7/17/2022

Campo de margaridas

Onde há flores,

Existem muitos amores

Transformados em cores,

Que inundam a montanha

Dos destroços alienados

Pela fome e pela guerra. 

Uma esperança que ondula

Pelo vale do nosso silêncio, 

Que dignifica o romper da aurora 

Em matizes de tons suaves. 

Um campo infinito de sonhos, 

Convida-nos a não esquecer

Que existe perfume e encanto,

Apesar das ruínas e do espanto.

São as agruras do sofrer

Que nos trazem vida e sorte,

Através do clamor de um campo.

Margaridas que nos abraçam 

E cantam sonhos de vida e pranto.

O silêncio é um pulsar constante, 

Feito do tempo e do vento

No confinar de um lamento.

Ausência que rasga o nosso instante,

Ao trazer-nos o beijo desse amante...


Mongiardim Saraiva

Sem metafísica

não existem mistérios

tudo é tão simples que cala

a metafísica é um jogo da mente

vil e dormente que nos embala

a terra é o celeiro da vida

que nos cria e nos dissolve

ossadas que ficam aí por ficar

o amor que achamos possuir

é a ilusão de estarmos vivos

para além da morte que somos

e do desejo de a perpetuarmos

assim não adianta criar deuses

nem sacerdotes e reis momos

apenas o respirar é quanto basta

em fluxos e refluxos de ar

que incham e desincham a carne

o ego não passa de uma cama

onde aguardamos sós e deitados

o dia em que apagar a nossa chama

mortos esquecidos e enterrados


Mongiardim Saraiva 


 

    

  




 



   

