11/25/2018

Noraney coice de mula



Era uma vez, num lugar distante em que as cobras desciam a pedra gigantesca para fumar o cachimbo da paz e as mulas procuravam avidamente por mais capim...
Havia nesses confins quem passasse o tempo a contar os pardais que pousavam freneticamente nos fios entre os postes da eletricidade e a observar as moscas que pousavam na mesa da cozinha à procura dos restos do almoço.
Nessa pasmaceira, vivia uma mulher de meia idade que aparentava ser daquelas que teimavam em não querer mostrar a idade; cabelo preto asa de corvo comprido e bem esticado, provavelmente pintado com uma tinta barata e de qualidade duvidosa.
Diziam que o seu gênio era terrível e que à mínima tensão repostava um arsenal de palavrões que fazia corar os mais tímidos e pacatos.
Conhecia-a por acaso, quando passei pelo local há muitos anos atrás. 
Lembro-me que avistei ao longe uma pequena casinha de madeira com um ar pitoresco e convidativo. Havia perto da casa um pequeno grupo de crianças que brincavam alegremente e, por momentos, associei-os àquela paisagem atraente e bucólica. Quando me aproximei, notei que todos me encararam com um ar apreensivo e espantado. Perguntei-lhes se moravam ali por perto e se conheciam bem aquele lugar. Olharam uns para os outros e o mais velho adiantou-se gaguejando. Disse-me num tom quase secreto que ali, naquele lugar, ninguém era bem vindo e que a casinha era habitada por uma mulher muito perigosa. Diziam que era a encarnação de uma velha mula que por ali tinha vivido. 
Era uma burra que tinha pertencido a um fazendeiro e que fora vendida a um mercador rico que tinha passado por aquelas terras. A mula era muito apegada ao seu primeiro dono e nunca mais conseguiu demonstrar afeto e submissão por ninguém. Diziam que, por isso, o mercador foi obrigado a desenvencilhar-se dela. Na primeira oportunidade que teve, ofereceu-a a uma das suas amantes que prometeu estimá-la. Assim, essa mulher criou a mula até morrer, apesar da dificuldade em lidar com o animal. Essa mulher tinha uma filha que, diz a lenda, nunca gostou do bicho e que fez tudo para que a burra desaparecesse sem deixar rasto. Quando a mula morreu e para disfarçar, a moça, com remorsos, perguntou ao padre da aldeia se podia enterrar o animal no cemitério da igreja. E assim foi. Sem o animal, a vida daquela menina teria tudo para se tornar mais alegre e promissora. No entanto, a personalidade daquela mulher começou a apresentar sinais preocupantes de um certo nervosismo, o que deixou a população do lugar bastante preocupada. Diziam que ao menor sinal de aproximação e intimidade  manifestado pelos vizinhos, a mulher abria as goelas e arrotava um rol imenso de pesados impropérios, como se por momentos fosse tomada pelo espírito da sua velha mula. 
Aquela criança que me contava essa história tinha um ar sério e jamais me passou pela cabeça duvidar das suas palavras que pareciam jorrar da sua boca como verdades insofismáveis. Nesse momento, um dos outros rapazes que aparentava um certo desinteresse por tudo aquilo, olhou bem nos meus olhos e perguntou de repente: - Você nunca ouviu falar na Noraney coice de mula?!!! 

mongiardimsaraiva

11/01/2018

Execução

transito no vácuo da incerteza                                     
não sei o que pense ou o que escreva
sou apenas um olho que observa
uma cabeça só sem ter escolha
persinto tristezas na escuridão
e alegrias claras sem noção
não sei se isso é bom ou não
mas de uma coisa tenho a certeza
a minha estranheza é certeira
como a alça de uma carabina
apontada à minha caveira
sinto a cegueira num calafrio
sei que não tenho a menor escolha
sou apenas uma não solução
que em solo raso respira a poeira
canto triste a morte desse rio
e preparo-me para a execução

