12/30/2019

Ausência


















vida é expansão sensorial e consciente
algo que não tem tamanho nem forma
uma energia que brota de dentro de nós
para se tornar essência da nossa norma
sentimento ilhado preso na nossa voz
que procura outros lugares para morar
como albatroz pairante só e compassado
uma odisseia perpetuada no crepúsculo
das noites que nos agarram sem guarda
nas manhãs vagas do chilrear dos pássaros
e no brilho fugaz de uma estrela que tarda
somos essa ausência que nos transcende
que nos impulsiona para dentro do ser
uma imensa vontade de tudo abraçar
para lá do horizonte que podemos ter


Mongiardim Saraiva


12/27/2019

A esquerda pariu um sapo















a esquerda pariu um sapo
uma obra do reino fantástico
da roubalheira e da enganação
no planalto da encruzilhada
fizeram aparecer um charco
onde girinos comandam a nação
um sapo nunca aparece por acaso
mas no meio de muitos mosquitos
o império ficou assim mais raso
e os esquerdistas urram aflitos
agora não vale a pena chorar
o leite que já foi derramado
tudo é obra de um bando perdido
no ocaso de um país acabado

Mongiardim Saraiva

12/05/2019

Entre o sonho e o sono



















a janela entreaberta e larga
permitia a entrada de uma luz
que inundava o meu quarto encantado
onde os meus heróis não paravam de entrar
oriundos daquele cometa apaixonado
animados por aquele azul sem mar
como se estivessem vivos e presentes
nas aventuras e histórias de sonhar
eu passeava por entre o anil do céu
e o brilho cintilante das estrelas
como se tudo me pertencesse agora
ausente e contente no meu brincar
sentia no sono um acordar latente
que me queria ali feliz para sempre
puro encanto de um despertar

Mongiardim Saraiva

11/30/2019

Análise do discurso


Resultado de imagem para análise do discurso

 aquilo que sou não me pertence
devo-o à ideologia e à formação discursiva
não passo de uma bolha entre interdiscursos
que saltita imanente e dialógica sem parar
que arrasta ditos e já-ditos na interação verbal
sou muito pouco e gostaria de ser mais
não apenas o sujeito pobre da enunciação
mas um enunciado carregado de muitos sentidos
que não dependam de condições de produção
o sujeito de um discurso breve único e só
uma heterogeneidade mostrada e marcada
apenas constituída por vozes na minha voz
talvez um belo e perene novo enunciado
fora do tempo e do rol das memórias
sem conceitos estigmas e histórias


Mongiardim Saraiva



11/18/2019

Cão que ladra não morde



















só te ouço ladrar
bradar um uivo sem par
morder que é bom
não é o teu dom
a tua arma são as arruaças
badernas que usas de cor
em praças de muitas raças
que fingem morrer de amor
queres uma vida bem melhor
mas só pensas em reclamar
daqueles que te ousam calar
por que não cerras os dentes
de branco vil ensanguentado
e não usas a tua louca mente
para morder o teu próprio rabo
"cão que ladra não morde"
sempre ouvi o meu pai dizer
se for verdade vais enlouquecer
aos poucos parado e ilhado
só te resta seguir a matilha
que cospe um fel açucarado


Mongiardim Saraiva

11/11/2019

Brado retumbante













soltaram-no(s)
repentinamente
nas nossas barbas
de molho inocentes
até quando sorriremos
apenas para disfarçar
a nossa vil tristeza
da alegria que mente
ó povo embrutecido
que se ignora presente
é hora de nos cuidarmos
como a quem se quer
e não deixarmos soltar
quem solto nos quer presos
onde estão vocês agora
entristecidos e enganados
agitai-vos no vosso trono
feito de lama e de fuligem
trazei o vosso respeito à tona
e imaginai uma pátria virgem
desflorada pela luz de um sonho
não percais a calma e a alma
segurai a vossa bandeira firme
serrai os dentes bradai e repudiai
a nossa casa é um templo sagrado
o lugar de um bandido é na prisão
empunhai a espada do ardor inusitado
mesmo que a lança corte a tua mão

Mongiardim Saraiva


11/05/2019

Brado de guerra

















às vezes é melhor passar pela guerra
apesar da injustiça e das matanças
o horizonte abre-se com uma serra
e apagam-se os nós e as heranças
só de paz não vive o homem de bem
que teima em manter-se amargurado
é preciso acabar com o que é ditado
em versos que não abonem a glória
em letras fundas e cruas ser o brado
mudar o caos vazio e desfigurado
para que uma nova raça seja gerada
um povo que morre não tem história
apenas vive de uma lembrança ilhada
caminha na escuridão sem ter memória
segura na boca uma mordaça apertada


