2/06/2019

O pastor















sou o silêncio de um pastor
guardo o meu rebanho atrás do monte
uso em liberdade as minhas cores
penso nas estrelas sem ter ciência
apenas cuido dos meus amores
observo o céu sem metafísica
basto-me no regalo do vento
sou pássaro pousado em vida
água que escorre do meu lamento
quando avisto as outras terras
marco as ovelhas na memória
e ouço o eco do seu balir
no sol escrevo outra história
conto os passos que hão-de vir
os meus cães são como gente
levam e trazem o meu rebanho
são anjos que me seguem de perto
abrem o caminho que vem a seguir
quero deixar para as estrelas
uma janela sempre aberta
por essa imensidão distante
quero sempre poder vê-las
em volta do meu rebanho
de uma forma delirante

mongiardimsaraiva












2/05/2019

Epitáfio
























em um lapso tudo termina
no estalo vazio que te leva
nas garras perpétuas do não ser
serpente que se enrosca quente
no teu pescoço frio e dormente
aproveita cada abraço sagrado
cada beijo oferecido ao teu corpo
cada criatura que te faz sonhar
logo estarás numa rua deserta
seguindo apenas os teus passos
não deixes que a magia se esvaia
por entre os teus dedos de pedra
e caia no chão sangrento das feras
reluz a cada raio de luz enviado
e não te esqueças de nós
também somos feitos de ti
quando fores embora
leva a tua saudade
e não batas a porta
perdoa-nos a maldade
ainda estamos por aqui

mongiardimsaraiva

2/04/2019

Com um olho no burro e outro no cigano


o cigano passou por mim agora
na garupa do seu burro cinzento
não conseguiu olhar-me nos olhos
parecia apressado mundo afora
a trotar perdido e a rir aos molhos
fiquei sem saber o que lhe dizer
aquele era o meu melhor amigo 
que parecia não mais me conhecer
por isso fui ter com uma cigana
que leu baixinho a minha mão
fitou-me no viés do seu olhar
e perguntou-me com toda a razão
se não conhecia bem o meu amigo
através do seu olhar mediano
como observar sempre um gitano
sempre a não ver e a ver todos
sempre com um olhar incerto e fugaz
sempre com um olho no burro
e outro no cigano

  
mongiardimsaraiva

1/19/2019

Extremos




os extremos sempre se tocam
agarram-se e sacodem-se
como dois irmãos de sangue
abraçam-se e beijam-se
levitam e pairam no ar
corpos sagrados e vorazes
nas carícias e nos segredos
são cúmplices e viajam
numa aventura certeira
pelas planícies do sem fim
dão a volta ao mundo
e amam-se assim
como dois extremos
longe e perto
inevitavelmente
sem palavras

mongiardimsaraiva

1/18/2019

Uma terra marcadamente dura




que terra tão marcadamente dura
montes escuros redondos de pedra densa
encostas que escorrem uma baba imensa
mato queimado no meio dessa secura
os rebanhos procuram na encosta intensa
vestígios de um novo capim que não vem
transformado em ossos de carcaça pura
e mugidos dos bois à chuva que não vem
os cães abandonados uivam na madrugada
em alcateias de sons levados pelo vento
são da brisa como ecos de um lamento
e trazem-nos a melodia consternada
cortam o silêncio no fio de uma navalha
apontada à imensidão do céu estrelado
os seres mais pacatos são os caboclos
que bocejam no mato enquanto falam
são como lagartos apontados para a lua
à espera que um inseto pouse na palha
de voz estridente como quem ri e ralha
espantam as onças e atraem as corujas
nessa noite preciosa infindável e escura
naquela terra tão marcadamente dura

mongiardimsaraiva












1/15/2019

Peste bubônica



Como se não bastasse as pragas e os maus agoiros que parecem transitar ultimamente pelo país, foi registrado no Rio de Janeiro um caso de peste bubônica, doença fatal que dizimou um terço da Europa no século XIV. A doença é contraída por uma bactéria alojada no sangue das pulgas de roedores e nos piolhos. No entanto, há indícios de que no Brasil a doença tenha sido disseminada através da ingestão de crustáceos, moluscos e peixes contaminados, nomeadamente a lula por ser o seu principal hospedeiro. A paciente internada e isolada, passa bem, apesar do tratamento à base de potentes antibióticos. Ao que tudo indica, o risco de uma pandemia parece não existir e o alerta vermelho foi acionado em todo o país. 