Uma rua cinzenta

uma rua cinzenta e deserta

sem artifícios e causas alheias

paz podre escancarada e aberta

casas sem cor antigas e feias

duas mesas com gente apagada

em cadeiras brancas e molhadas

pelo açúcar que escorre das taças

no sonho vil de uma vida sentada

lá vai o cachorro morto e sarnento

magro sedento e só nas alvoradas

talvez exista uma escada no céu

por onde desça às vezes um anjo

que dance as cantigas no lamento

nas quimeras e na alegria do banjo

tenho muita vontade de me ausentar

desta minha varanda fria e sem véu

vou descer aos confins do meu mar

para não ter de morrer sem ver o céu

sei que vou encontrar o meu corpo

envolvido nas algas e no sargaço

pelo manto das águas consternadas

à espera de mim que lhe pertenço

mãe que me embala no seu regaço


Mongiardim Saraiva 


Renúncia

sinto as letras desagregadas e sem norte

massacradas pela tristeza de não sorrirem

acabrunhadas ocas arredias e sem sorte

de vendavais e impropérios consentirem

por aqui a ganância cospe no prato vazio

numa mesa de pão esfarelado em migalhas

aos ricos é servida a abastança sem fastio

aos pobres é enviada a sorte numa mortalha

uma horda de matadores aclama o seu deus

que transita em atos de baixa estirpe louvados

aos que ousam contrariar a insânia do fariseu

é apontada a mira dos canhões consternados

a miséria tomou conta do país por inteiro

em forma de receitas que abonam o estado

tiranos maltratam a terra e as colheitas

em nome da soberba de um falso mercado

é tempo de escolhermos quem nos representa

em nome da vida e da esperança desejada

amadurecer a nossa alma firme e atenta

seguir o caminho da natureza sublimada


Mongiardim Saraiva 



Desinteressadamente

o desinteresse produz sonolência 

um desligar aos poucos que me entontece

que me puxa para uma zona de confluência 

como se a carne começasse a ser líquida 

e as veias vomitassem o suor de uma prece

o desmanchar das ideias é lento e sinuoso 

como um velho rio inerte entre montanhas amargas 

que lutam para se manter firmes e povoadas

ao ocaso pertence a minha súplica final

agonizante e bloqueada por miríades de estrelas

quero adormecer sem ter de recordá-las

como cardumes de prata que lutam na madrugada

sou apenas um músculo dentro de um só olho

vejo sombras que respiram em acordes finais

ouço o murmúrio das nuvens escuras e roucas

que gargalham ao longe e riem de mim

não quero desligar-me sem o consentimento da aurora

lutei muito com o tempo por esse mundo afora 

sou uma gárgula extasiada que regurgita o confim 

prefiro morrer do que ausentar-me aos poucos assim


Mongiardim Saraiva 

Afetos

que triste ter de ponderar o afeto

escolher as pessoas para poder recebê-lo

não fosse esse aspecto não haveria desafeto 

e gente que insiste em nunca tê-lo

quando me aproximo de alguém 

não posso deixar de sentir um porém 

carregado de dúvidas e de incertezas

procuro medir o que existe mais além 

como num jogo de verdades cruas e acesas

sou um fiscal nesse mundo seco e trivial

alivio a minha angústia com um café quente

faço apostas com o meu passado normal 

uso a minha miragem para me tornar ausente

insisto em segurar o meu afeto duro e total

sei que daqui a pouco tudo voltará ao normal 

sem sentir o perigo a rondar o meu presente 

o amor que transborda do meu ser é para alguém 

sei disso apesar de guardá-lo a sete chaves 

um dia transformar-se-á na espuma do vento

deixará de ser amor ou um afeto exacerbado

para pertencer à terra e aos confins do meu fado


Mongiardim Saraiva 


2/11/2021

Um brilho rarefeito



 O Natal diluiu-se numa simples taça, 

Onde todos os vestígios encontraram vida,

Decantada por um fogo de imagens raras. 

As velas derreteram e mostraram as cores;

Formas sugeridas pelo encanto e apreensão. 

Todos flutuámos naquele mar doce de vidro, 

Claro e transparente, como estátuas reféns 

Num acender e apagar sem sentido... 

Como se estivéssemos dependentes 

De um breve desfecho, arbitrário, surreal e imperfeito.

As flores teimaram em não desaparecer, 

Enquanto os reflexos das esferas do Natal 

Imanavam um brilho estelar, fugaz e rarefeito...


Mongiardim Saraiva

9/30/2020

 A Figueira

Cheguei de madrugada naquele lugar misterioso. Havia muitas camas e muitos corpos adormecidos. Fui recebido como um irmão, com simplicidade, desapego e muita fé. Trabalhei, rezei, comunguei e refleti. Fiz uma amizade. Ganhei a minha liberdade numa madrugada fria e sombria, mas promissora. Parti definitivamente em busca do meu amor.

Mongiardim Saraiva



9/24/2020

 O último abate

O velho Chico tinha o nariz adunco e mais parecia um cadáver ambulante. Naquele dia, saiu para caçar. A um estalo dos seus dedos, o motorista freou o velho Mercedes. Caçadeira por cima do vidro e dois tiros certeiros. Os cães salivavam loucamente, mas o velho Chico tombara antes daquelas perdizes. 

Mongiardim Saraiva




 O banho de enxofre

Entrei naquela banheira cheia de água, salpicada por pétalas que exalavam a enxofre. Mergulhei o meu corpo e alguns minutos depois comecei a ouvir uma voz melodiosa e muito jovem que atravessava a parede do quarto. Deslizei um pouco mais para baixo, fechei os olhos e comecei a relaxar. Extasiado, perplexo e incrédulo, pedi para que aquele momento se prolongasse como num sonho real e eterno.

Mongiardim Saraiva



7/01/2020

Raízes soberanas


 
                                         
                                       










A árvore possuía e perpetuava os belos corpos,
Esquálidos e entrelaçados no tronco delirante. 
Jovens iluminados por um campo verdejante,
Desnudados e adormecidos na seiva branca,
Escorriam pelos lapsos da minha ausência
Em espasmos doces e confinados à memória. 
Era eu um andarilho em busca da minha história...
Raízes que pudessem sustentar-me ao passado,
Na luz e no sol que sempre foram a minha glória.
Ao permanecer atento e alegre como uma sentinela,
Confinado às vozes sábias, ricas e soberanas,
Pude sentir o quanto almejava junto a mim,
A natureza de todo esse mistério sem fim...

Mongiardim Saraiva

5/12/2020

Terra apagada



Não te conheço mais,
Oculta em máscaras,
Ausências e desencontros
Nos horrores mortais
Da tristeza velada.
És uma réstia apagada,
Naquilo em que teimaste
E não quiseste, alucinada...
Já não suportas mais a tua dor,
Presa a ti sem a luz e o amor.
Queres libertar-te das tuas amarras
Para seres livre como um pássaro.
Poderes vagar pela imensidão do nada
E gritares o canto de uma terra consternada.
Sigo o teu pranto e conheço-te das madrugadas.
Sei que guardas no peito a prisão e a liberdade.
Sacudo-te entre as minhas mãos sem te magoar.
Sou da tua imensidão o mais fiel e dedicado guardião.
Lanço-me no teu perdão como nas profundezas do mar.
Aguardo-te sereno e renovado para passearmos de mão dada.
Não suporto mais a tua longa e permanente ausência.
Vem aliviar-me das máscaras, do álcool e das lacunas da guerra. 
Permite, ao menos, que construa contigo uma nova Terra...