Mongiardim Saraiva


10/22/2019

Ávidos













tenho visto sórdidos trejeitos
afeitos e nus na prática decente
mentirosos contumazes e atentos
na sociedade doente sem semente
cicatrizes e meretrizes nos leitos
escorreitos que exalam a perfume
ode ao canibalismo cru e visceral
adubo com cheiro forte a estrume
que nos rega a carne nos rodízios
óleo que escorre do nosso animal
para outro animal já ressequido
fel que guarda a essência do mal
sempre pronto a engolir contido
dinheiro que nos mostra ser fatal
transformar uma natureza em cal
se nos deixarmos um dia abater
morrer vai ser um sonho delirante
radiantes e sós por esse turbilhão
cometeremos loucuras para ter pão
ávidos por um presente esfuziante
seremos carcaças podres e frias
cobertas de moscas e de orgias
as putas serão as nossas deusas
coitadas e exaltadas nas alegrias
à vida daremos o último suspiro
um longo pesado e eterno adeus
continuaremos a rir na batalha
e mataremos em nome de deus

mongiardimsaraiva

10/10/2019

As hienas

















ouço ao longe o riso das hienas
que se aproximam em grupos
e corpos preparados para trucidar
bocas fétidas negras e obscenas
erguidas pelas patas dianteiras
que sacodem o instinto de matar
covardemente tentam cercar-me
conheço-as de ocasiões certeiras
feitas de migalhas do meu jantar
já sei que não devo mostrar temor
pela procura ávida do meu sangue
sou eu quem devo atacá-las primeiro
ou despistá-las para sempre ao luar
num gesto bravo e atento com ardor
elas não resistem à tortura do mangue
sangue misturado nas areias sem cheiro
esfarrapadas pela sede e pela fome
perdem-me rapidamente nesse terreiro
em risos vis de escárnio e fingimento
sigo agora o caminho muito atento
apenas aos homens que cruzem a estrada
das pobres hienas esfomeadas sou vento
que leva para longe o som do seu lamento

mongiardimsaraiva


9/21/2019

Voando na madrugada


























quando a noite se curva sobre a tarde

e se apodera da fadiga que em mim ficou 

liberto-me dos despojos de mais um dia claro

encanto-me na chegada dessa escuridão

as sombras projetam-se junto aos meus passos

como raros seres que caminham ao meu lado

em lapsos cegos de encantamento certeiro

sou lançado nos confins da madrugada

como ave de rapina atenta e encantada

subo lá no alto sereno em círculos fechados

e de lá avisto tranquilo todos os cansaços

da luta que se liberta dos laços

mergulho no vazio da imensidão velada

à procuro do meu alimento sagrado

não sou mais do que um pássaro ao vento

voando em círculos largos e concêntricos

livre leve e solto como a madrugada



mongiardimsaraiva

9/20/2019

Suspenso



















Suspenso, resiste às intenções dos amigos
Que torcem amigavelmente pela sua queda,
Apesar da luz forte e amarelada que parece mantê-lo ali para sempre
À mercê dos braços suaves e fortes da calmaria do lago.
À margem de si mesma, a imagem conseguiu parar no tempo
E evidenciar a saudade que sentimos dos tempos de outrora,
Em que as brincadeiras eram simples, leves e nos pertenciam...

mongiardimsaraiva

9/03/2019

Amazônia selvagem


















Música que brota da terra
No encanto da água
E nas matas que florescem
Onde a vida ri e serpenteia
Uma ode ao crepúsculo
Ao sol que tudo permeia
E às manhãs que cantam
Uma súplica a mil vozes
Que produz um eco infinito
E nos chama para afagar
Um estertor só e aflito
Que nos ama sem parar

mongiardimsaraiva

7/10/2019

Voraz

sinto-te tão voraz

esbelta corça em saltos magros

e altivos por cima de mim fugaz

sou dos teus gemidos uma alcova

aberta e preparada para te afagar

no sorriso da minha boca molhada

língua solta sedenta e transfigurada

em movimentos graciosos de batalha

aos braços longos quentes e brancos

atribuo o poder de me apertarem

até à doce aprazível e letal asfixia

revejo-te todos os dias na ventania

na tempestade e nas manhãs frias

que tardam em se abrir para o amor

sou da tua vontade o teu estertor

apesar do olhar lânguido que te deito

do teu cheiro sinto o ar rarefeito

sou lança que em ti avança sem dor








7/05/2019

NEO




















achei-os na imensidão daquela sala
sentados sós quietos e pendentes
amarelados e ausentes na fala
um olhar infinito sem distância
para dentro de uma tristeza rala
esperança que não podia esperar
pela ameaça de não poder estar
gente de todos os quadrantes
gordos magros brancos e negros
novos velhos jovens e sem idade
nivelados pelo mesmo estertor
corações flutuantes sem jangada
obras do infinito sem morada
apenas reféns da dor e do amor
tudo reduzido à imagem da cruz
sofrimento que nos transforme
no alimento para outras vidas
em seres que busquem a glória
e que aceitem o nó das partidas

mongiardimsaraiva

A condição humana sob a ótica do bem e do mal: um estudo comparativo entre Milton, Dante e Goethe