mongiardimsaraiva






10/10/2018

Incerteza

o amor é feito de incertezas                                     
como num passeio à beira mar
em que os salpicos nos refrescam
as conchas sorriem só para nós
e os barcos nos saúdam ao longe
com o som grave das suas sirenes
apesar de estarmos ali de passagem
a brisa traz-nos o cheiro da maresia
e o amor que sentimos é como o sol
ávido por nos possuir nas estrelas
incertamente sonhamos com a lua
e trazemos para nós o doce balançar
de uma gôndola em águas paradas
queremos uma certeza acabada
mas não possuímos nunca esse amor
que escorre só por entre as pedras
entramos na água quase em segredo
mergulhamos nas ondas sagradas
e nadamos rápido para muito longe
correnteza da incerteza que nos leva
para dentro do mantra de um monge
que um dia abdicou da sua riqueza
e pôde ver alguma certeza ao longe


mongiardimsaraiva







10/05/2018

A serpente

Cristas de fogo descem pela mata                               
Como serpentes ardentes e alvoroçadas.
Há um rasto que se apaga inocente;
Mais vidas têm de morrer queimadas
Ou abandonar depressa a inocência
Comovente e urgente de quem sente.
Os animais e as plantas sem ter nada,
Apavorados e famintos sem saber;
A fugir no desespero de não morrer.
Aos homens foi tirada mais uma casa,
Embora não sintam que estão sós...
Sacudidos pelo calor que derrete,
Não têm os olhos virados para a serra;
Só para as guerras dos seus avós...
Não se lembram do verde das folhas.
Não percebem que a água secou por ali.
São apenas escravos do poder de ter,
Do agora que emite gritos e gemidos...
Quando um dia acordarem aflitos,
Talvez os seus filhos já estejam mortos,
Ou não vivam nem sequer para chorar.
Aos deuses sacrificados da floresta
Resta apenas tentar num outro local.
Partir para terras com menos mal
E afagar a alma de quem não sobreviveu.
A montanha segurou todas as suas cobras,
Mas a última serpente, essa morreu...

mongiardimsaraiva

9/23/2018


O murmúrio das pedras

                                                      Nesta era dos clamores febris                                                        
Do mundo suicida e das vidas que restam,
Vale a pena mergulhar no murmúrio das pedras... 
Escutar maravilhas no gargalhar do silêncio. 
Medir o som que exala da terra em cânticos de perdão. 
Saborear o deslizar das águas cada vez mais gentis
Que teimam em lavar os nossos corpos que sofrem.
Somos cada vez mais um bando de trogloditas,
Hermafroditas no desejo de profanar a tudo e a todos. 
Hipócritas que rezam, choram, riem e se matam.
O parco pó que nos segura não vai durar para sempre...
Alegrias sem sentido não purificam o nosso coração.
Ainda estamos a tempo de renunciar à dura eutanásia.
Podemos ainda segurar o nosso corpo que estremece.
Dá tempo de cavalgar as colinas dos nossos sonhos.
A altivez da morte é uma ameaça que nos enfraquece, 
Cavaleiro negro que nos observa para lá do infinito...
A vida é muito mais do que uma fogueira de vaidades.
A cova que nos vai engolir é feita dos restos da humanidade.
Ainda há tempo para degustar o sol, a chuva e as cascatas. 
Acordar ao som dos pássaros e no sibilar das matas.
Renunciar,  com alegria,  àquilo que não foi feito para nós.
Achar um outro horizonte aprazível, mais digno e justo.
Semear o nosso chão com ossadas antigas e eloquentes. 
Pertencer a essa terra de ninguém que nos quer bem... 