Mongiardim Saraiva





4/11/2020

Doar é viver!













Doar é libertar um amor que está aprisionado
É sacudir a alegria de poder ajudar realmente
É o eco de um dom que encanta e não mente
É cortar as amarras do nosso receio confinado
Saborear o encanto de ajudar a quem precisa
Elevar a nossa missão ao altar da comunhão
Trazer de volta a esperança de voar com a brisa
Escutar o cântico dos anjos dentro do coração
Abrir portas em muitas portas de um outro portão
Caminhar em liberdade na alegria e no perdão
Olhar a floresta do alto de uma nuvem que chora
E fazer o bem que se quer por esse mundo afora
O mundo está cheio de quem não tem mais pão
Doar é celebrar a vida que escorre pela nossa mão

Mongiardim Saraiva

3/08/2020

Marsoalex



4036323326?profile=RESIZE_710x























M  uito
A  tônito
R  everencio
S  entimento
O  nipresente
A  mor
L  uto
E  scritora
X  amã

Mongiardim Saraiva






2/09/2020

A família Addams


Era uma vez, numa pequena estrada vazia onde costumava caminhar descontraído e tardiamente com a ajuda da natureza, mas que naquele dia ficara estranhamente transfigurada e apagada pela bruma.



O "carocha" azul claro estava lá, como de costume, estacionado no começo da pista e passava quase despercebido para quem passasse por ali. Era de um azul desbotado e gasto pelo tempo. Fazia lembrar um automóvel que há muito tinha sido utilizado e que escolhera aquele lugar para descansar para sempre. Os pneus não tinham cor e o pó era visível em toda a extensão das rodas.


Já não era a primeira vez que notava aquela presença misteriosa que sugeria alguém muito velho e com poucos recursos materiais. Nunca tinha visto ninguém entrar nem sair daquele carro, o que aguçava bastante a minha curiosidade.
Tudo ficou mais claro, quando naquele dia apareceu ao longe a silhueta de um grupo de pessoas que se arrastavam pela trilha numa postura cadenciada, cujo movimento dos braços fazia lembrar o pêndulo de um  velho relógio de sala. Eram quatro vultos longilíneos, ligeiramente arqueados e vacilantes. A sua postura não era de caminhantes atléticos, mas sim de penitentes conformados com o seu destino incerto. 


Quando se aproximaram, pude constatar a presença de uma família que se deslocava compassada e silenciosamente em fila indiana, rigorosamente pelo lado direito, de modo a permitir espaço a quem quisesse ultrapassá-los ou cruzasse o seu caminho.  Na frente, surgiu uma mulher muito magra, nova, de rosto feio e ossudo, pele baça de tom de azeitona e rosto sério, mas que curiosamente parecia preparada para um cumprimento casual em caso de necessidade. Logo atrás dela estava uma outra mulher um pouco menos magra e muito semelhante à primeira. Os traços eram os mesmos e somente o seu corpo era menos esquelético que o da sua irmã. O terceiro elemento daquela família era a matriarca, de meia idade, rosto mais aberto que fugia ligeiramente aos traços das filhas, apesar da expressão facial muito parecida. Por último, e a fechar a fila como guardião, a figura de um homem alto, muitíssimo magro e com o rosto exatamente igual ao das suas filhas, expressão responsável, olhar penetrante e um ligeiro sorriso de cordialidade. O mais impressionante neles era a capacidade de se deslocarem milimetricamente afastados uns dos outros, em espaços iguais e no mais absoluto silêncio. 


Uns dias depois, enquanto caminhava já tardiamente por aquele mesmo lugar na companhia da minha mulher, percebi que o velho carro, vazio e enigmático, ainda lá estava. O meu impulso foi dizer-lhe que já o avistara antes e que achava que conhecia os ocupantes daquele "fusquinha". Adivinhando os meus pensamentos, ela perguntou-me se eu sabia a quem pertencia. Falei que sim, que tinha praticamente a certeza de quem era, embora nunca tivesse visto pessoas perto do carro e muito menos dentro dele. Ela olhou-me admirada e reconheci no seu rosto uma certa relutância por aquele lugar e por aquela situação estranha e desconcertante.


Quando estávamos já no final do nosso percurso, talvez a uns quinhentos metros do final da pista, apareceram eles, tradicionalmente enfileirados e cambaleantes à nossa frente. Como de costume, muito chegados à direita e preparados para se cruzarem conosco numa atitude silenciosa de reverência e simpatia, apesar do ar estranho e da feiura desmedida.


