidade e, consequentemente, uma aproximação maior entre a arte e a vida.
De forma diferente de Baudelaire que pensava Satanás como símbolo da visão pessimista do progresso, os poetas do realismo vão usar o mito como símbolo de renovação progressista e de rebeldia contra o passado. É a partir do simbolismo que as manifestações literárias ligadas ao mito vão ganhar diversas perspectivas, como por exemplo, um Satã arrependido que pede clemência a Deus ou que simboliza o poeta que sofre por amor. Outros construíram os seus poemas dirigidos a Satã quando imitaram as ladainhas e as orações católicas que faziam descrições bestiais ou angelicais de um Satã que refletia a própria solidão e tristeza, como um homem dividido em constantes crises espirituais. Algumas das ideologias que alicerçaram a formação da República no Brasil foram repensadas, principalmente porque o racionalismo e a descrença por algumas dessas correntes ideológicas como o positivismo, não supria o vazio existencial e a carência por algo indefinível. Por isso a busca pela transcendência, pela libertação da alma do cárcere da vida. Implicitamente, havia toda uma busca pelo esclarecimento dos mistérios da vida e da morte para que pudessem determinar os propósitos existenciais que não aceitavam como absolutas as teorias científicas, deterministas e evolucionistas que eclodiram no final do século XIX. Dessa forma, Satanás torna-se um agente vital para a recuperação do individualismo e aprofundamento da reflexão sobre o próprio ser.
Independentemente dos usos do mito de Satanás terem tido na poesia brasileira uma intenção satírica, trágica, metafísica ou apenas estética, é perceptível que eles refletem a própria condição do homem, buscando sempre algo para preencher um grave vazio existencial. A grande importância do mito de Satanás, associado à condição humana sob a ótica do bem e do mal, é que ele está ligado diretamente ao desejo de conhecimento e à contestação dos padrões.
Foi através do uso literário e muitas vezes com a preciosa utilização da literatura comparada, associada à problemática de questões cruciais como esta (a dualidade entre o bem e o mal), obtidas através de muitos contextos, opiniões e políticas diferentes da nossa história que surgiram reflexões (outros textos literários) que, certamente, vieram influenciar decisivamente a nossa literatura moderna na busca incessante por termos e valores que conduzam o homem a patamares de conhecimento que valorizem toda a sua existência de uma forma expressiva, bela e transcendental.

mongiardimsaraiva


Referências:


FELIZARDO, Alexandre Bonafim et al. Estudos semânticos-discursivos da obra literária, volumes 1 e 2. Uberaba: Uniube, 2011. 27/58 p.








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