mongiardimsaraiva

1/07/2019

Mitos



quanta ingenuidade e apatia
quanta alegria sem serventia
nesse planalto desarborizado
enfeitado pobre e sem magia
quanto sorriso estampado e sem cor
um amor estarrecido e consignado
violado pela essência do não ter
povo que usa bandeira sem ter eira
na beira de uma praça sem saber
os mitos são exacerbados e trôpegos
exaltados pela matilha aventureira 
mas as ostras já estão apodrecidas
na água morna e suja de um viveiro
onde as pérolas são apenas ofuscantes
como o brilho de uma nova cegueira
oxalá o mito seja perene e se consagre
como orixá de um rico candomblé
venham séculos de magia e certeza
e os sóis voltem a brilhar nos paetês

mongiardimsaraiva




12/30/2018

A morte da poesia



para que serve a poesia

senão para cantar uma vida vazia

onde estão os que a acolhem e enobrecem

de coração aberto para a realidade fria

cada vez mais velha vai se esboroando

em mares de lama e labaredas de cristal

aos sarracenos foi dada a alegria do mal

por entre as frestas de castelos sem sal

aos poetas foi dada a liberdade do dizer

em soluços e prantos até morrer

o que farei se a tristeza nunca me cala

e a verdade parece escorrer por mim

como se fosse mortalha de uma vela acesa

certeza de me encontrar perdido e só

apenas com as migalhas deste poema

como um andarilho oculto pelo pó


mongiardimsaraiva





12/23/2018

Um texto sem pretexto















chove rãs e peixes do céu
sanguessugas rolam nas estradas
a lama engole as famílias enlutadas
e os cardeais expugnam o réu
há sinais de uma franca orgia
quem diria na casa do pai
toda a alegria é contagiante
delirante a honra que sai
só nos navios a casa não cai
não sentimos a tristeza que vai
só nos traz mais pesadelos
somos carcaças suadas e frias
aos ossos doamos a alegria
vemos até um peixe no céu
sanguessugas sem ter sangue
e rãs que molham o nosso véu

mongiardimsaraiva






12/16/2018

João sem Deus?



Embora tivesse várias vezes afirmado ser apenas um instrumento nas mãos de Deus, o povo atribuiu-lhe o dom divino de algumas curas milagrosas, algo que o aproximou definitivamente da intocabilidade do céu.
Por isso, é extremamente difícil desconsiderar esse pressuposto quando alguns factos muito sombrios e avassaladores remetem a sua reputação na vala comum, onde os mais vis e repugnantes aguardam a hora do acerto final. Quisera Deus que alguns dos seus filhos não tivessem de passar por essas provações. A ira do povo é do tamanho da sua fé inabalável, duramente ferida por um golpe traiçoeiro e lascivo.
E agora? Como atribuir (ou não) a esse homem a mentoria dos propósitos libidinosos de que é acusado, se à partida ele seria apenas um canal receptor de identidades (um médium) que o incorporaram com fins de cura e redenção, aceite e aclamado por aqueles que o procuraram e agora o acusam? Será legítimo responsabilizá-lo, à partida, pelas monstruosidades e práticas realizadas à luz de uma doutrina espírita, regeneradora e misericordiosa? Existe tribunal e legislação para julgar a espiritualidade nas suas mais intrigantes e instigantes instâncias, ou tudo não passa de uma farsa orquestrada por aqueles que se acham acima do bem e do mal? E as milhares de curas realizadas em pessoas do mundo inteiro que o visitaram e se entregaram à sua conduta e espiritualidade? É difícil! Teriam sido então muitos anos de charlatanismo acobertado, sem que tivessem ocorrido depoimentos desabonatórios de qualquer tipo, o que constrói efetivamente uma poderosa aura de elevação e proteção. É estranho que só agora tenha surgido um rol de mulheres ditas abusadas e inconformadas com o seu guru, sendo que nunca a sua sanidade mental e intelectual fora posta em causa.
Queira Deus que este homem não seja culpado no contexto das acusações que contra ele pesam. Certamente, será muito difícil reconhecer a fronteira entre o real e o ilusório, ainda mais quando o assunto é sobre os desígnios de Deus e a conduta dos homens. Não cabe a nós tecer juízos de valor sobre a religião e a fé de cada um. 
Se tiver de pagar por atos conscientes que realizou, que seja feita uma justiça fria, divina e pragmática. Que sirva para aclarar ideias, dúvidas e atitudes sobre causas e assuntos ainda pouco conhecidos e que ninguém tenha a pretensão de julgar os outros sem primeiro se julgar a si próprio, através dos seus pensamentos, palavras e obras.
Tenho comigo que a João (homem) foi dada uma dimensão ilusória e exagerada, sob pretexto de um juízo que talvez não pertença só a Deus.
Acredito que as curas podem se tornar reais e miraculosas quando acreditamos que isso seja possível. Por vezes, temos tendência a idolatrar personagens, rituais e cerimônias, mas esquecemos facilmente que a cura pode estar, simplesmente, dentro de nós.