O papel da literatura não é o de explicar ou definir, mas sim o de ajudar a compreender ou facilitar observações de parâmetros esclarecedores que possam enriquecer e/ou esclarecer algumas questões que interessam à humanidade.
Assim acontece com a temática do bem e do mal, cujas entidades sempre fizeram parte do imaginário de grandes escritores que povoaram e provocaram a interpretação dos leitores, muitas vezes de uma forma peculiar e subjetiva.
O mal (muito mais do que o bem), sempre exerceu um fascínio enorme em todas as classes sociais, prendendo leitores e espectadores a desfechos criativos e mirabolantes, ao ponto de criar legiões de seguidores em todo o mundo. Os personagens (vilões, associados ao macabro) assumem muitas vezes uma projeção tal que são responsáveis pelo enredo de grandes obras literárias, enchem teatros, cinemas e garantem famosos espetáculos.
Por outro lado, o bem, não parece adquirir a mesma força e envergadura, o que nos leva a pensar que talvez o ser humano necessite de testar, através de emoções fortes, os limites da sua própria existência.
Dessa forma, o mal surge como grande protagonista, ao ponto de todas as religiões incorporarem alguma força de desordem ou destruição. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ligados ao cristianismo, apontaram a soberba humana como a raiz do mal e a graça divina como a fonte do bem. Charles Darwin, considerado o pai da teoria da evolução, colocou em xeque a ideia de uma natureza projetada por um Deus bondoso e misericordioso. O filósofo alemão, Immanuel Kant, afirmou que o ser humano está associado a uma vontade maligna que se constitui como um mal radical. Friedrich Nietzsche transcendeu a questão do bem e do mal na sua filosofia, ao idealizar um super-homem que estaria além de qualquer moral.
Neste breve estudo, são abordadas três obras de três grandes autores, respectivamente, John Milton (1667), Dante Alighieri (1308) e Johann Wolfgang Goethe (1774) e as suas obras, Paraíso Perdido, Divina Comédia e Fausto.
Em Paraíso Perdido, Milton inspira-se na tradição clássica e épica dos grandes poemas e trata magistralmente, em verso branco, alguns aspectos filosóficos e religiosos do ser humano, através da história da condenação de Adão e Eva quando cometem o pecado original e são expulsos do Paraíso. A obra trabalha a relação entre o bem e o mal, ao mostrar que a felicidade provém da obediência a Deus e a desobediência pode acarretar na queda do homem.
Na Divina Comédia, Dante idealiza uma viagem ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso, ao ser conduzido por Virgílio (a voz da sua consciência). Nessa epopeia, é apresentada (em versos decassílabos) uma sequência admirável de figuras conhecidas, condenadas pelos seus pecados e em busca da salvação. O bem é personificado pela mulher amada, Beatriz, que aparece para guiá-lo até Deus, já que ela fora iluminada pela graça. No "Inferno de Dante", os horrores são descritos de uma forma impressionante e quase real, o que torna a obra intensa e marcadamente expressiva.
Fausto, de Goethe, é uma obra clássica escrita admiravelmente em versos (diálogos rimados) que falam metaforicamente da existência humana. O personagem Fausto é um cientista e mago que é inconformado com a sua vida mundana. Ele resolve fazer um pacto com o diabo (Mefistófeles), ao vender a sua alma em troca de prestígio e regalias. A obra procura refletir os conflitos e dilemas do ser humano em relação à tomada de uma postura espiritual (bem) ou essencialmente material (mal), tendo como eixo as relações entre natureza e consciência, razão e emoção.
Através da literatura comparada, como ferramenta de análise e estudo, é possível estabelecer alguns pontos convergentes e divergentes nas três obras, apesar de terem sido escritas por autores com nacionalidades diferentes, em épocas diferenciadas e, consequentemente, em contextos variados.
Por exemplo, podemos considerar que em relação a Milton, em Paraíso Perdido e Dante, em A Divina Comédia, ao efetuarmos um paralelo, ambos os autores utilizam adjetivos muito poderosos para descrever a relação de forças antagônicas (bem e mal). Em Paraíso Perdido, Satã é considerado como um astro em todo o texto, já que o seu autor é um homem com fortíssimas convicções religiosas que deseja assim enfatizar o perigo do mal nas relações com a humanidade.
Por outro lado, Dante oferece-nos a maior e a mais contundente descrição do Inferno com todos os seus horrores. Existe um propósito em descrever o Inferno acompanhado dos seus pecadores, como um lugar muito triste e de grande sofrimento. O autor faz questão em nomear algumas pessoas que conviveram com ele e de relacionar os seus pecados com as diversas penitências atribuídas.
Um outro ponto a observar, ilustra a expressão poético-romântica na obra de Milton, quando Eva é tentada pelo fruto proibido e desobedece às determinações de Deus. Adão não aceita logo imitá-la, mas acaba por degustar a maçã e, ao fazê-lo de uma forma consciente, manifesta o seu amor incondicional à amada. Nesta obra, Deus é magnânimo na sua bondade, mesmo diante do pecado, ao estender a sua mão misericordiosa àqueles que são fracos e reconhecendo a sua natureza humana.
Em Fausto (obra do Romantismo), o personagem do cientista parece possuir uma índole generosa, para além do pacto realizado com o demônio, o que lhe atribui uma certa conotação com o bem, apesar de ter sucumbido às argumentações de Mefistófeles. É importante observar, a partir da personagem de Margarida, impregnada de romantismo, toda a manifestação do bem, em contraponto ao mal, representado por Mefistófeles.
