4/01/2015

ESCORRO PARA O MAR

Escorro necessariamente para o mar
Amar persinto ser o meu rio serpente                                    
Sou digno daquilo que não me mente
Verdade sublime que sorri ao chorar
Perpetuo ideias a quem não as sente
Crio imagens das saudades sem par
Estou na cruz do meu canto semente
Caranguejo oculto e sem ter mangue
Sinto sede nas gotas do meu sangue
Necessito dos abrigo no nosso estar
Quero que o amor me dispa urgente
Devore o profundo dessas entranhas
E me devolva à vida sem meu pesar
Pássaro que sobrevoa as montanhas
Avistando o rio e voando para o mar

mongiardimsaraiva

Nota do Autor: Este poema foi selecionado para ser publicado na VII Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho" (Chiado Editora / Lisboa / Portugal / 2016).


3/31/2015

MARIPOSA REAL

Negra borboleta preta e clara                                            
No preto e no branco casada
Com asas e olhos de veludo
Cara feita de ti e do meu nada
Voa serena no meu rosto mudo
Suga-me as entranhas mais doces
Digere-as sem choro e sem dor
Percalços vividos do nosso amor
Saboreia-me e não digas nada
Sou pranto por não seres acabada
E tremor ao conduzir o meu fervor

mongiardimsaraiva

3/27/2015

ATRAVÉS DA VIDRAÇA

Observei-te nítida pela vidraça                                                          
Alta segura imóvel e com graça
Olhos sós e preparados para o vazio
Afagaram sonhos breves e desafios
Muitas incertezas entraram no cio
Fui um passageiro louco e com frio
Que percorreu ileso essa madrugada
Senti na minha carne a longa espera
Afagada por angústias e pela quimera
Como uma esperança abençoada e sã
Nunca pensei nela como a tristeza vã
Mas como abraço certo e consagrado
Naquela só vidraça do nosso quadro

mongiardimsaraiva


3/21/2015

DIA DA POESIA

O dia da poesia é todos os dias                                
Manhãs tão vazias sem maresia
Que deixam os meus dias ilhados
Sinto-me vaguear pela simpatia
Quando a minha chama não é fria
E os meus orvalhos são confinados
Dedico-te o meu louco sentimento
Atento nas coisas que não são nada
Constante isolada por esse fermento
Que cresce de noite e na madrugada

mongiardimsaraiva


MÃE

Parabéns mãe                                                                          
Como ninguém
Serás sempre além
Da graça e do dom
Em que me deste raça
No teu sangue corro só
Por veias cheias e dilatadas
Sou um barco sem o teu porto
Que balança sozinho e torto
Em águas por ti consternadas

21/03/2015 - mongiardimsaraiva

3/02/2015

UM AMOR COMO O NOSSO

Um amor como o nosso                                                
Quero dar-te sem medo
Encerro nesse segredo
Muitas entregas a mim
Quero que fiques assim
Mar sem medo nem fim
No fundo dos teus olhos
Avisto a calma da areia
Que reflete ri e permeia
No brilho do orvalho só
Madrugadas sem enredo
Que tardam em ser cedo
Nascer claras e ser pó

mongiardimsaraiva

2/28/2015

MULHER-CÃO

Já fui uma bela mulher                                                          
Hoje passeio o meu cão
Pela mão e sem usar batom
No tom de Deus sou a rebelião
Um ser sem nexo sexo e tesão
Cabelos curtos e muito grisalhos
Orvalhos que quis ter sem perdão
Dura provação e entrega ao medo
Segredo e clausuras sem restrição
Quando olham para mim sou mastim
Protegida por auras santas e sem fim
No puro desejo de não existir segredo
Enredo de um cão mantido em degredo

mongiardimsaraiva

2/26/2015

ÊXODO

Olhei para trás e não te vi                                          
Saí só sem dares por isso
Não podia mais ficar aqui
Os ossos gemiam de frio
E de ausência deste corpo
Queriam a carne e o estio
No calor de um amor rouco
Agora que rio já não choro
Sou uma criatura feito louco
Farejo cheiros sós e doentios
Não quero mais viver pouco

mongiardimsaraiva


RECIPROCIDADE

Quero dar-te como me darias                                
Da mesma forma ou melhor
Amarias fazê-lo a mim de cor
Vibrantemente e com gratidão
Segurar e apertar a tua mão
Como gostarias de me sentir
Teu querido e eterno irmão
Na paz dos nossos corações
Navegarmos em naus vazias
Embriagadas pelo nosso amor
Por rumos e tempos incertos
À deriva da nossa rica cura
Mas saudosos de sermos nós
A voz do nosso apelo e ternura

mongiardimsaraiva

2/24/2015

ESPIRITUALIDADE

Espiritualidade e conexão                                                      
A mão que toca a realidade
Da terra e do espaço vão
Uma viagem pelo infinito
Ocas partículas sem chão
Unidade pensamento e mó
Possibilidades com gabarito
Mergulho sem medo nem dó
Atalhos que levam a credos
Em galáxias e nos arvoredos
Mistura de medos sem atrito
Mágoas acesas sem candura
Rios com lama e pedra dura
Que brotam sozinhos e sós
No tempo ausente e criador
Das coisas tão presas a nós
Escorre a verdade e o fervor
Líquidos e sem o peso da dor  

mongiardimsaraiva

2/23/2015

MOSCAS

Moscas moscas moscas                                            
Toscas grandes insistentes
Presentes em sujos bacanais
Ardentes fartos e indecentes
Pousam e posam nos currais
Lambem as feridas grupais
São os aviões dessa guerra
Que lança as bombas fatais
Zumbidos surdos e bêbados
Armas de fogo sem soldados
Pairam como gigantes alados
Na luz do calor da nossa dor
Jazem já pútridas as infames
Como gargalos que escorrem
Venenos de sangue sem cor

mongiardimsaraiva


 