mongiardimsaraiva


11/30/2018

Banho de enxofre


O local era um enorme pavilhão em pedra acastanhada situado no meio da mata e continha, no seu interior, um claustro muito largo rigorosamente preservado e limpo. No meio, existia um jardim, recortado por sebes geométricas com alguns canteiros de flores de tons suaves. O ambiente fazia lembrar um retiro espiritual, onde fosse possível esquecer tudo o que se passa no mundo terreno; uma espécie de Shangri-la. Algumas pessoas, na maioria idosos, percorriam o claustro lentamente, outros, estavam sentados em bancos compridos de madeira. O tempo parecia ter parado naquele lugar e apenas o som de um cântico remoto e aprazível perpetuava como um poderoso mantra.  Algumas mulheres mais novas com um ar extremamente determinado e prático pareciam estar programadas em rituais e rotinas de silêncio, previamente ensaiadas.
Eu não estava ali por acaso. Tinham-me dito que aquele era um lugar de cura, cuja regência espiritual estava a cargo do Padre Pio, figura muito conhecida e querida no meio religioso e espiritual. A ele foram atribuídas algumas graças que o marcaram como uma figura santificada e venerada por todos. Já algumas vezes tinha visitado o lugar, mas nunca como naquele dia em que me fora prescrito um "banho de enxofre". De acordo com os preceitos espiritualistas, ele era indicado nalguns casos, nomeadamente quando havia a necessidade de purificar o ser humano, levando-o a uma postura mais espiritualizada e com menor densidade material. 
O meu banho estava marcado para as 16 horas e esforcei-me por chegar uns quinze minutos antes. Estava com uma certa apreensão, apesar do lugar me transportar para uma realidade absolutamente tranquila e prazerosa. Afinal, sempre associei o enxofre a uma substância um tanto ou quanto perigosa com um odor muito forte e quase insuportável. 
Às 16 horas em ponto, uma mulher aproximou-se de mim e convidou-me a acompanhá-la pelas dependências do pavilhão. Era muito nova, simpática, cordial e fez-me lembrar um personagem extraído da mitologia grega ou de um conto de fadas. Antes de chegarmos na sala do banho parou e fez algumas recomendações breves e preliminares acerca da sessão. Disse-me também que, quado entrasse na sala, teria tudo o que precisasse para permanecer ali o tempo que quisesse e que deveria entrar completamente nu numa banheira e mergulhar nela todo o corpo à excepção da cabeça.
Assim procedi. Entrei na sala e reparei que era francamente espaçosa e arejada. Extremamente limpa e organizada, apesar da sua decoração austera composta por uma grande banheira de esmalte, duas cadeiras de madeira, um balcão comprido, um tapete e duas toalhas rigorosamente brancas. Olhei em volta e pensei que tudo aquilo era fantástico e digno de ficar registado na minha mente, já que tive a nítida sensação que passava por uma experiência indescritível e muito misteriosa. Tirei a roupa e experimentei a temperatura da água. Estava morna e notei que a tonalidade era amarelada e com um cheiro que imediatamente me fez lembrar o enxofre. O odor não era muito forte e a sensação que dava era mais parecida com a de uma mistura de especiarias. Entrei na água e mergulhei o meu corpo totalmente naquele líquido estranho e envolvente. Parecia que flutuava num caldo docemente preparado para me transportar ao portal de uma outra dimensão, em que os sonhos se tornassem realidade e me revelassem algo de oculto e crucial. Assim fiquei alguns minutos imerso no meu banho até ouvir sons que me fizeram ficar muito atento e ao mesmo tempo muito curioso. Apurei o meu ouvido. Era verdade. Escutei algumas pancadas secas junto à parede, mesmo ao lado da minha banheira. Pareciam sinais emitidos pelo bater de um objeto que poderia ser a mão de alguém a avisar-me que alguma coisa poderia acontecer a partir desse momento. 
Ainda não recuperado da surpresa pude perceber, logo a seguir, alguns sons límpidos e cristalinos que emanavam da voz de uma mulher. Provinham daquela mesma parede onde escutara os primeiros sinais. Era uma voz angelical e afinadíssima que entoava mantras e cânticos, como se aquela experiência atingisse agora um patamar absolutamente único e surreal. Reconheci imediatamente a voz da mulher que me acompanhara há instantes e que agora, num compasso de mágica, fazia parte daquela cena verdadeiramente única e magistral. Aparentemente, ela estaria do lado de fora da casa junto à parede e provavelmente deitada ou agachada, de forma a proporcionar-nos aquele efeito extraordinário. Tudo tinha sido rigorosamente planejado de uma forma singular, aparatosa e ao mesmo tempo muito simples. Afinal, o banho de enxofre tinha um propósito determinado e o ritual trazia-me a sensação de algo muito poderoso e cuidadosamente embasado na espiritualidade. Sentia-me muito relaxado e envolvido por todo aquele mistério. Tentei esvaziar a minha mente o mais possível e focar apenas aquele canto que me seguia e embalava num passeio suave e transcendental. Não sei quanto tempo permaneci envolvido por aquela sensação de paz e harmonia. E a voz continuava lá, emitindo a sua mensagem sem códigos, extremamente poderosa na sua dimensão espiritual e humanística.
Não sei quanto tempo passou, mas a sensação que tive foi a de um intervalo enorme, com certeza muito além da realidade comum. O que era o tempo afinal, senão um desdobramento do nosso condicionamento e expectativas? Saí muito leve, como se tivesse entrado e saído de uma experiência sensorial que tinha alterado, por instantes, a minha visão de mundo. A mulher, aguardava-me do lado de fora, com o mesmo sorriso alegre de anfitriã que me tinha oferecido à chegada. Olhei dentro dos seus olhos e agradeci também com o meu olhar. Respirei fundo e fui embora sozinho, já que não tive nenhuma dificuldade em reconhecer o meu caminho de volta...