Na Divina Comédia e apesar de todas as descrições do sofrimento, existem alguns momentos representativos do romantismo e do poético. O relato sobre o Paraíso é repleto de alusões ao amor, à felicidade e à realização dos bem-aventurados. É muito profundo e emotivo o encontro entre Dante e a sua amada Beatriz quando ela o recebe no Paraíso.
É notória e fortíssima a presença desta dualidade (bem e mal) durante toda a trajetória de vida dos homens, assumindo sempre um papel ativo e decisivo no campo filosófico e na conduta de uma sociedade pautada por hábitos, valores, convenções e doutrinas cujos interesses nem sempre foram convergentes. Em relação à literatura e particularmente, no texto literário, não poderia ser diferente.
Na história humana, a representação de Satã na literatura sofreu diversas metamorfoses ao longo dos séculos. Do diabo satírico ao trágico e da bestialização à humanização de anjo. Essas metamorfoses já haviam começado na Bíblia, ao ganharem força alegórica e simbólica na boca dos profetas. Os cristãos vão transformá-lo em inúmeros demônios que influenciaram as ações humanas através da possessão e depois através de várias metamorfoses, ao ser condenado a simbolizar todo o mal da humanidade. Os primeiros cristãos, especificamente os Padres do Deserto, que ao imitarem as provações de Jesus o transformaram em tentador nas suas crenças que estabeleceram um confronto de forças entre o bem e o mal, criaram uma cultura de profundo medo durante a Idade Média e Moderna. Medo esse que assolou boa parte da população da Europa e que moldou a nossa moral, os nossos padrões culturais e principalmente modificou a nossa maneira de pensar e fazer arte, incluindo a literária.
Todo esse simbolismo vai ser vivenciado, de alguma forma, por diversos autores como Dante Alighieri, John Milton, William Blake e principalmente pelos poetas do romantismo como Lord Byron e Charles Baudelaire. Esse último, foi o que talvez melhor utilizou o mito de Satã como representação de si mesmo, a partir da sua identificação com essas metamorfoses (Les Fleurs du Mal), atravessado pela angústia da existência, pelo tédio, pela visão pessimista do futuro e pelo desejo de retorno ao primordial. Satã tornar-se-ia um símbolo daquilo que Baudelaire acreditava ser o homem moderno, construído a partir de tensões entre o bem e o mal, o belo e o feio, o lírico e o antilírico, passado e futuro, tradição e modernidade.
No Brasil, a ideia do mal foi inicialmente lançada pela catequese do medo e do terror associada à ação dos padres jesuítas. Entretanto, o satanismo como elemento estético e artístico, só iria ser abordado como construção literária a partir do romantismo. Em um primeiro momento, com uma percepção do mal a partir de certa herança do maniqueísmo medieval, o Diabo foi materializado como tentador nas suas crenças e como manipulador das ações maléficas dos seres humanos. Em um segundo momento, o satanismo é reverenciado pelos poetas como parte de si. A partir daí, o homem toma consciência que traz em si o bem e o mal (Deus e Satã). Essa nova percepção vai mudar a ideia de que o poeta era um ser divino. Assim, a desmistificação da arte e do poeta proveniente do satanismo, a partir do afastamento de certos dogmas religiosos, da rebeldia contra os sistemas morais e éticos, o fascínio pelo grotesco e pela morte, viabilizará uma certa dialética entre a literatura e a comunidade e, consequentemente, uma aproximação maior entre a arte e a vida.
De forma diferente de Baudelaire que pensava Satanás como símbolo da visão pessimista do progresso, os poetas do realismo vão usar o mito como símbolo de renovação progressista e de rebeldia contra o passado. É a partir do simbolismo que as manifestações literárias ligadas ao mito vão ganhar diversas perspectivas, como por exemplo, um Satã arrependido que pede clemência a Deus ou que simboliza o poeta que sofre por amor. Outros construíram os seus poemas dirigidos a Satã quando imitaram as ladainhas e as orações católicas que faziam descrições bestiais ou angelicais de um Satã que refletia a própria solidão e tristeza, como um homem dividido em constantes crises espirituais. Algumas das ideologias que alicerçaram a formação da República no Brasil foram repensadas, principalmente porque o racionalismo e a descrença por algumas dessas correntes ideológicas como o positivismo, não supria o vazio existencial e a carência por algo indefinível. Por isso a busca pela transcendência, pela libertação da alma do cárcere da vida. Implicitamente, havia toda uma busca pelo esclarecimento dos mistérios da vida e da morte para que pudessem determinar os propósitos existenciais que não aceitavam como absolutas as teorias científicas, deterministas e evolucionistas que eclodiram no final do século XIX. Dessa forma, Satanás torna-se um agente vital para a recuperação do individualismo e aprofundamento da reflexão sobre o próprio ser.
Independentemente dos usos do mito de Satanás terem tido na poesia brasileira uma intenção satírica, trágica, metafísica ou apenas estética, é perceptível que eles refletem a própria condição do homem, buscando sempre algo para preencher um grave vazio existencial. A grande importância do mito de Satanás, associado à condição humana sob a ótica do bem e do mal, é que ele está ligado diretamente ao desejo de conhecimento e à contestação dos padrões.
Foi através do uso literário e muitas vezes com a preciosa utilização da literatura comparada, associada à problemática de questões cruciais como esta (a dualidade entre o bem e o mal), obtidas através de muitos contextos, opiniões e políticas diferentes da nossa história que surgiram reflexões (outros textos literários) que, certamente, vieram influenciar decisivamente a nossa literatura moderna na busca incessante por termos e valores que conduzam o homem a patamares de conhecimento que valorizem toda a sua existência de uma forma expressiva, bela e transcendental.

