4/17/2014

ROMANTISMO

O romantismo é a arte da sedução.                          
Mantinha-nos o olhar e o beija-mão,
Às damas e aos lugares desejados.
Para onde terão ido sem se verem,
Um do outro moribundos padecerem
Em esquecimentos vivos e mortais?
A dança dos olhares não volta mais
E deixa-nos perpetuados nesse frio,
Como moribundos de um mar sem fim.
Triste destino que nos massacra assim,
Como pedras húmidas e frias ao tocar.
E se contentam num pesar leve e vazio,
Das coisas de um passado sem passar...

mongiardimsaraiva

4/11/2014

COVA RASA

A toda a hora se espreitam...                            
E espiam, com quem se deitam.
Dormem um sono leve, inseguro,
Dos profanos e do amor escuro.
Como uma caçada ao pobre nada,
Que se encolhe mudo de vergonha
E sente uma tristeza tal; medonha.
De servir a gente fútil, vil e cega,
Em falsas comunhões de entrega,
Que servem apenas como jargões;
Imaculados e acesos nos perdões.
Uma triste homilia sem sacerdote,
Celebrada numa cova rasa e altiva,
Onde jazem ossos da tristeza viva.

mongiardimsaraiva

4/10/2014

SEM EIRA NEM BEIRA

Há quem prefira nunca morrer                                          
E mendigar, sem eira nem beira.
A vida é traiçoeira sem o saber,
Como uma metade semi-inteira.
Por aqui passamos e moramos,
Em casas de vidro e de tijolo,
Onde trabalhamos e juntamos
Os restos de um grande bolo.
Tudo é capaz de desmoronar;
Servir de repasto às criaturas
Que se contentam sem parar,
Com as migalhas das agruras.

mongiardimsaraiva



NUVEM

Gigantes sobrevoam o céu,                      
Enrolados em puro algodão.
Seguram um expesso véu;
Engolem, sem pedir perdão.
O leito é do pó e da chuva
Que dormitam nessa cama,
Envolvidos por densa rama
Que esquece a água turva.
Tudo se curva e aguarda,
Na sua gloriosa passagem;
Destemida e em romagem,
Ao tempo breve que tarda.

mongiardimsaraiva

4/06/2014

O SOPRO DO VENTO

Há belas e inspiradas poesias,                              
Em que palavras riem e choram.
Participam de insanas orgias...
Levam-nos na casa onde moram.
Tudo num compasso de mágica,
Como um vento sem mau tempo.
Enviado para nos dar o alento,
Ao evitarmos a morte trágica...


mongiardimsaraiva

4/05/2014

AS TELHAS DO MEU TELHADO

Farei o que me der na telha                                
Nas telhas do meu telhado.
Talvez pinte de encarnado
Ou então da cor vermelha.
Nessa casa, sou um arteiro;
Na arte, sonharei primeiro...
Decorar as paredes brancas
Com quadros que vou pintar.
Sentir as doces lembranças,
Enquanto o coração deixar.
Em águas cristalinas ficar
E relembrar o lado de fora,
Antes de poder ir embora...
Ao chão ao teto e ao fogão,
Dedicarei a minha oração...

mongiardimsaraiva

4/04/2014

O NOSSO ESPAÇO SIDERAL

Incomensuravelmente além de nós...                                
Disperso numa unidade que nos espanta,
O espaço que nos cerca, engole-nos a voz
E projeta o seu ser no entoar de um mantra...
Um clarão de luz eterna, para além da chama.
Tudo é sagrado e perpetuado numa cadeia...
Velhos pedaços, são agora objetos com luz;
Energia que expande, contrai e nos conduz...
Um mar de possibilidades que brilham e apagam.
Dentro de nós, existe também um espaço assim;
Com rios, lagos de marfim e cascatas de saudade.
Os cisnes, deslizam nessas águas com majestade.
A intenção de todo o mar é alimentar e renovar...
E fazer-nos conduzir o nosso amar de verdade.

mongiardimsaraiva




3/30/2014

DECOMPOSIÇÃO

Escorreu sangue na madrugada.                  
A terra, ficou húmida e pisada.
Os restos, ainda eram visíveis;
Descarnados, crus, horríveis.
Hórrida podridão decomposta.
A sujidade que ficou exposta,
Lembra as batalhas e guerras.
Homens que roubaram terras,
Usando cânticos de adoração.
Uma procissão arrasta os fiéis,
Que não invocam gestos cruéis.
Pobres corações, pedem perdão;
Sorriem para as feras famintas,
Que aguardam a carne alheia
Numa funda cova, vil e cheia.
Existem deuses, cansados e vãos
Que degustam a doce compaixão
E a disputam vazia; sem noção.
Decomposição fatal, cruel e feia.

mongiardimsaraiva





3/29/2014

NADAR

Abra a sua concha,                                            
Deixe entrar o mar
E saia para nadar...
Como um cardume;
Sinta-se flutuar,
Nas ondas balançar.
Fique para sempre,
No doce costume
De esperar a maré;
Como ser do ventre,
Que lhe pertence
E transmite a fé...