mongiardimsaraiva




8/23/2018

Uma volta pela trilha

mais uma corrida pela trilha                                             
maravilha que trago comigo em vida
um percurso ritmado e justo
entre um arbusto e a estrada comprida
e as pessoas estão lá obedecidas
ora gordas ora magras ou compridas
cruzo primeiro com o diapasão
que me cumprimenta estridente
vibrante e operante com um báuumm
que estremece o meu tímido compasso
passa por mim como um abraço
e deixa um rasto doce de pudim
passo agora pela curva apertada
quase esbarro numa coruja cismada
que me olha de uma estaca junto a mim
vejo ao longe o vulto da lambisgoia
estilosa e ondulante como uma cobra
que arrasta o marido quase à guia
um pequeno cachorrinho de olhar azul
sereno e obediente como um poodle
passa e ultrapassa o companheiro
parece às vezes pedir-lhe dinheiro
confesso que tenho medo de gente assim
se não fosse o Antônio das Mortes
ter aparecido no meio da bruma
e ter-me dado a extrema unção
gesto da sua mão expugnando o pecado
como um bispo sinistro da inquisição
estaria mais ofegante e petrificado
estou agora perto da meia-volta
não fosse um cavalo que vem direito a mim
por vezes sou cego quando olho para o nada
e esqueço de prever aquela estrada
onde me encanto ao ver coisas assim
já na volta encontro uma cobra
obra brilhante de Deus em tons de coral
quero que ela nunca me faça mal
são do vento as minhas passadas de brisa
entro no meu avião e dou a partida
quero tudo menos perder a minha vida
sou apenas um corredor só e mortal
já consigo ver a linha de chegada
ainda ao longe distante e escurecida
passam bicicletas ruidosas e bregas
um rádio e uma música sem melodia
um cachorrinho quer atrapalhar os meus passos
são horas de acelerar e voar em direção à meta
a noite é já uma certeza certa
e amanhã será apenas mais um dia

mongiardimsaraiva





7/27/2018

Entre Telas e Telinhas: o Comportamento da Sociedade no Uso do Celular




"Poderíamos pensar a Internet como uma enorme célula que se alimenta, expande e transforma continuamente, multiplicando incessantemente o seu poder de alcance e disseminação. Como um grande cérebro que constrói as suas sinapses e cadeias, de uma forma prodigiosa e precisa. Magnífica e tentadora, como uma bela mulher insinuante e cheia de predicados. Perigosa e reservada, como aqueles que não se mostram totalmente. Intensa, magnífica e exuberante nos seus propósitos de grande dama. Sempre na moda, usando uma maquilhagem reluzente ou sóbria, de acordo com os momentos ou situações. Exigente, ciumenta e possessiva para todos aqueles que não lhe dão a devida atenção ou manifestam o seu interesse. Uma poderosa máquina agregadora, que exige a presença de todos, sem exceção. Navegar pela Internet é poder cruzar, quase instantaneamente todos os oceanos ao mesmo tempo. Uma verdadeira odisseia fantástica e inconcebível, quase capaz de suplantar as velhas e ilustres caravelas do nosso passado remoto e glorioso". (MONGIARDIMSARAIVA, Recanto das Letras, Internet, p.1)
O celular é a principal ferramenta responsável pelo acesso facilitado a essa poderosa máquina viciante e exigente. Durante todo o dia não somos mais capazes de deixá-lo de lado e muito menos esquecê-lo. É através dele que nos conectamos uns aos outros e com o mundo. Conseguimos saber coisas mirabolantes sobre a vida dos outros e informamos, através dele, muitas coisas que acontecem conosco. 
Com isso, gera-se uma dependência dificílima de eliminar, já que o nosso cérebro habitua-se a receber notícias constantemente e com isso, passa também a procurá-las avidamente. Funciona como se nós nos alimentássemos alienadamente e sem parar de um imenso jornal coletivo do cotidiano, do qual fazemos parte.
Estudos realizados, apontam que esses dispositivos eletrônicos agem como uma espécie de pacotinhos de prazer, através das novidades que são endereçadas ao nosso cérebro. A dopamina, substância estimulante que é produzida, encarrega-se de gerar uma sensação de satisfação que faz com que fiquemos subjugados a essa rotina. 
E assim, algumas pessoas tornam-se dependentes, a ponto de brigar para não perder oportunidades de conexão ou aparelhos que trazem um bem estar efêmero, precioso e inadiável. Ou em outras situações, tomando atitudes verdadeiramente inusitadas por extravio dessas máquinas gerando até, nalguns casos, a perda de voos agendados e/ou compromissos inadiáveis.
Em algumas situações, segundo estudos efetuados por psicólogos, o aparelho celular pode funcionar como uma espécie de alívio ou terapia para aquelas pessoas que sofrem de ansiedade, já que é suposto perceber que quem se vicia já traz consigo algum tipo de problema... 
No caso dos adolescentes, o comportamento é especialmente preocupante, visto que eles adquirem hábitos que arrastarão para a fase adulta. Segundo pesquisas, 15% acabam por ler menos livros, em virtude do tempo que gastam ao estar conectados. A maioria dos adolescentes reconhece que está viciada. Por razões biológicas, esses jovens têm menos controle sobre os seus impulsos e por isso, maior dificuldade para dosar o uso dos seus aparelhos. Como o desenvolvimento cerebral é processado por etapas, acontece que a última região a maturar é o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, o que deixa o adolescente ainda mais à mercê do hábito viciante.
Para além dos aspetos negativos e perigosos, é justo também referir algumas vantagens relevantes e objetivas. Os celulares possuem o poder de nos conectar a um mundo que está ativo 24 horas por dia, o que por si só já é um fator de enorme sucesso. Eles contribuem também para dissolver alguns problemas emocionais graves do ser humano, como a solidão. O smartphone tornou-se uma espécie de espaço individual aconchegante. Ele funciona na zona de conforto, principalmente para aquelas pessoas que vivem nas grandes metrópoles. O seu potencial é enorme quando se trata de estabelecer e alimentar relacionamentos, mesmo que seja através da frieza e artificialidade da sua rede e estrutura. 
Diante de toda essa realidade, é lícito perguntar qual será o futuro da humanidade que parece cada vez mais não abrir mão de um estilo de vida compartilhado, atraente e prático, mas que ao mesmo tempo parece comprometer profundamente a sua capacidade de criar laços naturais, profundos e duráveis. Inclusivamente quando a célula familiar, tão importante para a manutenção da espécie, parece dar graves sinais de fragilidade e balança por falta de capacitação e aproximação entre os elementos que a compõem.
É habitual, nestes casos, apelar-se para o bom senso, como último reduto para uma saída razoável e sustentável. Mas será que não é um pouco tarde?