mongiardimsaraiva


Referências:


FELIZARDO, Alexandre Bonafim et al. Estudos semânticos-discursivos da obra literária, volumes 1 e 2. Uberaba: Uniube, 2011. 27/58 p.








6/13/2019

Olha a peluda!
















O tempo de ser militar
Escoa-se pelo ralo do quartel.
Oficiais sargentos e praças
Festejam as virtudes do fel.
Soldados velhos que se vão
Em arrufos de insana glória.
Cabelos que voltam a crescer
No começo de outra história.
E gritam alegres os saudosos:
Olha a peluda! Olha a peluda!
No pátio triste de outrora
Há uma imagem sem ternura;
Da "velhice" que se vai embora...


Nota: "Passar à peluda" (gíria militar) é uma expressão portuguesa que significa a transição do serviço militar obrigatório para o regime civil, quando os soldados terminam a sua prestação de serviço. Na origem dessa expressão, pensa-se que a palavra "peluda" diz respeito à permissão do uso dos cabelos mais compridos (associado a um conceito de liberdade),  no momento da saída dos militares dos quartéis. Já o termo "velhice", é alusivo aos soldados que estão há muito tempo a cumprir o serviço militar obrigatório e prestes a terminá-lo.



mongiardimsaraiva


6/12/2019

Atos inglórios




Não invoques nenhum deus na origem dos teus atos inglórios.

mongiardimsaraiva


Cântico misericordioso


difama-se
acoberta-se
engana-se
proclama-se
diz-se
desdiz-se
mente-se
sobrevive-se
e vegeta-se
tudo em nome
do misericordioso
piedoso
magnânimo
condescendente
benevolente
e transcendente
as igrejas estão cheias
de uma devoção ardente
mas o canto está doente
ausente nas causas alheias


mongiardimsaraiva




6/11/2019

Um arranjo eleitoral


















Hoje ocorreu mais uma eleição. 

Não uma eleição para presidente, deputado ou prefeito, mas uma singela eleição numa escola de um pequeno município, nesse país de todos e de ninguém. 

Nem por isso menos feroz, na luta pelo poder que todos querem idolatrar e reconhecer como única via. Em um país onde as decisões passam muitas vezes por colegiados fabricados e obrigados a servir quem é mais forte. Onde os votos são contados em voz alta e sem piedade, doa a quem doer. Ou, contrariamente, são silenciosos mas já estão previamente destinados e acorrentados a um poder sequencial, objetivo, frio e malicioso de longa data que não pretende operar quaisquer mudanças. Em que os mecanismos de coação e violência são realizados à luz do dia, de uma forma explícita e pouco ortodoxa, empurrando para fora quem ousa peitar o sistema que serve interesses. 

Tudo é orquestrado sem que a música toque acordes de felicidade e liberdade, mas sim em compassos monótonos, cadenciados e fúnebres. Um samba que tem medo de sambar. O país não ousa ter força para combater os seus erros primários e arrasta-se numa toada sórdida, comprometida e enfadonha que conduz à prostração e ao desânimo. 

A luta pelo poder deixou de ser um ato humanitário e razoável, para se transformar em violação dos direitos mais elementares, ao trazer-nos o que existe de mais vil e sórdido no ser humano. As pessoas têm um medo profundo de quase tudo e também uma das outras, sem que consigam atribuir uma causa para isso. E muito menos querem expor-se às rajadas de uma metralhadora invisível que não pára de disparar em todas as direções. O território está em guerra, seja uma guerra sangrenta e declarada, seja um combate entre forças fantasmas que cavam sulcos profundos de terror e miséria. 

Esta pequena eleição que ocorreu em termos rituais e padronizados, pode parecer apenas uma gota de água num imenso oceano de lamúrias e desajustamentos. Mas não deixa de reiterar e comprometer (numa escala menor mas vital), ao contribuir manifestamente para o apodrecimento do tecido social que cada vez nos deixa mais expostos e vulneráveis à nossa própria condição. 

Não fosse assim, teria sido apenas mais uma eleição...


mongiardimsaraiva

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5/27/2019

VERSOS IMPREGNADOS




























receba estas palavras impregnadas


por tudo o que passamos juntos


em doces epopeias encantadas

pela luz do dia que nos confinou

saiba que o meu apreço maior

é tê-la aqui comigo para sempre

como borboleta que em mim pousou

por isso suplico por outras primaveras

flores e odores no nosso belo jardim

que a semente do grande amor floresça

e nos ofereça muitas quimeras assim


mongiardimsaraiva

5/17/2019

Talento




















quero eleger o meio-amargo
talentosamente indescritível
como um paraíso tropical
que mostra a sua ilha visível
dentro de uma boca colossal
salpicada por doces amêndoas
que teimam em não desfazer
a alegria de não querer morrer
para saboreá-lo até ao final
obra de um talento marcado
em belos quadrados perfilado
ele existe como um santo graal
fervoroso dedicado e espiritual
um devoto das causas perdidas
cálice divino dos seres amados
uso lascivo para todos os coitados
tudo nele tem um toque sagrado
provem-no sem constrangimento
e deem graças ao saborear o amor
transformem a vossa dor em talento

