7/17/2022

Desinteressadamente

o desinteresse produz sonolência 

um desligar aos poucos que me entontece

que me puxa para uma zona de confluência 

como se a carne começasse a ser líquida 

e as veias vomitassem o suor de uma prece

o desmanchar das ideias é lento e sinuoso 

como um velho rio inerte entre montanhas amargas 

que lutam para se manter firmes e povoadas

ao ocaso pertence a minha súplica final

agonizante e bloqueada por miríades de estrelas

quero adormecer sem ter de recordá-las

como cardumes de prata que lutam na madrugada

sou apenas um músculo dentro de um só olho

vejo sombras que respiram em acordes finais

ouço o murmúrio das nuvens escuras e roucas

que gargalham ao longe e riem de mim

não quero desligar-me sem o consentimento da aurora

lutei muito com o tempo por esse mundo afora 

sou uma gárgula extasiada que regurgita o confim 

prefiro morrer do que ausentar-me aos poucos assim


Mongiardim Saraiva 

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