mongiardimsaraiva

7/12/2018

Otorrinolaringologia



Cheguei cedo. O acesso à sala de espera manteve-nos de pé, junto à porta da entrada. Era um prédio daqueles com muitas salas de atendimento comercial e as pessoas circulavam impacientes por todos os lados. Os elevadores eram todos fechados e em aço, onde cabiam umas oito ou dez pessoas bem espremidas. Junto à porta de entrada, no piso térreo, havia um porteiro que ordenava o fluxo destinado aos vários pisos. 
Finalmente, alguém abriu aquela porta de vidro que nos possibilitou o acesso à sala de espera. Uma mulher de meia idade com uma expressão séria e pesada deu-nos um "bom dia", num tom arrastado e grave. Quando ela passou por detrás de um pequeno balcão e se sentou, percebemos tratar-se da secretária. Não parecia muito comunicativa e dava a sensação que cumpria mais um enfadonho período da sua rotina diária. De pele e olhos claros, fez-me lembrar uma matriarca alemã, com o seu ar formal, rigoroso e severo. 
Fomos os primeiros a entrar, juntamente com uma mulher muito magra e mais nova que nos lançou um sorriso de resignação e cumplicidade. Passado pouco tempo chegaram mais três pessoas; uma senhora idosa muito cansada e um senhor de meia idade que acompanhava a filha, uma adolescente que aparentava ter uns treze ou quatorze anos. Embora tenhamos chegado primeiro, não fomos logo atendidos. 
Já passava bem das quatorze horas quando entrou na sala um homem muito baixo que trajava uma roupa simples e enxovalhada. Aparentava ter mais de setenta anos e a sua expressão não deixava nada a desmerecer ao semblante da secretária. O rosto fechado e seco não transmitia nenhuma simpatia, o que fez com que não emitisse qualquer som à chegada. Apenas um "boa tarde" entre dentes, emitido em tom de favor. Percebemos tratar-se do médico, apenas porque se dirigiu com a sua chave a uma outra porta em vidro de comunicação com o consultório. Quando a porta voltou a se fechar, a senhora de idade que estava ao nosso lado perguntou: - Esse médico é bom?! Olhei para ela, para a minha amiga e respondi apenas com um sorriso. Como não fomos os primeiros a ser atendidos, tivemos que esperar mais uma meia hora. O ambiente da sala estava calmo e o som baixinho de uma pequena televisão suspensa transmitia uma certa atmosfera de paz, apesar de tudo.
Quando aquela segunda porta de vidro se abriu de repente, a figura de um homem baixo e empertigado anunciou numa voz metálica e estridente o nome da minha amiga, de uma forma soletrada, cadenciada e extensa como uma máquina que reproduz a sua gravação. A expressão do médico era agora a de um pequeno comandante no uso pleno das suas credenciais e direitos. Não era mais aquele homem triste e apagado que tinha passado por nós. Reparei no seu pequeno bigode escuro, quadrado e bem delineado que imediatamente apelou para a minha memória sensível e fotográfica. Sim, eu já tinha visto aquele rosto, ou pelo menos, um rosto muito parecido com aquele. O tom, o gesto e a expressão condiziam nitidamente com os parâmetros que me transmitiam aquela sensação nítida de semelhança. Procurei a minha amiga, numa rápida troca de olhares. Não havia a menor dúvida. Por obra de um acaso inimaginável e transcendente, tinha a sensação de ter sido transportado para uma Alemanha em guerra dos anos 40, onde a presença daquele casal parecia representar uma encenação quase real de Adolf Hitler e a sua secretária. O olhar de espanto da minha amiga traduzia bem essa sensação estranha de realidade fantasmagórica. Era inacreditável. Apesar de tudo, levantamo-nos e seguimos aquele homem.