mongiardimsaraiva

11/25/2018

Noraney coice de mula



Era uma vez, num lugar distante em que as cobras desciam a pedra gigantesca para fumar o cachimbo da paz e as mulas procuravam avidamente por mais capim...
Havia nesses confins quem passasse o tempo a contar os pardais que pousavam freneticamente nos fios entre os postes da eletricidade e a observar as moscas que pousavam na mesa da cozinha à procura dos restos do almoço.
Nessa pasmaceira, vivia uma mulher de meia idade que aparentava ser daquelas que teimavam em não querer mostrar a idade; cabelo preto asa de corvo comprido e bem esticado, provavelmente pintado com uma tinta barata e de qualidade duvidosa.
Diziam que o seu gênio era terrível e que à mínima tensão repostava um arsenal de palavrões que fazia corar os mais tímidos e pacatos.
Conhecia-a por acaso, quando passei pelo local há muitos anos atrás. 
Lembro-me que avistei ao longe uma pequena casinha de madeira com um ar pitoresco e convidativo. Havia perto da casa um pequeno grupo de crianças que brincavam alegremente e, por momentos, associei-os àquela paisagem atraente e bucólica. Quando me aproximei, notei que todos me encararam com um ar apreensivo e espantado. Perguntei-lhes se moravam ali por perto e se conheciam bem aquele lugar. Olharam uns para os outros e o mais velho adiantou-se gaguejando. Disse-me num tom quase secreto que ali, naquele lugar, ninguém era bem vindo e que a casinha era habitada por uma mulher muito perigosa. Diziam que era a encarnação de uma velha mula que por ali tinha vivido. 
Era uma burra que tinha pertencido a um fazendeiro e que fora vendida a um mercador rico que tinha passado por aquelas terras. A mula era muito apegada ao seu primeiro dono e nunca mais conseguiu demonstrar afeto e submissão por ninguém. Diziam que, por isso, o mercador foi obrigado a desenvencilhar-se dela. Na primeira oportunidade que teve, ofereceu-a a uma das suas amantes que prometeu estimá-la. Assim, essa mulher criou a mula até morrer, apesar da dificuldade em lidar com o animal. Essa mulher tinha uma filha que, diz a lenda, nunca gostou do bicho e que fez tudo para que a burra desaparecesse sem deixar rasto. Quando a mula morreu e para disfarçar, a moça, com remorsos, perguntou ao padre da aldeia se podia enterrar o animal no cemitério da igreja. E assim foi. Sem o animal, a vida daquela menina teria tudo para se tornar mais alegre e promissora. No entanto, a personalidade daquela mulher começou a apresentar sinais preocupantes de um certo nervosismo, o que deixou a população do lugar bastante preocupada. Diziam que ao menor sinal de aproximação e intimidade  manifestado pelos vizinhos, a mulher abria as goelas e arrotava um rol imenso de pesados impropérios, como se por momentos fosse tomada pelo espírito da sua velha mula. 
Aquela criança que me contava essa história tinha um ar sério e jamais me passou pela cabeça duvidar das suas palavras que pareciam jorrar da sua boca como verdades insofismáveis. Nesse momento, um dos outros rapazes que aparentava um certo desinteresse por tudo aquilo, olhou bem nos meus olhos e perguntou de repente: - Você nunca ouviu falar na Noraney coice de mula?!!! 