Notei, na minha mulher, uma certa curiosidade no olhar e uma vontade de me perguntar qualquer coisa. Já não dava tempo. Eles estavam muito próximos de nós e qualquer deslize da nossa parte poderia causar estragos e provocar algum constrangimento naquele encontro mágico e inusitado. 


Não resistimos à tentação de nos virarmos para trás para conferir aquela família especial e misteriosa que acabara de passar e também para que pudéssemos ver se eles entrariam, efetivamente, naquele carro. Mas não foi isso que aconteceu. Seguimos aquele estranho cortejo com o olhar, até se tornarem uma pequena mancha quase indelével no final da trilha. A minha mulher, extasiada e maravilhada com aquele episódio, perguntou-me com um ar levemente sarcástico e divertido se eu nunca tinha visto, por acaso, uma pequena "mão" (autônoma, rápida, expressiva, com os dedos transformados em pernas) acompanhando-os alegremente como se pertencesse à família... Achei o comentário estranhíssimo e sem sentido. Parei por um momento, olhei para ela e fiquei a pensar. O que ela queria dizer com isso? Ah, mas só se... Claro, ela tinha razão. Nunca tinha pensado nisso! Esbocei um sorriso de cumplicidade e tornei a olhar aquele horizonte, em busca de uma confirmação. Podia ser essa a chave da solução... 


Quando fomos embora, o velho automóvel tinha desaparecido como que por encanto, apesar de nunca os termos visto entrar no carro e/ou escutado o ruído do seu motor.



Mongiardim Saraiva






1/31/2020

Ode à genialidade













não deixe o seu gênio encarcerado
nas masmorras frias e desconcertantes
não se esconda na selva social degradante
que o quer sem voz pálido e anulado
não se baste como um boneco só e articulado
deixe que a sua genialidade faça estragos
e lhe traga um cariz de verdade verdadeira
ouse capitanear o seu navio em águas desgovernadas
ouça o rugir das águas que estalam no cavername
e receba os salpicos das ondas poderosas no casco
abra os braços e sorria para o grasnar das gaivotas
seja terra e porto seguro para aqueles que o procuram
deixe-os levar um pouco daquilo que o faz diferente
nos tons do seu sentimento e na pureza do olhar
nunca deixe ninguém comandar o seu barco
ele é seu e está a si destinado e acorrentado
atreva-se a desejar o que de melhor tem a vida
ofereça-se à experiência de exibir a sua arte
e não se deixe morrer nunca sem mostrar genialidade
à vida ofereça o que de melhor existe em si
tenha muita coragem grite e solte as amarras
há sempre alguém que o espera na outra margem
pronto para abraçá-lo e levá-lo para casa
não tenha medo de perder a sua outra imagem
decente e condizente com o orgulho social
a vida são dois dias e o seu gênio é imortal


Mongiardim Saraiva

1/22/2020

Fantasia em sépia





















Quando abracei esse homem sem rosto,
Senti no seu raro perfume o meu tempo voltar;
De mulher bela e envolvida por um doce amar,
Nos braços quentes e ardentes desse encosto.
Imagens nuas em sépia fizeram-me transpirar
Por querer que nesse abraço pudesse sonhar.
Hoje sou uma mulher madura e realizada.
Aos devaneios devo a minha obra prima,
Encantada pela luz daquela madrugada
Que teima em me beijar no calor desta rima.

Mongiardim Saraiva


1/19/2020

Língua Portuguesa















Porque estou longe dela (pátria),
Mas carrego no peito o que ela me ensinou;
Palavras que são como abraços ou adagas
Que cravei na carne,
Na saudade daquilo que sou...


Mongiardim Saraiva

1/16/2020

Carta de Amor













Minha bela e doce amada,


A inspiração nua e crua provém de ti, ó Lua!


Quando saio pela rua, olho as casas, o céu e as pessoas. Mas à noite, só tenho olhos para ti, minha Lua. Na linda forma redonda, brilhante e só tua. Quando sorris para mim com malícia e me convidas, peço-te as carícias e os belos raios da tua essência.


Mandas-me um beijo e observas-me de longe, com paciência.
Quero sempre que desças e sonho convidar-te para um passeio. Mas quando te aproximas, olho-te curioso, apaixonado e com receio, já com saudades da tua ausência e radiante pela tua presença.


Vou levar-te para morar numa casa, longe e abandonada, onde possamos namorar em versos e estrofes do nada. Onde só tu e eu criaremos imagens e frases aladas.


E um dia voaremos juntos, pelo céu de muitas luas. Ficaremos íntimos e carentes, no brilho do teu luar. Anunciaremos então e por fim ao mundo, o dia em que iremos casar.


Do teu amoroso, ardente e eterno apaixonado,



Mongiardim Saraiva










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