O consultório era pequeno e bem arrumado onde os objetos pareciam encaixar-se rigorosamente. Havia duas poltronas vazias defronte de uma secretária escura de linhas modernas e bem apetrechada com dois notebook. Sentamo-nos lado a lado e aguardamos a presença do nosso anfitrião. Quando tentávamos trocar algumas palavras sobre aquele impactante momento, reparamos que o nosso homem já tinha assumido o seu lugar de comando bem à nossa frente. Aguardava-nos, com um olhar intenso e inquisidor. Fez-se silêncio. - Senhora Maria, tal, tal, profissão tal, moradora em tal, cidade de tal... A minha amiga pronunciava as palavras e seguia-o com um olhar arregalado de surpresa total, limitando-se a confirmar os seus dados. - Bom, e qual é a história que a senhora tem para nos contar? Nesse momento, e talvez apelando para a minha fértil imaginação, eu não pude deixar de recordar aqueles relatos do holocausto em que os médicos nazistas fizeram experiências terríveis com judeus, em nome da purificação da raça. - Vamos observar, disse o médico. - Sente-se naquela cadeira! A minha amiga levantou-se lentamente e eu permaneci estático, entregue ao meu pensamento. Aquilo parecia muito real, mas talvez fosse só uma forte sugestão. - O senhor, venha aqui! Olhei para trás, afastei a cadeira e levantei-me rapidamente. - Coloque-se aqui atrás de mim! Assim fiz e aguardei. - Vê essas duas manchas brancas no fundo da boca, perto dos dois molares? Fiz que sim com a cabeça e ele desligou rapidamente a lanterna. Voltamos os três para a mesa do consultório.  Olhou para nós e fez uma curta pausa. - Vamos ali numa outra sala! - Abra a boca! E pingou algumas gotas que pareciam ser de anestésico. Acompanhei-os e observei que o médico empunhava um instrumento comprido em forma de sonda, com uma luz na ponta. Naquele momento, mais nítidas se aguçaram em mim as imagens do nazismo, ao associar aquele instrumento e aquele homem a um cenário de tortura. - Abra a boca! Não dói! E enfiou aquilo pela boca abaixo da minha amiga. Logo, através de um monitor, começaram a aparecer as imagens de um percurso inusitado de cavidades e protuberâncias rosadas. - Não tem nada! Voltamos para o consultório. E começou a preparar a sua receita. - Não tem nada grave! - É ansiedade! - Estresse! - Vou receitar apenas alguns medicamentos que penso irão resolver o problema! E olhou bem nos olhos da minha amiga para dizer: - E não fique nesse nhãnhãnhã de mastigação que vai ser pior, ouviu? - Tem de aprender a controlar-se! E apontava agora com o dedo indicador para a sua cabeça. Para ajudar, deverá fazer vários gargarejos com Mylanta Plus, assim!!! E num gesto muito rápido puxou a cadeira para trás e simulou o gargarejo através de um som de glóglóglógló, muito alto, que mais parecia uma sirene de aviso de ataque aéreo... E logo a seguir exemplificou o bochecho; blublublublu, corpo para a frente, olhando fixamente a minha amiga nos olhos e movimentando as suas bochechas para cima e para baixo, sem parar. Era impossível não rir perante aquela cena alucinante de um quase Hitler já na sua fase decadente... Enfim, aquele final servira para aliviar um pouco toda a tensão daqueles momentos, patéticos e surreais. Agora, eu e a minha amiga ríamos sem temor daquele homem engraçado e sem graça que nos olhava ainda sério, como se não pudesse rir. - Muito obrigado, doutor!