mongiardimsaraiva

11/01/2018

Execução

transito no vácuo da incerteza                                     
não sei o que pense ou o que escreva
sou apenas um olho que observa
uma cabeça só sem ter escolha
persinto tristezas na escuridão
e alegrias claras sem noção
não sei se isso é bom ou não
mas de uma coisa tenho a certeza
a minha estranheza é certeira
como a alça de uma carabina
apontada à minha caveira
sinto a cegueira num calafrio
sei que não tenho a menor escolha
sou apenas uma não solução
que em solo raso respira a poeira
canto triste a morte desse rio
e preparo-me para a execução

mongiardimsaraiva






10/10/2018

Incerteza

o amor é feito de incertezas                                     
como num passeio à beira mar
em que os salpicos nos refrescam
as conchas sorriem só para nós
e os barcos nos saúdam ao longe
com o som grave das suas sirenes
apesar de estarmos ali de passagem
a brisa traz-nos o cheiro da maresia
e o amor que sentimos é como o sol
ávido por nos possuir nas estrelas
incertamente sonhamos com a lua
e trazemos para nós o doce balançar
de uma gôndola em águas paradas
queremos uma certeza acabada
mas não possuímos nunca esse amor
que escorre só por entre as pedras
entramos na água quase em segredo
mergulhamos nas ondas sagradas
e nadamos rápido para muito longe
correnteza da incerteza que nos leva
para dentro do mantra de um monge
que um dia abdicou da sua riqueza
e pôde ver alguma certeza ao longe


mongiardimsaraiva







10/05/2018

A serpente

Cristas de fogo descem pela mata                               
Como serpentes ardentes e alvoroçadas.
Há um rasto que se apaga inocente;
Mais vidas têm de morrer queimadas
Ou abandonar depressa a inocência
Comovente e urgente de quem sente.
Os animais e as plantas sem ter nada,
Apavorados e famintos sem saber;
A fugir no desespero de não morrer.
Aos homens foi tirada mais uma casa,
Embora não sintam que estão sós...
Sacudidos pelo calor que derrete,
Não têm os olhos virados para a serra;
Só para as guerras dos seus avós...
Não se lembram do verde das folhas.
Não percebem que a água secou por ali.
São apenas escravos do poder de ter,
Do agora que emite gritos e gemidos...
Quando um dia acordarem aflitos,
Talvez os seus filhos já estejam mortos,
Ou não vivam nem sequer para chorar.
Aos deuses sacrificados da floresta
Resta apenas tentar num outro local.
Partir para terras com menos mal
E afagar a alma de quem não sobreviveu.
A montanha segurou todas as suas cobras,
Mas a última serpente, essa morreu...

mongiardimsaraiva

9/23/2018


O murmúrio das pedras

                                                      Nesta era dos clamores febris                                                        
Do mundo suicida e das vidas que restam,
Vale a pena mergulhar no murmúrio das pedras... 
Escutar maravilhas no gargalhar do silêncio. 
Medir o som que exala da terra em cânticos de perdão. 
Saborear o deslizar das águas cada vez mais gentis
Que teimam em lavar os nossos corpos que sofrem.
Somos cada vez mais um bando de trogloditas,
Hermafroditas no desejo de profanar a tudo e a todos. 
Hipócritas que rezam, choram, riem e se matam.
O parco pó que nos segura não vai durar para sempre...
Alegrias sem sentido não purificam o nosso coração.
Ainda estamos a tempo de renunciar à dura eutanásia.
Podemos ainda segurar o nosso corpo que estremece.
Dá tempo de cavalgar as colinas dos nossos sonhos.
A altivez da morte é uma ameaça que nos enfraquece, 
Cavaleiro negro que nos observa para lá do infinito...
A vida é muito mais do que uma fogueira de vaidades.
A cova que nos vai engolir é feita dos restos da humanidade.
Ainda há tempo para degustar o sol, a chuva e as cascatas. 
Acordar ao som dos pássaros e no sibilar das matas.
Renunciar,  com alegria,  àquilo que não foi feito para nós.
Achar um outro horizonte aprazível, mais digno e justo.
Semear o nosso chão com ossadas antigas e eloquentes. 
Pertencer a essa terra de ninguém que nos quer bem... 