mongiardimsaraiva





5/15/2019

Pelas barbas do profeta





















pelas barbas do profeta
continuo o meu caminho
pelo profeta e pelas barbas
sigo hoje o mesmo rumo
sou um profeta no sentir
vou segurando o meu prumo
como serei um novo profeta
sem as barbas que não arrumo
se aparecer um novo cometa
em um céu de outras estrelas
vou saber que sou o asceta
do sonho de poder tê-las
entretanto sigo sem meta
pelas barbas do profeta

mongiardimsaraiva

5/11/2019

Bucólica


















exalto as florestas coníferas
de agulhas longas e finas
próprias das regiões frias
ou temperadas do planeta
como nos cartões de natal
que guardo numa gaveta
para esquecer de todo o mal
queria poder plantar flores
em todas os lutos e horrores
poder cheirar e presentear
com singelos botões de rosa
impregnados de um doce aroma
que me lembrasse o amor refinado
tonto e inebriado das paixões
sou refém dos meus sólidos portões
que só abrem quando me sinto ilhado
sou sentinela atenta e impregnada
pelos aromas que voam à minha beira
os meus muros são brancos e silenciosos
por entre as ervas nasce uma trepadeira

mongiardimsaraiva

5/05/2019

O homem que fazia sabão

























Naquele povoado tudo era comandado por uma pequena comunidade religiosa, cujo pastor era um homem severo e antiquado. Detentor de uma palavra forte e vibrante, fazia tremer quem ousasse discordar de alguma das suas ideias e todos se preocupavam em agradar-lhe sem restrições.

As crianças eram as primeiras a correr, quando do alto do seu metro e quase noventa escancarava uma boca rasgada e advertia com voz de trovão.

Todos se preocupavam em louvar um Deus que era formatado à imagem daquela realidade, de acordo com as condições da maioria das pessoas; pobres, sofridas e com um horizonte muito restrito, encurtado ainda mais pela impossibilidade de saírem dali para conhecerem outros lugares.

Mesmo assim, parecia existir uma espécie de serenidade podre e envolvente que deixava tudo com um aspecto de alegria forçada e contagiante, não fosse algumas histórias estranhas e perturbadoras que contavam sobre algumas pessoas da região.

Dentre esses relatos, os mais velhos tinham eleito um personagem que era o principal responsável pelo temor das crianças e deixava os adultos numa incerteza muito grande quando o assunto assim o exigia. Ou sempre que esse homem aparecia na aldeia, transportando consigo todas as maldições concebíveis e inconcebíveis que lhe diziam respeito. Era injusto, mas aquele homem estava fadado a um destino trágico e obscuro apesar de, aparentemente, nunca ter feito mal a ninguém. Diziam que aquele homem era tão estranho e nefasto que, em alguns casos em que fora afrontado pelas crianças, as tinha levado consigo dentro de um enorme saco e com elas, tinha feito sabão...

E um dia, quando todos estavam no início de mais um culto, ele apareceu subitamente no meio daquela multidão e dirigiu-se apressadamente ao púlpito da igreja para se tornar o orador da noite. Tinha vindo substituir o pastor titular, sem o conhecimento do grupo que aguardava descontraidamente a chegada do seu líder. Não foi imediatamente reconhecido pelos presentes, mas o seu vulto exageradamente magro e desengonçado, a sua cabeça ossuda e projetada para trás em que exibia no vidro de um dos olhos uma expressão marcadamente desconcertante e transfigurada, deixou um rasto de apreensão naquela sala.

Quando começou a falar, a sua voz era cristalina e melódica como uma lira, os seus movimentos eram estéticos, graciosos e a expressão era eloquente e segura. Nunca ninguém ousara escutar aquela voz que transmitia segurança e prendia a atenção, até dos menos devotos. Os mais velhos acotovelavam-se e faziam observações uns aos outros quase em surdina e entre dentes. As crianças, à medida que o iam reconhecendo tremiam, ao aguardar um gesto que indicasse que aquele homem pegaria inadvertidamente em um saco para as levar consigo. Aquela figura manteve-se por bastante tempo entregue e atenta aos seus fiéis, transbordando palavras de amor e esperança na sua homilia, quase fazendo esquecer o seu passado lendário e impiedoso.

Não fosse um gesto inesperado daquele orador e tudo teria decorrido na mais santa paz. A certa altura, quando todos os fiéis já se encontravam envolvidos por aquele destino crente e louvável, o homem pediu a todos os adultos que perfilassem as suas crianças junto ao altar, já que pretendia ofertá-las e honrá-las com uma pequena lembrança. E assim foi. Aquelas crianças pobres, empurradas pelos seus pais, começaram a formar uma longa fila junto àquele homem que parecia agora ser mais uma figura de regeneração divina do que uma criatura sinistra e do mal.