mongiardimsaraiva

7/08/2018

Por cima das ondas





um olhar sobre as ondas
por cima das cristas do mar
salpicos que brilham ao luar
como peixes feitos em prata
no refluxo das minhas entranhas
sacudo as margens do meu ser
sou náufrago sem o saber
e balanço numa escuna só
perdido no meu pouco tempo
tento desatar o aperto dos nós
lanço meus prantos em tons de cinza
e seguro o meu olhar a esse cais
vou embarcar na luz de uma imagem
escutar o som do eco da miragem
e perpetuar-me no voo de uma gaivota
sou agora mais do que uma onda
sou do mar um amigo que se esvai
em sangue que lambe as feridas
na saudade dissolvo as partidas
e morro pelo amor que não sai

mongiardimsaraiva

6/27/2018

MADRUGADA ABENÇOADA





Encontro-me há tanto tempo aqui na minha rede que acabei por observar o Cruzeiro do Sul. Vi também nascer duas estrelas muito brilhantes depois dele, que subiram apáticas e reluzentes no escuro firmamento. Sou um analfabeto morador de rua que olha para as estrelas e segue a sua navegação, sem saber os seus nomes. Vigio-as a partir do meu "imóvel" sem móveis. 
Sou um homem solitário, mas não sou triste. A noite ainda é uma criança para aqueles que como eu só as têm como companheiras. O tempo avança rapidamente e deixa-me numa posição ingrata e sem saída. Quando não sinto junto a mim a presença do mar, sou um ser perdido e lançado nos braços do vento.
Por obra do acaso, estou aqui nesta noite estrelada, serena e acompanho com paciência a presença de um cometa e o seu rastro que percorrem uma imensidão como se fosse um feixe de luz da minha pequena lanterna. Se o João me telefonar, digo-lhe que não há nada de novo. Logo, mais adiante, terei o nascimento da minha Lua, criatura doce e indecifrável. É por causa dela que ainda me encontro acordado. Sinto muito sono e pressinto que, a qualquer momento, posso adormecer na minha rede.
Foi Deus que me colocou aqui ao dar-me este presente. Vou riscar um fósforo para poder me manter acordado mais um pouco e iluminar todo o espaço em volta. Olho no meu relógio e sinto uma certa inquietação. Ainda faltam dezoito minutos para o nascimento da minha Lua. Respiro aliviado e procuro alinhar o meu corpo numa posição mais confortável. Não posso perder esse espetáculo da Natureza. Afinal, não é todos os dias que um morador de rua é abençoado pelas estrelas.
Agora, posso até pensar na ideia de dormir mais tarde por aqui, numa casa feita de vidro e sem telhado. Adormecer impávido, sereno e quase feliz. Poder sorrir, esquecer e sonhar como uma criatura de Deus.

Nota: Este texto é uma releitura da crônica "O Fiscal da Noite" de Rubem Braga, numa perspectiva imaginária em que o narrador é um morador de rua...

mongiardimsaraiva





5/21/2018

CAÇADOR DE MIM

só vejo letras e borboletas                                             
tudo o resto eu quis esquecer
por isso não quero mais ver
só lembrar que não quero ser
sou o canto do rio que passa
montanha escura sem gemer
quero ser o tempo com graça
escutar no eco o meu viver
às asas atribuo a minha raça
ao voo a minha ronda final
desnudo-me entre sois e luas
aqueço-me no colo da brisa
e adormeço essas tristezas
estarrecido sou o compasso
das músicas sós da floresta
aquilo que sou é das estrelas
encantado no meu espaço
resisto a essa loucura assim
sou borboleta e sou regaço
sou um caçador de mim

mongiardimsaraiva





5/19/2018

AO MAR OFEREÇO A MINHA CURA!

