5/12/2016

TEMER O TEMER

Temer é um ato de coragem                            
Ou de aproveitar a vantagem
De estar certo no lugar certo
Nunca perder a louca viagem
E regozijar-se com um sorriso
Aviso aos navegantes sem mar
Não estou aqui para fazer pão
Quero mudar essa engrenagem
Que jaz inconsciente a soluçar
Temer o temer sem um temor
É um salto elegante no vazio
Onde criaturas se escondem
Apunhalam as costas por trás
E murmuram hinos de vitória
Sem história pura e sem paz

mongiardimsaraiva


5/06/2016

NA MATA ESCURA

Espantado e incrédulo
Ergui o rosto com medo
Não eram meus irmãos
Batiam duro com as mãos
E seguravam canos de fogo
Que rebentavam em clarões
Naquela noite senti o medo
Muito medo daqueles trovões
Agachado sozinho tremendo
Fiquei acordado e paralisado
Na selva que não me pertencia
Ardia no vermelho em segredo
E impugnava triste por silêncio
Senti que nos olhos havia água
Água da minha fonte selvagem
Que nunca me quis triste e só
Hoje a noite não me trouxe paz
Jaz acesa para sempre em mim
A lembrança do medo que senti
Na minha mata escura assim

mongiardimsaraiva


4/28/2016

MÃE TERRA

Envolto em auras de branco
Olhei aquela mulher sedutora
Pele escura de rosto franco
Um sorriso de amor fecundo
Sem os trejeitos de senhora
Semente da paz no mundo
No germinar de uma lavoura
Queria ser esses teus panos
Que te seguram o rosto assim
Nos braços de um amor sem fim
E te apertam no passar dos anos
Sou a esperança do teu olhar
Que vagueia na solidão de mim
Queria ser parte dos teus sonhos
Cultivar riquezas dessa natureza
E  poder usar um lenço branco
Como toalha que cobre a mesa

mongiardimsaraiva


3/30/2016

A LENDA DA DAMA DE VERMELHO



No vermelho vivo me esparramo, deleitada ao balanço das ondas. Sinto a maresia que declamo e guardo no peito o meu descanso, sentinela atenta nessas rondas. Sou aquela mulher de vermelho que mora acordada no teu sonho. E te traz uma paz consternada, envolvida em roupas de cetim. Diz a lenda que numa estrada, fui vista por quem me sonhava. A quem sorria, logo parava e sentia o meu perfume, assim. Pétalas vãs de rosa vermelha forçavam o passeio na noite, sem destino e sem morada. Os carros e os homens seguiam-me sem parar, na longa estrada consignada. Quando os beijava, abraçava-os e convidava-os a prosseguirem comigo ao luar, pelo caminho do velho e escuro cemitério. Éramos apaixonados e cúmplices daquele amor, perpetuado naquelas noites sem fim. À porta da minha bela e vermelha casinha, estonteante e seminua, eu perguntava-lhes: - Queres-me tua para sempre? - Vem, eu moro aqui sozinha...

mongiardimsaraiva



2/24/2016

LEPRA

Reparei naquele pobre africano                                  
Que pedia esmola sentado no chão
Pele negra e manchas rosadas na mão
Roupas rasgadas e manchadas sem cor
Dor que me doeu na ossada do meu amor
Não tinha os lábios e o nariz para me olhar
Estendeu-me o braço ou um abraço para dar
Gelei por dentro senti-me só e agarrado
Àquele estado que não pude acompanhar
No olhar tresloucado percebi essa certeza
A lepra tinha encontrado mais uma presa
E preparava sorrateira o seu bote fatal
Ia contagiar-me por não dar uma esmola
Começou a movimentar-se na minha direção
Arrastava-se como serpente ferida e cega
Devagar lentamente rápido na minha mente
Senti nas pernas um torpor permanente
Um calafrio sem frio tomou conta de mim
Abandonei o meu corpo que agora padecia
Precisava do meu espírito que não sorria
Para ajudar as minhas pernas a correr
Morrer e sofrer como aquele homem
Deixou-me à beira da vida que morria
O meu querer configurou-se numa peça
Ao sentir que alguém me puxava seguro
Filho dá a mão ao pai e anda depressa

mongiardimsaraiva



   

2/17/2016

ESQUECI DE TE ESQUECER

Esqueci de te esquecer                                              
Doce e bela criatura deleitada
Sentada na sombra esparramada
Pelo azul das águas desse horizonte
A tua luz confunde-se com o campo
Manto de folhas secas e sóis amarelos
No bordado do teu pano vejo as flores
Que respiram a voz do teu canto
Quanta delicadeza no teu bordar
E no som do mar dos teus amores
O dia não tem mais luz para te dar
Aguardando um sorriso no teu ficar
Espreguiçada ao calor desses odores