Mas quando tudo previa tratar-se de um final feliz e honroso para aquela comunidade envolvida pelo seu Deus, um pequeno detalhe foi responsável pelo reinício da dúvida cruel que pairou sobre aquela criatura; aquele homem fizera subitamente aparecer do nada, uma grande sacola pesada que arrastou até ao centro da igreja e dela começou a tirar pequenos embrulhos que distribuiu por todos os presentes. E disse, num tom suave, feliz e aprazível: - Esperei muitos anos por este momento e esta é uma dívida que tinha para com muitos de vocês. - Recebam humildemente cada amostra deste sabão, em nome do Senhor Jesus e com ele lavem cuidadosamente o corpo e a alma para remissão dos vossos pecados!

mongiardimsaraiva








4/27/2019



Que o sopro do vento espalhe no teu rosto pétalas de saudade e o brilho da lua te envolva docemente no seu véu...

mongiardimsaraiva



mesmo confinado às profundezas abissais
por vezes lanço mão do meu periscópio
um olho apontado a tantos olhos normais
envoltos por uma cortina no denso ópio
dentro do meu submarino aguardo pelo sol
apesar de não poder senti-lo nem abraçá-lo
sou refém dessa claridade tímida e velada
E estou imerso nas águas sem um farol
qualquer clareza é uma lua dentro de mim
apontada ao espaço de muitas estrelas
quando avisto alguém recolhido assim
apetece-me chamá-lo e acolhê-lo
no frio do meu barco só e desatracado
divido a minha paz com as medusas
e sinto-as rejubilar no meu horizonte 
em movimentos esbeltos e educados 
às vezes sou apenas como uma concha 
bivalve e entreaberta que respira 
pressinto cada onda que me atira
ao mar consternado do meu fado

mongiardimsaraiva










Arquivo morto



















pessoas e coisas que acabaram
vidas e passos que chegaram ao fim
não te iludas se no tempo se amaram
já nada e ninguém os faz ser assim
ciclos são encerrados para sempre
sem retorno ao passado que se foi
outras obras voltarão ricas e renovadas
por um fulgor aceso que quase dói
ousa perguntar aos que foram amigos
se ainda te podem realizar um favor
pede-lhes com todo o teu clamor
e vê-os escorregar para os abrigos
desfeitos em desculpas esfarrapadas
não existe mais nada além de ninguém
para te trazer o sopro de um vintém
por isso não deves te importar
com os amigos que já não o são
devolve-os à sua origem perdida
eles não estão mais aí para ti
são apenas o teu passado torto
deixa-os na paz de um novo ciclo
manda-os para o teu arquivo morto

mongiardimsaraiva

4/09/2019

Perplexo

















admiro a tua tenacidade
quando lutas contra a corrente
quando empurras o amor ausente
e queres mostrar a tua vontade
admiro-te mesmo além do razoável
quando sinto que usas a saudade
apesar do tempo pouco afável
acho-te um poço de sabedoria
mesmo quando abanas a cabeça fria
e descobres em mim um sim amável
não te deixas nunca abater
e arrastas sempre a sombra da vida
és feita de quê sem saber
por ti aclamo à natureza sábia
uso o teu canto para me ver
e sigo o teu olhar sem te ter

mongiardimsaraiva




3/19/2019

O meu infinito (poema selecionado - 2019)












somente o infinito para me guiar
sem margens paragens e descompassos
um caminho sem estradas para cruzar
nos abraços que teimei em não dar
nos beijos que transformei em laços
certezas que ficaram para me guiar
tudo se esvaiu por essa terra solta
sinto que os poros se fecharam
nada mais me faz lembrar de mim
sou apenas poeira decantada pelo ar
restos desse ser dão-me a última voz
num sibilar rente às nuvens brancas
infinitamente nutrido e só esvoaço
parcas partículas agregadas ao pó
não consigo mais olhar para trás
sinto-me suspirar infinito e incerto
é tarde para não querer voar
sou agora o mito da minha natureza
pertenço às regiões desabitadas
onde os abismos acolhem os deuses
peregrino de toda uma fé tamanha
vejo água e luz por toda a parte
por cima do sol nessa montanha

 mongiardimsaraiva

3/14/2019

Apenas
















basta-me semi cerrar os olhos
transportar-me para longe daqui
dentro de uma nuvem sobre o vento
sou do ar e da verdade que chora e ri
mais acima sinto-me tão eu e atento
como pássaro que gargalha fora de si
gosto de seguir a marcha das formigas
que pisam a terra oca que se contrai
chupam a água pelas barrigas
escravas no ritual dos seus ais
quanto mais alto me transporto
mais distante estou das formas
perco-me fora das normas
e separo-me do jugo da palavra
estou na garganta de uma fada
que me empurra mais para dentro
da minha explosão sem trovão
apenas sinto a divisão do meu corpo
provocada pela pólvora que desagrega
em migalhas de um tiro de canhão
finalmente sou do etéreo e do perdão
em voo suspenso e incerto para sempre
bato agora as minhas asas de borboleta
como uma pena só e sem pena de voar
flutuo na garupa deste poema que vai
apenas subo choro e desço lento
permaneço estático e finjo apenas
que sou um observador atento
embalado pela tristeza que dói
não ouço mais o riso das hienas
apenas um doce e leve lamento
em volta da minha nuvem que cai
estou agora numa lua sem vento
sem onda balanço e sem sustento
apenas ausência que sai

mongiardimsaraiva






2/23/2019

Muito além




















hoje acendo esta vela
uma luz que não se apaga
uso a minha saudade singela
para te dizer quase nada
sou mais uma estrela perto de ti
nessa imensidão só e sagrada
junto-me aqui à tua morada
naquilo que sonhamos e sofremos
estou apenas suspenso no ar
numa bolha em que nos vemos
és ainda o meu maior bem
apesar de não seres mais ninguém
és muito mais do que a lua tem
no manto prata do teu regaço
sou ausente no amor que faço
recordo-te assim muito além