Atraído pelo som do mar,                                                         
Entrei no segredo de uma concha,
Como um náufrago encorajado
Que avista terra junto ao céu.
Ao deslizar pela espiral sem fim,
Onde os sons eram ecos de mim,
Às cambalhotas, rodopiei subjugado,
Sugado e amparado pelas delícias.
Estava mais perto de ser coroado;
Sentir graça no mergulho e nas carícias.
Estava leve como uma pluma certeira
E viajava na garupa do meu alazão;
Cheio de vontade era brisa e era chão.
Por entre lugares e frestas sem beira,
Aproximei-me mais do som da água.
Ouvia gritos e clamores no oceano,
Soberano, no fim dos meus confins.
Senti sede, angústia e pura magia;
Vi a água límpida naquela bacia
De lágrimas e castelos de areia.
Agora sabia que não era o primeiro...
Criaturas que flutuavam embriagadas;
Gritavam o mar e riam extasiadas.
Preparei o corpo para o mergulho;
Cerrei os dentes e atirei-me num pulo.
Agora, era água e encanto.
Aos deuses oferecia a minha carne.
Era ágil como um peixe que voa;
Que buscava leve o sair das redes...
Estava no limiar da minha loucura;
Ao mar ofereci a minha cura!

mongiardimsaraiva













5/03/2018

OS POROS DO TEU SAL

sou uma relíquia inacabada                                     
aos deuses devo a vida e a glória
sou um peregrino nessa estoica jornada
um marco antigo na nossa história

ao eterno lanço a minha proa
caravela livre em mar agitado
sou nas ondas um peixe que voa
às marés confio todo o meu fado

quero esfumar-me nesse horizonte
como nuvem branca sem juízo
pertencer ao céu atrás de um monte
chegar fácil sem nenhum aviso

quando suspirar o pranto final
estarei nos teus braços meu amor
como teu servo de valor sem igual
em teu colo remarei contra a dor

serei mar nos poros do teu sal


mongiardimsaraiva

4/28/2018

LETRAS ENTRELAÇADAS

Vejo-te à procura de uma palavra,                                           
Letra que caíste no meu arado.
De sementes, sou feito para ti...
Respiro no meio de um tornado;
Sou pulmão que enche encantado,
Em delírios repito o que senti.
Ouço ecos nos sons sem razão.
Estou disposto a ser o teu tema,
Lema que nos liberte da dor.
Oferendas enviarei ao teu senhor,
Em cavalos brancos e com asas
Sobre as nuvens do nosso amor.
Sou arauto nessas tuas casas,
Mensageiro do deus da palavra,
Em rimas de doce encantamento.
Hoje, começa mais uma história,
Em letras e signos entrelaçados.
Tu e eu completamente abraçados,
Nessa loucura da nossa glória...

mongiardimsaraiva
   
 

4/21/2018

CAOS

Continuamente...                                                 
Apáticos...
Omitimos...(a)
Salvação...
Contrariamente...
Àquilo...(que é)
Observado...
Sempre...(e)
Certeiramente...(por)
Aqueles...(que)
Ousam...
Ser.

mongiardimsaraiva

4/13/2018

ANESTESIA GERAL

sinto essa gente anestesiada                                       
complacente submissa desmotivada
cada um fechado na sua concha
no seu sarcófago dentro da jaula
alienados por notícias desvairadas
de morte corrupção e incerteza
apáticos resignados e adormecidos
seguem conformados o enterro
sorriem apenas e contam piadas
como se o presente não fosse nada
somente mais uma notícia de guerra
matar morrer e sofrer não os sacode
dá-lhes apenas essa vontade de pisar
nas cabeças que jazem por terra
a sociedade é um riacho podre
onde os corpos incham e estouram
em tiros de fuzil como foguetes
rolos compressores anestesiam a dor
numa rotina de sangue e aceitação
o que será do sono do desamor
quando passar o efeito da droga
talvez estejamos todos mortos
em campos minados de corpos

mongiardimsaraiva





4/12/2018

RESET

ah quem me dera reinicializar                                 
como nas sequências perdidas 
apagar traços sem traçar o mal
eliminar vestígios sem deixar rasto
pensar numa página em branco
imaginar doces sonatas ao luar 
ouvir só os conselhos do mar
repovoar caminhos com maneiras
e hastear bandeiras sem pranto
possuir meus amores com encanto
construir um manto de ideias
morar dentro de uma pedra rolante
sem a intenção de morrer e matar
apenas cantarolar rir e escorregar
por entre vales rios e veredas
para atrair muitas outras pedras
formar montanhas de terras
e nunca mais ser só um programa
apenas vida simples e sem tramas
um grão de areia por sedimentar

mongiardimsaraiva

 