mongiardimsaraiva

2/15/2016

XANGRI - LÁ

Começo a traçar um novo caminho                  
Sozinho e naquilo que eu mais peço
Universo envia-me já o teu carinho
Segura a tua mão ao nosso destino
Cerca-me de letras aroma e pétalas
Paz inunda minha vontade de cometa
Traz-me a virtude e o sonho maduro
Deixa-me viver um caminho seguro
Perto dessas flores como borboleta
Ao futuro ergo hoje minha bandeira
Salpicada de cores e letras macias
Sou bandeirante nas minhas ideias
Combato maldades e guerras frias
Quando vieres me beijar abraça-me
Para que tenha a certeza que és tu
Traz-me nesse olhar a tua semente
Nos braços o nosso amor sem tabu

mongiardimsaraiva



2/11/2016

CANTO DA LUA

Nada se iguala a essa Natureza                        
Certeza que impregna de luz sábia
O canto das aves apaga-nos o medo
Da escuridão do temor na incerteza
Onde tem água cresce mais mundo
Atento e profundo à nossa beleza
A alvorada proclama o ser nascente
Preparado para cantar o novo canto
Espanto que nos deixa sem mente
Na ternura invisível de um pranto
São séculos que contêm o mistério
Profanado por guerras e mentiras
Terras que resistem à orgia crua
E que repetem no seu grito sério
Verdades ocultas no canto da lua

mongiardimsaraiva

2/07/2016

TRANSPIRO



Transpiro
Suspiro
Sensibilidade e algum talento
Alento que sustento
No meu retiro
Transpiro
Palavras frias
Alegorias e silêncio
Transpiro
E te admiro
Música e sentimento
Transpiro
No regaço do teu colo
Disciplina e pensamento
Transpiro
No meu lamento
Sol Solto
Sopro ao vento
Me refaço sob os elementos
Recomeço
Novo suspiro
Me inspiro

mongiardimsaraiva e Marcia Varricchio

1/30/2016

LIBERDADE - IGUALDADE - FRATERNIDADE

A liberdade azul sobrevive só na dor                    
Torpor que se instala e dilacera sem
Construir um novo caminho do amor
Cerrar dentes sem ajuda de ninguém
Descobrindo no amor o vil adultério
Escondido sem uma suspeita original
Ser livre a partir de um só mistério
Ganhar asas de prazer cru sem igual
A branca igualdade assim prevalece
Ao arrastar o ódio nos sentimentos
Morte prematura de um ser sofrido
Apagado pela gula fria da vingança
Morto duas vezes sem ter morrido
No único ser que lhe deu esperança
A fraternidade é um vermelho
Que divide o atropelo de alguém
A profunda solidão sem conselho
Juiz do meu chorar sem o além
Mulher fraterna ao sentir o porém
Que oferece o olhar que faz silenciar
Amando sem a carne inteira a latejar
Num doce aconchego sem um vintém
Como a onda que persiste e resiste
Ao ilusório mar fraterno que não tem

mongiardimsaraiva





12/28/2015

RESTOS DE MIM

Quando o vento me levar                                
Serei novelo varrido e solto
Envolto em penas pelo ar
Subirei no horizonte revolto
Para cair na incerteza do mar
O que restar de mim será teu
No amor que juntaste ao meu
Musa da cor e plena por criar

mongiardimsaraiva

12/15/2015

MEU SOL POENTE

Saí por uma rua sem nome                              
Fome do passado que não vi
No peito essa certeza enorme
De me olhar sem a vida que ri
Quis passar pela dura provação
Do ser sozinho e acompanhado
No dom e na imagem da razão
Ter-me a mim como um cajado
Desapegado inteiro conformado
Liberto das asas em que morri
Hoje sinto o que foi renovado
Ao passado dedico o presente
Que escorre limpo pelas veias
Sereias de um mar consciente
Que me trazem para as ideias
O sol nas ondas desse poente

mongiardimsaraiva

12/09/2015

CÂNTICO DE NATAL

Não adianta cantar o natal sem voz                                    
Lamento doce cristalino que sai de nós
É preciso honrar o espírito desse ideal
Erguer muralhas de pureza contra o mal
E perpetuar sentimentos com grandeza
Deixar no planeta um rasto de cometa
Ouvir das estrelas um eco que nos cala
Albergar no nosso asilo coisas sem fala
Abraçar simplicidades sós com gentileza
Abrir o coração para o grito da natureza
Ver na reunião mais do que uma mesa
E saborear as migalhas do nosso pão
Com devoção e louvor a essa estação
Cânticos sedentos de amor se elevarão
Magia dos sentimentos puros sem igual
Como nuvens do nosso céu romântico
Glorificando a nossa intenção de natal

mongiardimsaraiva

12/01/2015

VERSOS AO MEU AMOR

Dedico-me nestes versos ao amor                
Submersos e vivos no calor de nós
A voz que aqui ouves não sou eu
Apenas um eco daquilo que é teu
A ti te pertenço doce e confinado
O que buscas em mim será assim
Enviado num beijo só e desejado
O nosso caminho é a nossa lagoa
Serena e com reflexos da tua voz
Escuna que nos balança sem abrigo
Apenas náufraga daquilo que te digo
Sonhada e pura nascente até à foz

mongiardimsaraiva
(poema e imagem)

