11/20/2015

NOSTÁLGICA

Se não sentes em mim a nostalgia                
Não quero que me chames poesia
Escorro sentimentos desfigurados
Agarrados a pedaços de fantasia
Sou um fracasso com asas de ti
Nunca te contei como o aprendi
Um véu que encerra o teu rosto
Pedaços de mim aqui sem esforço
Para te dar suavemente o encosto
Amolecendo o teu rosto que não ri
Sou o teu lado nostálgico e trágico
Que te leva na correnteza do rio
Frio que não arrefece o teu canto
Que guarda no encanto o teu vazio

mongiardimsaraiva

SONHO PRECÁRIO

Tudo não passa de um sonho    
Sonhado numa terra precária
Pária do tempo e do lamento
Uma desgraça no céu risonho
Momento na certeza primária
No rosto medonho sem alento
Veem-se perfilados os dentes
Ausentes doentes sem espaço
Sem língua terem para lamber
Palavras sem a noção do viver
Comprometidas sós e sem laço
Escorrem por entre o que faço
Letras pobres do meu ego ser
Tarde me arrasto mudo e cego
Pela lama da terra que não vejo
Duro excremento do meu ensejo
Que crio em pranto sem saber

mongiardimsaraiva
 

 


11/06/2015

AGONIA

Estou dentro de mim                          
Fortificado inerte atento
Sou o meu lamento assim
Agonizante só sem sustento
Do meu ser sou delirante
Excremento sem cor e fim
Nesta sociedade ultrajante
O vazio mata-me o instante
Leva-me ao fundo do meu ser
Morrer sem me ver para crer
Pensar é cruel na dura ilusão
Nada passa pela minha mão
Prisão fria suja e sem grades
Enredos que não são verdades
Enterram o meu corpo no chão

mongiardimsaraiva

11/03/2015

O LAMENTO DAS GARÇAS





A voz vinha do reduto das garças e assemelhava-se a um lamento, baixo e rouco. Olhei e não vi os pássaros. Tinham desaparecido sem deixar rasto, apesar do hábito de se reunirem sempre ali para dormir.

Costumavam passar aos bandos, pairantes sobre a cidade e provenientes de várias direções e lugares. Eram maravilhosamente brancas e emprestavam ao nosso céu um véu branco e magnífico de penas e plumas, num movimento sincronizado digno da mãe natureza.

Já era tarde e começava a escurecer, o que dificultava reconhecer aquele local e a presença delas. Aproximei-me devagar e procurei a velha árvore de galhos secos e cinzentos que servia de abrigo às garças, que um dia a tinham adotado como morada. Era ali que descansavam e se sentiam protegidas e unidas por um ideal irracional de pássaros, num gesto solidário e espontâneo. Procurei avançar mais um pouco e esforcei-me em reconhecer melhor o local, apesar da escuridão. Aos poucos, fui notando que o matagal em volta tinha desaparecido e a terra estava agora escura e seca, dando a impressão de ter sido mal tratada e desapropriada. Reconheci aos poucos, um cheiro a folhas queimadas que parecia exalar das profundezas da terra. Agora, eu estava certo de uma coisa; algo muito grave tinha acontecido àquelas aves. O local não era mais o mesmo e o lamento que eu tinha ouvido, denunciava algo muito sério e trágico.

Quando me preparava para voltar para casa, escutei de novo aquela voz baixinha e grave. O som, fez-me dar mais alguns passos e quando tudo parecia árido e sombrio, consegui notar a presença de alguns pontos brancos espaçados naquela clareira, que agora refletia uma cor pálida. Eram dezenas de animais imóveis, cansados e em silêncio. Conformados, tristes, solitários e que apesar de reunidos ali não tinham mais a sua velha árvore para dormir. Procuravam descansar naquele chão, corroído pelo fogo.