3/23/2018

O MEU INFINITO

somente o infinito para me guiar                                 
sem margens paragens e descompassos
um caminho sem estradas para cruzar
nos abraços que teimei em não dar
nos beijos que transformei em laços
certezas que ficaram para me guiar
tudo se esvaiu por essa terra solta
sinto que os poros se fecharam
nada mais me faz lembrar de mim
sou apenas poeira decantada pelo ar
restos desse ser dão-me a última voz
num sibilar rente às nuvens brancas
infinitamente nutrido e só esvoaço 
parcas partículas agregadas ao pó
não consigo mais olhar para trás
sinto-me suspirar infinito e incerto
é tarde para não querer voar
sou agora o mito da minha natureza
pertenço às regiões desabitadas
onde os abismos acolhem os deuses
peregrino de toda uma fé tamanha
vejo água e luz por toda a parte
por cima do sol nessa montanha

mongiardimsaraiva

3/05/2018

A HISTÓRIA DE UM CABELO

O cabelo perdeu a cabeça                                                       
E voou pela janela da sala.
Subiu muito como uma bala
E avistou uma nuvem espessa.
Estava livre dos outros cabelos.
Queria ficar para sempre no ar,
Longe de uma vida amarrada,
Complicada e penteada
Sem se preocupar em ser belo.
Dentro da nuvem ele podia sorrir,
Ondular-se e espreguiçar-se.
Dançar ao som do vento,
Apesar de ninguém o ver.
Nunca tinha pensado em voar.
Deixara de ser um fio de cabelo
E ganhara asas descabeladas,
Puras e sedosas de encantar.
Mas de repente sentiu um vazio;
A nuvem já não estava mais lá.
Tinha voado para outra dimensão
E ele não tinha dado por isso.
Conseguiu mesmo assim flutuar,
Ao pairar por algum tempo devagar. 
Mas apesar de ter asas, começou a descer.
Por baixo do seu corpo só tinha o mar,
Mar azul salpicado de espuma branca.
Nessa imensidão não podia entrar...
Onde estavam os outros para o ajudar?
Não havia mais cabelos para vislumbrar.
Tudo parecia ter de acabar por ali.
Quando sentiu o frio das águas, soluçou.
A sua vida estava prestes a morrer.
Só um milagre poderia salvá-lo,
Como naquele dia em que voou.
Mas não tinha mais a sua cabeça.
Era preciso chamar logo o vento
Que o escutou e veio de rajada.
Sentiu-se rodopiar no nada
E começou a subir muito veloz,
Como uma pluma sem distância.
Estava na sela de um tornado,
Agradecido aos deuses desse ar.
Era de novo um lindo cabelo,
Envolto em fúrias para amar.
Subiu para nunca mais descer,
Aninhado no seu algodão branco,
Como um anjo predestinado
Que quis escapar ao pecado,
Em voo seguro para nascer...

mongiardimsaraiva




2/15/2018

O HERÓI SEM CARÁTER

"Ai que preguiça!"                                                               
Disse o herói sem caráter...
Macunaíma acabara de nascer,
Confinado à sua selva de morrer.
Mil vezes não saber, que ver aquilo
Que nunca pediu para ser.
Hoje, Macunaíma ainda existe...
E agora, só lhe resta ser tranquilo.
Tranquilo demais para ser um herói.
Envolto em auras imaginárias,
E longe da batalha em que nasceu,
O herói não encontra mais o gigante.
Nem o talismã para virar a sua sorte.
De tudo, foi apenas um amante...
Macunaíma está perto da morte,
Na realidade que sempre escondeu.
Os dias não são mais de alegria.
Macunaíma perdeu a graça!
O nosso herói multiplicou-se.
São milhares de pequenos heróis
Pretos, pardos e brancos...
A esperança dissipou-se.
Macunaíma sobrevive
Fatalmente indignado,
Apesar da sua ingenuidade;
"Ai que preguiça!"                                                   

mongiardimsaraiva



 

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