11/24/2015

ESCADARIA BRANCA

Um dia só após o outro                                                      
Caminho árido seco e louco
Muito pouco de pura fantasia
Não quero ofertar o meu sufoco
Às vezes quero ser o que não sou
Escolho a mentira e finjo que te dou
Perpetuo movimentos dentro de mim
Sou uma escada longa gasta e sem fim
Que se ergue reta e apontada para o céu
Já ouço o cântico dos louvores sem agonia
Vou subi-la aos poucos sem pisar essa alegria
Achar-te plena e sentada na luz dos nossos dias
Para lá das nuvens imersas no branco da tua paz
Docemente altiva segura ousada encantada e sagaz

mongiardimsaraiva
 


11/20/2015

NOSTÁLGICA

Se não sentes em mim a nostalgia                
Não quero que me chames poesia
Escorro sentimentos desfigurados
Agarrados a pedaços de fantasia
Sou um fracasso com asas de ti
Nunca te contei como o aprendi
Um véu que encerra o teu rosto
Pedaços de mim aqui sem esforço
Para te dar suavemente o encosto
Amolecendo o teu rosto que não ri
Sou o teu lado nostálgico e trágico
Que te leva na correnteza do rio
Frio que não arrefece o teu canto
Que guarda no encanto o teu vazio

mongiardimsaraiva

SONHO PRECÁRIO

Tudo não passa de um sonho    
Sonhado numa terra precária
Pária do tempo e do lamento
Uma desgraça no céu risonho
Momento na certeza primária
No rosto medonho sem alento
Veem-se perfilados os dentes
Ausentes doentes sem espaço
Sem língua terem para lamber
Palavras sem a noção do viver
Comprometidas sós e sem laço
Escorrem por entre o que faço
Letras pobres do meu ego ser
Tarde me arrasto mudo e cego
Pela lama da terra que não vejo
Duro excremento do meu ensejo
Que crio em pranto sem saber

mongiardimsaraiva
 

 


11/06/2015

AGONIA

Estou dentro de mim                          
Fortificado inerte atento
Sou o meu lamento assim
Agonizante só sem sustento
Do meu ser sou delirante
Excremento sem cor e fim
Nesta sociedade ultrajante
O vazio mata-me o instante
Leva-me ao fundo do meu ser
Morrer sem me ver para crer
Pensar é cruel na dura ilusão
Nada passa pela minha mão
Prisão fria suja e sem grades
Enredos que não são verdades
Enterram o meu corpo no chão

mongiardimsaraiva

11/03/2015

O LAMENTO DAS GARÇAS





A voz vinha do reduto das garças e assemelhava-se a um lamento, baixo e rouco. Olhei e não vi os pássaros. Tinham desaparecido sem deixar rasto, apesar do hábito de se reunirem sempre ali para dormir.

Costumavam passar aos bandos, pairantes sobre a cidade e provenientes de várias direções e lugares. Eram maravilhosamente brancas e emprestavam ao nosso céu um véu branco e magnífico de penas e plumas, num movimento sincronizado digno da mãe natureza.

Já era tarde e começava a escurecer, o que dificultava reconhecer aquele local e a presença delas. Aproximei-me devagar e procurei a velha árvore de galhos secos e cinzentos que servia de abrigo às garças, que um dia a tinham adotado como morada. Era ali que descansavam e se sentiam protegidas e unidas por um ideal irracional de pássaros, num gesto solidário e espontâneo. Procurei avançar mais um pouco e esforcei-me em reconhecer melhor o local, apesar da escuridão. Aos poucos, fui notando que o matagal em volta tinha desaparecido e a terra estava agora escura e seca, dando a impressão de ter sido mal tratada e desapropriada. Reconheci aos poucos, um cheiro a folhas queimadas que parecia exalar das profundezas da terra. Agora, eu estava certo de uma coisa; algo muito grave tinha acontecido àquelas aves. O local não era mais o mesmo e o lamento que eu tinha ouvido, denunciava algo muito sério e trágico.

Quando me preparava para voltar para casa, escutei de novo aquela voz baixinha e grave. O som, fez-me dar mais alguns passos e quando tudo parecia árido e sombrio, consegui notar a presença de alguns pontos brancos espaçados naquela clareira, que agora refletia uma cor pálida. Eram dezenas de animais imóveis, cansados e em silêncio. Conformados, tristes, solitários e que apesar de reunidos ali não tinham mais a sua velha árvore para dormir. Procuravam descansar naquele chão, corroído pelo fogo.

Senti a dor lancinante do desrespeito à natureza e suas formas magníficas. Tive a nítida certeza que, aquele som de lamento que escutara há instantes, fora o murmurar da terra compadecida com o choro daquelas garças brancas que se preparavam agora para dormir sobre as cinzas da sua velha árvore.    

mongiardimsaraiva  

10/30/2015

O AMOR NA MINHA VOZ

Ouvi uma vez aquela voz                                  
Que sussurrava gemidos
Contida no aperto dos nós
Queria apertar-me a sós
Como albatroz sem asas
Pairar por cima das casas
Nadar em círculos na foz
Na água funda do meu rio
Arrastar-me sem piedade
Entre as pedras sem idade
Senti o algoz da dor atroz
Que aguarda sereno e frio
O doce amor na minha voz

mongiardimsaraiva

Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)