mongiardimsaraiva




8/23/2018

Uma volta pela trilha

mais uma corrida pela trilha                                             
maravilha que trago comigo em vida
um percurso ritmado e justo
entre um arbusto e a estrada comprida
e as pessoas estão lá obedecidas
ora gordas ora magras ou compridas
cruzo primeiro com o diapasão
que me cumprimenta estridente
vibrante e operante com um báuumm
que estremece o meu tímido compasso
passa por mim como um abraço
e deixa um rasto doce de pudim
passo agora pela curva apertada
quase esbarro numa coruja cismada
que me olha de uma estaca junto a mim
vejo ao longe o vulto da lambisgoia
estilosa e ondulante como uma cobra
que arrasta o marido quase à guia
um pequeno cachorrinho de olhar azul
sereno e obediente como um poodle
passa e ultrapassa o companheiro
parece às vezes pedir-lhe dinheiro
confesso que tenho medo de gente assim
se não fosse o Antônio das Mortes
ter aparecido no meio da bruma
e ter-me dado a extrema unção
gesto da sua mão expugnando o pecado
como um bispo sinistro da inquisição
estaria mais ofegante e petrificado
estou agora perto da meia-volta
não fosse um cavalo que vem direito a mim
por vezes sou cego quando olho para o nada
e esqueço de prever aquela estrada
onde me encanto ao ver coisas assim
já na volta encontro uma cobra
obra brilhante de Deus em tons de coral
quero que ela nunca me faça mal
são do vento as minhas passadas de brisa
entro no meu avião e dou a partida
quero tudo menos perder a minha vida
sou apenas um corredor só e mortal
já consigo ver a linha de chegada
ainda ao longe distante e escurecida
passam bicicletas ruidosas e bregas
um rádio e uma música sem melodia
um cachorrinho quer atrapalhar os meus passos
são horas de acelerar e voar em direção à meta
a noite é já uma certeza certa
e amanhã será apenas mais um dia

mongiardimsaraiva





7/27/2018

Entre Telas e Telinhas: o Comportamento da Sociedade no Uso do Celular




"Poderíamos pensar a Internet como uma enorme célula que se alimenta, expande e transforma continuamente, multiplicando incessantemente o seu poder de alcance e disseminação. Como um grande cérebro que constrói as suas sinapses e cadeias, de uma forma prodigiosa e precisa. Magnífica e tentadora, como uma bela mulher insinuante e cheia de predicados. Perigosa e reservada, como aqueles que não se mostram totalmente. Intensa, magnífica e exuberante nos seus propósitos de grande dama. Sempre na moda, usando uma maquilhagem reluzente ou sóbria, de acordo com os momentos ou situações. Exigente, ciumenta e possessiva para todos aqueles que não lhe dão a devida atenção ou manifestam o seu interesse. Uma poderosa máquina agregadora, que exige a presença de todos, sem exceção. Navegar pela Internet é poder cruzar, quase instantaneamente todos os oceanos ao mesmo tempo. Uma verdadeira odisseia fantástica e inconcebível, quase capaz de suplantar as velhas e ilustres caravelas do nosso passado remoto e glorioso". (MONGIARDIMSARAIVA, Recanto das Letras, Internet, p.1)
O celular é a principal ferramenta responsável pelo acesso facilitado a essa poderosa máquina viciante e exigente. Durante todo o dia não somos mais capazes de deixá-lo de lado e muito menos esquecê-lo. É através dele que nos conectamos uns aos outros e com o mundo. Conseguimos saber coisas mirabolantes sobre a vida dos outros e informamos, através dele, muitas coisas que acontecem conosco. 
Com isso, gera-se uma dependência dificílima de eliminar, já que o nosso cérebro habitua-se a receber notícias constantemente e com isso, passa também a procurá-las avidamente. Funciona como se nós nos alimentássemos alienadamente e sem parar de um imenso jornal coletivo do cotidiano, do qual fazemos parte.
Estudos realizados, apontam que esses dispositivos eletrônicos agem como uma espécie de pacotinhos de prazer, através das novidades que são endereçadas ao nosso cérebro. A dopamina, substância estimulante que é produzida, encarrega-se de gerar uma sensação de satisfação que faz com que fiquemos subjugados a essa rotina. 
E assim, algumas pessoas tornam-se dependentes, a ponto de brigar para não perder oportunidades de conexão ou aparelhos que trazem um bem estar efêmero, precioso e inadiável. Ou em outras situações, tomando atitudes verdadeiramente inusitadas por extravio dessas máquinas gerando até, nalguns casos, a perda de voos agendados e/ou compromissos inadiáveis.
Em algumas situações, segundo estudos efetuados por psicólogos, o aparelho celular pode funcionar como uma espécie de alívio ou terapia para aquelas pessoas que sofrem de ansiedade, já que é suposto perceber que quem se vicia já traz consigo algum tipo de problema... 
No caso dos adolescentes, o comportamento é especialmente preocupante, visto que eles adquirem hábitos que arrastarão para a fase adulta. Segundo pesquisas, 15% acabam por ler menos livros, em virtude do tempo que gastam ao estar conectados. A maioria dos adolescentes reconhece que está viciada. Por razões biológicas, esses jovens têm menos controle sobre os seus impulsos e por isso, maior dificuldade para dosar o uso dos seus aparelhos. Como o desenvolvimento cerebral é processado por etapas, acontece que a última região a maturar é o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, o que deixa o adolescente ainda mais à mercê do hábito viciante.
Para além dos aspetos negativos e perigosos, é justo também referir algumas vantagens relevantes e objetivas. Os celulares possuem o poder de nos conectar a um mundo que está ativo 24 horas por dia, o que por si só já é um fator de enorme sucesso. Eles contribuem também para dissolver alguns problemas emocionais graves do ser humano, como a solidão. O smartphone tornou-se uma espécie de espaço individual aconchegante. Ele funciona na zona de conforto, principalmente para aquelas pessoas que vivem nas grandes metrópoles. O seu potencial é enorme quando se trata de estabelecer e alimentar relacionamentos, mesmo que seja através da frieza e artificialidade da sua rede e estrutura. 
Diante de toda essa realidade, é lícito perguntar qual será o futuro da humanidade que parece cada vez mais não abrir mão de um estilo de vida compartilhado, atraente e prático, mas que ao mesmo tempo parece comprometer profundamente a sua capacidade de criar laços naturais, profundos e duráveis. Inclusivamente quando a célula familiar, tão importante para a manutenção da espécie, parece dar graves sinais de fragilidade e balança por falta de capacitação e aproximação entre os elementos que a compõem.
É habitual, nestes casos, apelar-se para o bom senso, como último reduto para uma saída razoável e sustentável. Mas será que não é um pouco tarde?