Senti a dor lancinante do desrespeito à natureza e suas formas magníficas. Tive a nítida certeza que, aquele som de lamento que escutara há instantes, fora o murmurar da terra compadecida com o choro daquelas garças brancas que se preparavam agora para dormir sobre as cinzas da sua velha árvore.    

mongiardimsaraiva  

10/30/2015

O AMOR NA MINHA VOZ

Ouvi uma vez aquela voz                                  
Que sussurrava gemidos
Contida no aperto dos nós
Queria apertar-me a sós
Como albatroz sem asas
Pairar por cima das casas
Nadar em círculos na foz
Na água funda do meu rio
Arrastar-me sem piedade
Entre as pedras sem idade
Senti o algoz da dor atroz
Que aguarda sereno e frio
O doce amor na minha voz

mongiardimsaraiva

10/20/2015

DIA DO POETA

Poesias não são dias                                    
Acontecem em tudo
Como um beijo mudo
Que nos faz chorar
Ou nos deixam a sorrir
A todos querer abraçar
É vital sermos felizes
Sonhadores aprendizes
O mundo testemunhar
Sem teorias para achar
No amor vive a poesia
Que nos quer a viajar
Entre corações partidos
E nos sonhos perpetuar

mongiardimsaraiva




10/08/2015

UM POEMA REFUGIADO

Homens refugiados sem direção                                    
Caminham para fugir do medo
No degredo não têm a condição
Arrastam-se famílias dizimadas
Espezinhadas sem ter uma nação
Noção de angústia dor e covardia
Tarde se arrepia uma falsa moral
Sociedade que não ama por igual
Tudo é a hipocrisia das lágrimas
Que escorrem brandas e sem sal
Para chorar uma criança que morre
Faz-se uma reza e vendem-se jornais
De notícias cruas vagas e fatais
Que animam a humanidade canibal
A vergonha anda por aí distraída
Em francas orgias de dinheiro rival

mongiardimsaraiva

10/07/2015

OS VERSOS NA TUA BOCA

Não adianta imaginar-te                                  
Porque fluis sem me dizer
Não sou dono da tua magia
Quero amar-te sem te ter
O poema não tem rédeas
Cavalos galopam sem sela
Espuma branca e fala pouca
O arfar de uma corrida louca
Usa-me num dilema rarefeito
De amor consumado no peito
Vejo no teu sangue que jorra
Uma poesia sagrada e rouca
Sou prazer enquanto lambes
Os meus versos na tua boca

mongiardimsaraiva

9/23/2015

OLHOS NOS OLHOS

Vejo-me no espelho dos teus olhos                                  
Profundamente dispostos a receber-me
Sou aquela tua imagem que quer entrar
Estou pronto para brilhar e te agradar
Dizer-te o quanto demoraste em ter-me
Olhos vazios saudosos cheios de lágrimas
Quero levar-te para dentro e merecer-te
Sou o brilho que deixaste no nosso olhar
Que quase abandonaste por aí sem saber
Hoje quero que me recebas no teu amar
Em memória dos beijos que não demos
E da imagem que tardou em se formar

mongiardimsaraiva

9/21/2015

ALÉM DO BOJADOR

Não existe amor sem dor                                              
"É preciso passar o Bojador"
Sentir lágrimas e rancor
Lições que nos amem
E nos façam amar mais
Vidas provêm do desamor
Que nos leva mais além
É preciso crescer sem temer
Ser aprendiz no que se tem
As estrelas não são de ninguém
Mas são nossas aqui e além

mongiardimsaraiva

9/01/2015

NAS ASAS DE MORPHEUS

Sonhei que te arrastava nas entranhas                    
Num doce e suave mergulho sem medo
Pelas águas de um oceano sem degredo
Povoado por criaturas vivas e estranhas
Descíamos felizes sós e de mãos dadas
Por nada queríamos sofrer nessa morte
Sorte preparada por um leito de fadas
Abaixo no areal das conchas sem norte
Uma fenda brilhante insegura acenava
Boca febril que me lambeu e mastigou
Língua cúmplice cega e desconcertante
Como o tempo antigo sem lembranças
Não havia mais dor tristeza e saudade
Tudo era calma vigília luz e suavidade
Permanecemos abraçados sem a terra
Corpos fundidos e achados sem guerra
Luz do Amor que nos trouxe a vontade

mongiardimsaraiva





8/20/2015

SEM LEI NEM GREI

Ó povo embrutecido e sem escola,                        
Que sois mostrado ao mundo numa bola
E que teimais em ser rei, sem ter grei!
Enganais a quem, se não fizeres o bem?
Acordai desse choro vil e cru sem a lei!
Fazei o vosso ouro nesse rico namoro,
Com as coisas certas e com o decoro!
Tudo voltará a vós, com alma e glória,
Numa outra bola que rolará com arte.
Não ousais o vosso morrer sem o viver!
Parca nação rica de nenhuma parte;
Triste miséria de um povo sem o ser...  

mongiardimsaraiva

8/12/2015

MAR Á VISTA!