mongiardimsaraiva

3/25/2014

RACHMANINOFF - CONCERTO Nº 2 PARA PIANO

As primeiras notas são arrepiantes...
O piano é um ser fluido e vibrante;
Profundo habitante de um mar de antes.
Orquestra louca e ofegante; vil amante...
Notas que fluem de um pássaro gigante
Ou de pequenas criaturas, sem face igual.
As carícias são do mel e do prazer fatal...
O giro nos absorve para dentro da lua,
Sentimos que nos sacode a carne nua.
A música, conduz-nos à base da cruz
E lembra-nos o Amor daquele Jesus...

mongiardimsaraiva

3/24/2014

A RODA QUADRADA

Os comportamentos catalogados...                                      
Obrigados a uma divisão profunda;
Engavetados, acesos e homologados,
Pertença de uma sociedade imunda.
Já nascemos preparados para seguir,
Aquilo que nos é imposto e observado.
Alegrias e tristezas, compõem a mesa.
Temos de degustá-las, sem surpresa;
Uma a uma e com um sorriso no rosto.
Sentimentos são ocultos e guardados.
O mundo não quer pessoas diferentes,
Que o afrontem e tratem como ausente.
Tudo tem de girar como a grande roda;
Perpétua e enferrujada por cada moda...

mongiardimsaraiva

3/22/2014

NATUREZA ESTÉTICA

Mais do que a beleza em si,                          
Procuro agora a estética,
Daquilo que por si só, ri...
Das graças e da vida aqui,
Ao expulsar a dor patética.
Um rosto leve e natural;
Um rio que arrasta o mal,
Carregado de fragmentos.
Sentimentos são levados
E trazidos na correnteza...
O movimento é a estética;
Não existe a beleza pura.
Mas sim a pura natureza,
Alteza e ética; candura...

mongiardimsaraiva




3/21/2014

O DESFLORAR DO MAR

Quando o mar entra na terra,                                          
A terra se abre, doce e franca.
Sucumbe aos encantos da espuma branca
E engole todo o seu sal, frágil e vital...

mongiardimsaraiva

PRIMAVERA


A Primavera chegou cansada e ofegante;                                    
Muitas águas passadas de luz e encanto,
Correram nos rios e por montes adiante...
Agora, deixem-na cobrir com o seu manto
A esperança dos Homens, aqui e doravante.
Que as flores e o sol lhe tragam o seu canto...

mongiardimsaraiva

3/20/2014

A ARTE

A arte está em toda a parte.                                  
Só depende do ponto de vista.
Não depende só de um artista,
Mas de uma luz a iluminar-te.
Se uma imagem te transcende
E um clarão estético te acende,
Podes sentir um nó na garganta;
Não percebes o que te encanta,
Mas estás tomado por uma arte.
Assim possa acontecer contigo,
Já que a vida é arte escondida.
Nos meandros do nosso abrigo,
A arte permanece adormecida
E à espera da nossa parte...

mongiardimsaraiva

3/19/2014

ENTRE O SONO E O SONHO

Olhos rasgados acompanhavam o meu sono...                  
Na noite tardia, ardia uma lua forte e clara.
Todos os seres da floresta, ali murmuravam.
Os lobos saciados, guardavam o seu dono...
Não havia vento e o relento, era peça rara;
Num pacto formado em que cigarras cantavam.
Podia-se sentir a vibração de um belo sonho;
A carga da natureza, estava na minha cara
E iluminava-me num sono, doce e risonho
Que não podia ser pela noite desmanchado.
Se a ténue brisa soprasse no meu sonho,
Os lobos deixariam de sentir uma forte lua...
Desmembrariam o meu corpo; fraco e mutilado,
Como se aquele momento fosse a verdade crua.

mongiardimsaraiva

3/18/2014

AMARGO CANTO

Não espero nada em troca...                              
Nenhuma recompensa oferecida.
A verdade, essa, por mim se desloca,
Como sangue em dádiva merecida...
Aqui deixo alguns pequenos versos;
Sementes na minha árvore mantida.
Que sirvam de alimento para as aves
E mantenham o seu inspirado canto.
Se por acaso, algumas cairem por terra,
Deixem-nas germinar e combater o pranto.
Nunca haverá pássaros se houver guerra...
Tudo se desconcerta numa triste espera,
Inútil e contínua; pesado e triste manto.

mongiardimsaraiva

3/16/2014

A PARTE DAS ESTRELAS

Ao fim e ao cabo, nada nos pertence. Tudo é parte das estrelas...

mongiardimsaraiva


POEMA SUSPENSO

Sonhei que o poema estava suspenso,                    
Numa nuvem branca do azul do céu...
Balançavam as letras no espaço denso,
Da grata inspiração; queria eu ser réu.
Ficar pendurado nos versos em escada;
Corpo e mente, expostos e ao léu...
Grandioso efeito, nessa madrugada;
A poesia tapando-me com o seu véu...
Fui beijado por uma bela e doce fada,
Ao esquecer a terra e as obrigações...
Para que revivesse intensas emoções,
Bastaria que não acordasse jamais;
Suspenso por letras e sonhos reais...

mongiardimsaraiva

3/15/2014

CRIAR

Se quiseres recuperar o ser humano, permite que ele seja criativo...

mongiardimsaraiva

                                                                       

Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)