2/20/2015

BUCÓLICA

Sem proferir uma queixa                                      
Beijarei a minha gueixa
Linda gentil e serviçal
Corpo sedoso e material
Deusa dos meus sonhos
Uma dádiva materializada
Mulher com olhos risonhos
Quero perpetuar em concha
Longas noites nesse orvalho
Nos campos ser o espantalho
De corvos águias e pássaros
Sentir o cibilar do nosso trigo
Em correntezas de ar fresco
Cheirar a doce palha contigo
E gemer cantigas de amor
No torpor do nosso abrigo

mongiardimsaraiva


2/10/2015

NOITE SEM LUZ

Procuro acariciar-te                                      
Persigo o teu passo
Beijos quero dar-te
Perto do teu abraço
Penso em amar-te
Deixar-te não faço
Sou o teu parceiro
Dos dias sem luz
Na cruz derradeiro
Morro só primeiro
Que a tua alegria
De seres escrava
De muitas orgias
Que ao dia conduz

mongiardimsaraiva





2/09/2015

JAZIDA

Apodrecimento vil e generalizado                                      
Homens e mulheres como o gado
Numa trilha sem chão e sem mata
Profunda ilusão na escuridão escapa
Raízes profundas se desagregaram
Da terra molhada e ensanguentada
Os vermes frios não puderam fugir
Ao descaso e à pobreza se juntaram
O dinheiro traçou sulcos e gerou pós
Tristeza que jaz a dois passos de nós

mongiardimsaraiva

2/06/2015

O LAMBER DAS FERIDAS

A noite veio lamber as feridas                                          
Causadas pela luz clara e cruel
Molhou e beijou todas as crostas
Chamou-as de queridas sem fel
E encerrou-as a sós como ostras
Dentro de uma sala de partidas
Sem destino e sem gosto de mel
A dor foi hoje mergulhada no rio
E os restos flutuaram sem navio
Gotas de sangue em água escura
Sem cinzas e lixos de amargura
Até ao raiar do dia novo e claro
Que aguarda as próximas noites
Como pedaços de um amor raro

mongiardimsaraiva

2/05/2015

ALCOVA

Quem nos ama esquece a nossa tristeza insana                                  
E ainda ri na nossa cama com a boca que aquece
Contagia a nossa pele com os odores perfumados
E entoa na voz do amor belos acordes amaciados
Pela doce vida longa desses afagos perpetuados
Com regozijo invocados nos cânticos da nossa fé
Tudo é motivo e abrigo para o fervor e esplendor
Dor sem dor que se aninha na alcova e esquece
De viver os dias do desamor e quase enlouquece

mongiardimsaraiva

MELANCOLIA

 Não observo nada em volta
Apenas fluxos descontínuos
Confundidos e sem escolta
Coisas que andam por andar
Sem um motivo e sem parar
Olhos pesados vazios irados
Que observam esbugalhados
Vidas que escoam pelo ralo
Triste compasso de um pesar
Por onde passam sem amar
Sem doces ritmos e embalos
Cadência triste vaga sombria
Beijando a nossa noite fria
Que nos deixa sem amá-los

mongiardimsaraiva

                                  

2/03/2015

ABRAÇO

Abro os braços para ti                                        
Sinto o teu corpo a abrir
A minha alma deliciada ri
Do amor indolor sem sentir
Somos corpos navegantes
Num mar sem ondas e vagas
Natureza aclama verdejante
Terra enxuga nossas mágoas
Quero te deixar uma semente
Madura serena e proclamada
Por nós e por essa alegria só
Fruto eterno da carne e do pó
Na tua carente e casta morada

mongiardimsaraiva

1/17/2015

MUDANÇAS

Resisto às novas mudanças profundas                                
Sou a espada de um velho guerreiro
O meu paradeiro é a minha memória
Sinto uma vontade imensa de glória
Mas permaneço atento e à escuta
Quero perceber os sinais dessa luta
Que flui nesse verão de muito calor
Como se a razão derretesse o sabor
E as lágrimas fossem sempre adiadas
Eternamente ocultas sós e guardadas
Em rostos que expressam o novo amor

mongiardimsaraiva

8/11/2014

A VERDADE NUA E CRUA

Quero encontrar o meu alimento                                
Procurar sustentos que não tenho
Estou perdido no meio do rebanho
Sinto o gelo molhado da montanha
O frio corta-me todas as entranhas
Sou apenas a carne exposta e crua
Expulsaram-me sem dó da minha rua
A verdade obriga-me a ser verdade
E a procurar o alimento nas estrelas
Sustentar a matéria à luz das velas
Improvisar hinos e canções de glória
Renunciarei amargo à minha história
Serei um arauto de outras certezas
Não pedirei dinheiro às sociedades
Procurarei as ideias e as saudades
Como um espírito que vive do Amor
Das contemplações sem sentir dor

mongiardimsaraiva


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