Sou refém da maresia                                  
Nas ondas navego por acaso
Viajo no tempo por cortesia
Marinheiro novo em solo raso
Ás águas dedico o meu amor
Em tons de azul e verde mar
Sou a nortada a meu favor
Que despe a roupa do meu par
Quando chegar a tempestade
Quero estar na gávea mais alta
Avistar a minha parte que falta
E aclamar com propriedade
Ó mar profundo e encantado
Sou escravo da tua majestade
Não quero gritar terra à vista
Ao mar lanço a minha saudade

mongiardimsaraiva





8/11/2015

NUVENS BRANCAS

Viajo pelas nuvens brancas              
Entro na bruma da memória
Sou história inacabada e só
Que paira no céu sem voz
Nas rotas largas e francas
Quando subo sou albatroz
Ao descer pareço uma águia
Feroz contumaz e sem dó
Ao sobrevoar a nossa terra
Sinto uma tontura dormente
Dos lapsos do amor sem paz
Isso mantém-me pairante
Distante ausente e além
Queria subir muito acima
Olhar o mundo todo branco
Descolorido como um mangue
Sem migalhas e restos de sangue

mongiardimsaraiva

 

8/05/2015

AUSÊNCIA

Estou ausente no meu presente              
Nos dias que tenho em mente
Sem coração e humanização
Onde os meus poros se fecham
Para não receber o pó e o frio
Arrepio que sinto até aos ossos
Os nossos filhos vagueiam por aí
Cansados de não saberem sonhar
Mecanizados sós e mergulhados
Na densa penumbra sem saudade
Quando o passado for esquecido
Restará um vasto e seco deserto
Semeado de carcaças sem idade
Onde as areias reinarão sem cor
Amor esquecido e aqui tão perto

mongiardimsaraiva

8/04/2015

SALVADOR DALÍ

Um olhar perdido e desencontrado                            
Esferas que se movem sem parar
Na ponta de um fino bigode eriçado
Criam-se metáforas loucas sem par
Dali emerge belo o efêmero salvador
Da nossa mesmice apática apodrecida
Haja loucuras sãs que nos sustentem
Na madrugada doce suave embevecida
Belas estrofes da beleza que nos livrem
Do fardo vil das mágoas sujas de guerra
Queremos uma trégua nessa noite escura
Que nos aperta dura e seca a nossa terra

mongiardimsaraiva

7/30/2015

PAS DE DEUX

Muita saudade                                                              
Da nossa dança
Dos dias sem idade
Dos beijos de esperança
Sou o teu pai com amor
Mesmo ausente e incolor
Abraço-te sem aí estar
Na idade da tua flor

mongiardimsaraiva
(para Maria Laura)

7/11/2015

LISBOA

Lisboa menina dos meus olhos                                                    
Sentada a olhar o berço do Tejo
Lágrimas que escorrem pela face
Sal e alface por entre as ameias
Luzes serenas no castelo de areia
Serás sempre a mais bela raínha
Dessa foz até às ondas do Bugio
Estarei contigo sem seres minha
Nessa saudade e no meu arrepio

mongiardimsaraiva

6/24/2015

O RUÍDO DO SILÊNCIO

Ouço ruídos no teu silêncio      
Uma voz que agora se cala
Sinto-te só na tristeza rala
Prostrada e caída num poço
Água suja densa e estagnada
Humedecendo a tua entrada
Criando musgos sem esboço
Paredes estéreis e sem nada
Sem permitir os raios de luz
Conduzem o sol à tua morada
Aquecem-te os pés numa cruz
Deixam-me sozinho sem fala
Morto sem a fé que me conduz

mongiardimsaraiva

6/15/2015

O CIÚME

O ciúme é capaz de nos cegar e contribuir decisivamente para apagar a luz do nosso precário discernimento...

mongiardimsaraiva


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Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)