mongiardimsaraiva

7/12/2018

Otorrinolaringologia



Cheguei cedo. O acesso à sala de espera manteve-nos de pé, junto à porta da entrada. Era um prédio daqueles com muitas salas de atendimento comercial e as pessoas circulavam impacientes por todos os lados. Os elevadores eram todos fechados e em aço, onde cabiam umas oito ou dez pessoas bem espremidas. Junto à porta de entrada, no piso térreo, havia um porteiro que ordenava o fluxo destinado aos vários pisos. 
Finalmente, alguém abriu aquela porta de vidro que nos possibilitou o acesso à sala de espera. Uma mulher de meia idade com uma expressão séria e pesada deu-nos um "bom dia", num tom arrastado e grave. Quando ela passou por detrás de um pequeno balcão e se sentou, percebemos tratar-se da secretária. Não parecia muito comunicativa e dava a sensação que cumpria mais um enfadonho período da sua rotina diária. De pele e olhos claros, fez-me lembrar uma matriarca alemã, com o seu ar formal, rigoroso e severo. 
Fomos os primeiros a entrar, juntamente com uma mulher muito magra e mais nova que nos lançou um sorriso de resignação e cumplicidade. Passado pouco tempo chegaram mais três pessoas; uma senhora idosa muito cansada e um senhor de meia idade que acompanhava a filha, uma adolescente que aparentava ter uns treze ou quatorze anos. Embora tenhamos chegado primeiro, não fomos logo atendidos. 
Já passava bem das quatorze horas quando entrou na sala um homem muito baixo que trajava uma roupa simples e enxovalhada. Aparentava ter mais de setenta anos e a sua expressão não deixava nada a desmerecer ao semblante da secretária. O rosto fechado e seco não transmitia nenhuma simpatia, o que fez com que não emitisse qualquer som à chegada. Apenas um "boa tarde" entre dentes, emitido em tom de favor. Percebemos tratar-se do médico, apenas porque se dirigiu com a sua chave a uma outra porta em vidro de comunicação com o consultório. Quando a porta voltou a se fechar, a senhora de idade que estava ao nosso lado perguntou: - Esse médico é bom?! Olhei para ela, para a minha amiga e respondi apenas com um sorriso. Como não fomos os primeiros a ser atendidos, tivemos que esperar mais uma meia hora. O ambiente da sala estava calmo e o som baixinho de uma pequena televisão suspensa transmitia uma certa atmosfera de paz, apesar de tudo.
Quando aquela segunda porta de vidro se abriu de repente, a figura de um homem baixo e empertigado anunciou numa voz metálica e estridente o nome da minha amiga, de uma forma soletrada, cadenciada e extensa como uma máquina que reproduz a sua gravação. A expressão do médico era agora a de um pequeno comandante no uso pleno das suas credenciais e direitos. Não era mais aquele homem triste e apagado que tinha passado por nós. Reparei no seu pequeno bigode escuro, quadrado e bem delineado que imediatamente apelou para a minha memória sensível e fotográfica. Sim, eu já tinha visto aquele rosto, ou pelo menos, um rosto muito parecido com aquele. O tom, o gesto e a expressão condiziam nitidamente com os parâmetros que me transmitiam aquela sensação nítida de semelhança. Procurei a minha amiga, numa rápida troca de olhares. Não havia a menor dúvida. Por obra de um acaso inimaginável e transcendente, tinha a sensação de ter sido transportado para uma Alemanha em guerra dos anos 40, onde a presença daquele casal parecia representar uma encenação quase real de Adolf Hitler e a sua secretária. O olhar de espanto da minha amiga traduzia bem essa sensação estranha de realidade fantasmagórica. Era inacreditável. Apesar de tudo, levantamo-nos e seguimos aquele homem.