mongiardimsaraiva





2/06/2019

O pastor















sou o silêncio de um pastor
guardo o meu rebanho atrás do monte
uso em liberdade as minhas cores
penso nas estrelas sem ter ciência
apenas cuido dos meus amores
observo o céu sem metafísica
basto-me no regalo do vento
sou pássaro pousado em vida
água que escorre do meu lamento
quando avisto as outras terras
marco as ovelhas na memória
e ouço o eco do seu balir
no sol escrevo outra história
conto os passos que hão-de vir
os meus cães são como gente
levam e trazem o meu rebanho
são anjos que me seguem de perto
abrem o caminho que vem a seguir
quero deixar para as estrelas
uma janela sempre aberta
por essa imensidão distante
quero sempre poder vê-las
em volta do meu rebanho
de uma forma delirante

mongiardimsaraiva












2/05/2019

Epitáfio
























em um lapso tudo termina
no estalo vazio que te leva
nas garras perpétuas do não ser
serpente que se enrosca quente
no teu pescoço frio e dormente
aproveita cada abraço sagrado
cada beijo oferecido ao teu corpo
cada criatura que te faz sonhar
logo estarás numa rua deserta
seguindo apenas os teus passos
não deixes que a magia se esvaia
por entre os teus dedos de pedra
e caia no chão sangrento das feras
reluz a cada raio de luz enviado
e não te esqueças de nós
também somos feitos de ti
quando fores embora
leva a tua saudade
e não batas a porta
perdoa-nos a maldade
ainda estamos por aqui

mongiardimsaraiva

2/04/2019

Com um olho no burro e outro no cigano


o cigano passou por mim agora
na garupa do seu burro cinzento
não conseguiu olhar-me nos olhos
parecia apressado mundo afora
a trotar perdido e a rir aos molhos
fiquei sem saber o que lhe dizer
aquele era o meu melhor amigo 
que parecia não mais me conhecer
por isso fui ter com uma cigana
que leu baixinho a minha mão
fitou-me no viés do seu olhar
e perguntou-me com toda a razão
se não conhecia bem o meu amigo
através do seu olhar mediano
como observar sempre um gitano
sempre a não ver e a ver todos
sempre com um olhar incerto e fugaz
sempre com um olho no burro
e outro no cigano

  
mongiardimsaraiva

1/19/2019

Extremos




os extremos sempre se tocam
agarram-se e sacodem-se
como dois irmãos de sangue
abraçam-se e beijam-se
levitam e pairam no ar
corpos sagrados e vorazes
nas carícias e nos segredos
são cúmplices e viajam
numa aventura certeira
pelas planícies do sem fim
dão a volta ao mundo
e amam-se assim
como dois extremos
longe e perto
inevitavelmente
sem palavras

mongiardimsaraiva

1/18/2019

Uma terra marcadamente dura




que terra tão marcadamente dura
montes escuros redondos de pedra densa
encostas que escorrem uma baba imensa
mato queimado no meio dessa secura
os rebanhos procuram na encosta intensa
vestígios de um novo capim que não vem
transformado em ossos de carcaça pura
e mugidos dos bois à chuva que não vem
os cães abandonados uivam na madrugada
em alcateias de sons levados pelo vento
são da brisa como ecos de um lamento
e trazem-nos a melodia consternada
cortam o silêncio no fio de uma navalha
apontada à imensidão do céu estrelado
os seres mais pacatos são os caboclos
que bocejam no mato enquanto falam
são como lagartos apontados para a lua
à espera que um inseto pouse na palha
de voz estridente como quem ri e ralha
espantam as onças e atraem as corujas
nessa noite preciosa infindável e escura
naquela terra tão marcadamente dura

mongiardimsaraiva












1/15/2019

Peste bubônica



Como se não bastasse as pragas e os maus agoiros que parecem transitar ultimamente pelo país, foi registrado no Rio de Janeiro um caso de peste bubônica, doença fatal que dizimou um terço da Europa no século XIV. A doença é contraída por uma bactéria alojada no sangue das pulgas de roedores e nos piolhos. No entanto, há indícios de que no Brasil a doença tenha sido disseminada através da ingestão de crustáceos, moluscos e peixes contaminados, nomeadamente a lula por ser o seu principal hospedeiro. A paciente internada e isolada, passa bem, apesar do tratamento à base de potentes antibióticos. Ao que tudo indica, o risco de uma pandemia parece não existir e o alerta vermelho foi acionado em todo o país. 

mongiardimsaraiva

1/07/2019

Mitos



quanta ingenuidade e apatia
quanta alegria sem serventia
nesse planalto desarborizado
enfeitado pobre e sem magia
quanto sorriso estampado e sem cor
um amor estarrecido e consignado
violado pela essência do não ter
povo que usa bandeira sem ter eira
na beira de uma praça sem saber
os mitos são exacerbados e trôpegos
exaltados pela matilha aventureira 
mas as ostras já estão apodrecidas
na água morna e suja de um viveiro
onde as pérolas são apenas ofuscantes
como o brilho de uma nova cegueira
oxalá o mito seja perene e se consagre
como orixá de um rico candomblé
venham séculos de magia e certeza
e os sóis voltem a brilhar nos paetês

mongiardimsaraiva




Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)