O consultório era pequeno e bem arrumado onde os objetos pareciam encaixar-se rigorosamente. Havia duas poltronas vazias defronte de uma secretária escura de linhas modernas e bem apetrechada com dois notebook. Sentamo-nos lado a lado e aguardamos a presença do nosso anfitrião. Quando tentávamos trocar algumas palavras sobre aquele impactante momento, reparamos que o nosso homem já tinha assumido o seu lugar de comando bem à nossa frente. Aguardava-nos, com um olhar intenso e inquisidor. Fez-se silêncio. - Senhora Maria, tal, tal, profissão tal, moradora em tal, cidade de tal... A minha amiga pronunciava as palavras e seguia-o com um olhar arregalado de surpresa total, limitando-se a confirmar os seus dados. - Bom, e qual é a história que a senhora tem para nos contar? Nesse momento, e talvez apelando para a minha fértil imaginação, eu não pude deixar de recordar aqueles relatos do holocausto em que os médicos nazistas fizeram experiências terríveis com judeus, em nome da purificação da raça. - Vamos observar, disse o médico. - Sente-se naquela cadeira! A minha amiga levantou-se lentamente e eu permaneci estático, entregue ao meu pensamento. Aquilo parecia muito real, mas talvez fosse só uma forte sugestão. - O senhor, venha aqui! Olhei para trás, afastei a cadeira e levantei-me rapidamente. - Coloque-se aqui atrás de mim! Assim fiz e aguardei. - Vê essas duas manchas brancas no fundo da boca, perto dos dois molares? Fiz que sim com a cabeça e ele desligou rapidamente a lanterna. Voltamos os três para a mesa do consultório.  Olhou para nós e fez uma curta pausa. - Vamos ali numa outra sala! - Abra a boca! E pingou algumas gotas que pareciam ser de anestésico. Acompanhei-os e observei que o médico empunhava um instrumento comprido em forma de sonda, com uma luz na ponta. Naquele momento, mais nítidas se aguçaram em mim as imagens do nazismo, ao associar aquele instrumento e aquele homem a um cenário de tortura. - Abra a boca! Não dói! E enfiou aquilo pela boca abaixo da minha amiga. Logo, através de um monitor, começaram a aparecer as imagens de um percurso inusitado de cavidades e protuberâncias rosadas. - Não tem nada! Voltamos para o consultório. E começou a preparar a sua receita. - Não tem nada grave! - É ansiedade! - Estresse! - Vou receitar apenas alguns medicamentos que penso irão resolver o problema! E olhou bem nos olhos da minha amiga para dizer: - E não fique nesse nhãnhãnhã de mastigação que vai ser pior, ouviu? - Tem de aprender a controlar-se! E apontava agora com o dedo indicador para a sua cabeça. Para ajudar, deverá fazer vários gargarejos com Mylanta Plus, assim!!! E num gesto muito rápido puxou a cadeira para trás e simulou o gargarejo através de um som de glóglóglógló, muito alto, que mais parecia uma sirene de aviso de ataque aéreo... E logo a seguir exemplificou o bochecho; blublublublu, corpo para a frente, olhando fixamente a minha amiga nos olhos e movimentando as suas bochechas para cima e para baixo, sem parar. Era impossível não rir perante aquela cena alucinante de um quase Hitler já na sua fase decadente... Enfim, aquele final servira para aliviar um pouco toda a tensão daqueles momentos, patéticos e surreais. Agora, eu e a minha amiga ríamos sem temor daquele homem engraçado e sem graça que nos olhava ainda sério, como se não pudesse rir. - Muito obrigado, doutor!

mongiardimsaraiva

7/08/2018

Por cima das ondas





um olhar sobre as ondas
por cima das cristas do mar
salpicos que brilham ao luar
como peixes feitos em prata
no refluxo das minhas entranhas
sacudo as margens do meu ser
sou náufrago sem o saber
e balanço numa escuna só
perdido no meu pouco tempo
tento desatar o aperto dos nós
lanço meus prantos em tons de cinza
e seguro o meu olhar a esse cais
vou embarcar na luz de uma imagem
escutar o som do eco da miragem
e perpetuar-me no voo de uma gaivota
sou agora mais do que uma onda
sou do mar um amigo que se esvai
em sangue que lambe as feridas
na saudade dissolvo as partidas
e morro pelo amor que não sai

mongiardimsaraiva

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