7/18/2022

Inside

 o estalo do meu chicote

acorda a minha mágoa

que desliza por dentro de mim

como uma gárgula que assusta

e me entristece quando sorri

em trejeitos diabólicos e crus

cava sulcos na minha carne

e deixa transparecer quem sou

criatura vil que se esparrama

no vazio de uma cova que cava

aos poucos cheia de migalhas

ou às vezes saturada pelos restos

que apodrecem dentro de mim

preciso desse pesado castigo

para que possa acordar aos poucos

livre de quase todos os meus medos 

e preparada para te ouvir respirar

junto a mim como um irmão

quero sentir-te aprofundado

ramificado impregnado pesado

e avassalador como te criei

que possa sempre chamar-te 

à última morada do meu ser

para me trazeres a tua vontade

e o som breve e seco do teu estalar

naquele lugar que conhecemos

onde só tu e eu pertencemos


Mongiardim Saraiva 




O rugido do tempo

O tempo urge e ruge

Como um lobo faminto

Minto se ignoro como o sinto

As suas presas enterradas

No vazio da minha carne

Trêmula e de cor branca

Agulhas ensanguentadas

Que me perfuram sem dor

Na minha corrida pela sorte

Sou como uma bala perdida

Aos ziguezagues e sem norte

Morte serena e escondida

Sacio a minha sede louca 

Na água turva das fontes 

Que me lava a garganta rouca

Tento ser como um deles

Mas não consigo correr

Estou na floresta escura

Turva sombra do meu ser

Tropeço na minha bravura

Uso a minha lança dura

Sei que tenho de morrer 


Mongiardim Saraiva 


 

 

 

7/17/2022

Campo de margaridas

Onde há flores,

Existem muitos amores

Transformados em cores,

Que inundam a montanha

Dos destroços alienados

Pela fome e pela guerra. 

Uma esperança que ondula

Pelo vale do nosso silêncio, 

Que dignifica o romper da aurora 

Em matizes de tons suaves. 

Um campo infinito de sonhos, 

Convida-nos a não esquecer

Que existe perfume e encanto,

Apesar das ruínas e do espanto.

São as agruras do sofrer

Que nos trazem vida e sorte,

Através do clamor de um campo.

Margaridas que nos abraçam 

E cantam sonhos de vida e pranto.

O silêncio é um pulsar constante, 

Feito do tempo e do vento

No confinar de um lamento.

Ausência que rasga o nosso instante,

Ao trazer-nos o beijo desse amante...


Mongiardim Saraiva

Sem metafísica

não existem mistérios

tudo é tão simples que cala

a metafísica é um jogo da mente

vil e dormente que nos embala

a terra é o celeiro da vida

que nos cria e nos dissolve

ossadas que ficam aí por ficar

o amor que achamos possuir

é a ilusão de estarmos vivos

para além da morte que somos

e do desejo de a perpetuarmos

assim não adianta criar deuses

nem sacerdotes e reis momos

apenas o respirar é quanto basta

em fluxos e refluxos de ar

que incham e desincham a carne

o ego não passa de uma cama

onde aguardamos sós e deitados

o dia em que apagar a nossa chama

mortos esquecidos e enterrados


Mongiardim Saraiva 


 

    

  




 



   

Uma rua cinzenta

uma rua cinzenta e deserta

sem artifícios e causas alheias

paz podre escancarada e aberta

casas sem cor antigas e feias

duas mesas com gente apagada

em cadeiras brancas e molhadas

pelo açúcar que escorre das taças

no sonho vil de uma vida sentada

lá vai o cachorro morto e sarnento

magro sedento e só nas alvoradas

talvez exista uma escada no céu

por onde desça às vezes um anjo

que dance as cantigas no lamento

nas quimeras e na alegria do banjo

tenho muita vontade de me ausentar

desta minha varanda fria e sem véu

vou descer aos confins do meu mar

para não ter de morrer sem ver o céu

sei que vou encontrar o meu corpo

envolvido nas algas e no sargaço

pelo manto das águas consternadas

à espera de mim que lhe pertenço

mãe que me embala no seu regaço


Mongiardim Saraiva 


Renúncia

sinto as letras desagregadas e sem norte

massacradas pela tristeza de não sorrirem

acabrunhadas ocas arredias e sem sorte

de vendavais e impropérios consentirem

por aqui a ganância cospe no prato vazio

numa mesa de pão esfarelado em migalhas

aos ricos é servida a abastança sem fastio

aos pobres é enviada a sorte numa mortalha

uma horda de matadores aclama o seu deus

que transita em atos de baixa estirpe louvados

aos que ousam contrariar a insânia do fariseu

é apontada a mira dos canhões consternados

a miséria tomou conta do país por inteiro

em forma de receitas que abonam o estado

tiranos maltratam a terra e as colheitas

em nome da soberba de um falso mercado

é tempo de escolhermos quem nos representa

em nome da vida e da esperança desejada

amadurecer a nossa alma firme e atenta

seguir o caminho da natureza sublimada


Mongiardim Saraiva 



Desinteressadamente

o desinteresse produz sonolência 

um desligar aos poucos que me entontece

que me puxa para uma zona de confluência 

como se a carne começasse a ser líquida 

e as veias vomitassem o suor de uma prece

o desmanchar das ideias é lento e sinuoso 

como um velho rio inerte entre montanhas amargas 

que lutam para se manter firmes e povoadas

ao ocaso pertence a minha súplica final

agonizante e bloqueada por miríades de estrelas

quero adormecer sem ter de recordá-las

como cardumes de prata que lutam na madrugada

sou apenas um músculo dentro de um só olho

vejo sombras que respiram em acordes finais

ouço o murmúrio das nuvens escuras e roucas

que gargalham ao longe e riem de mim

não quero desligar-me sem o consentimento da aurora

lutei muito com o tempo por esse mundo afora 

sou uma gárgula extasiada que regurgita o confim 

prefiro morrer do que ausentar-me aos poucos assim


Mongiardim Saraiva 

Afetos

que triste ter de ponderar o afeto

escolher as pessoas para poder recebê-lo

não fosse esse aspecto não haveria desafeto 

e gente que insiste em nunca tê-lo

quando me aproximo de alguém 

não posso deixar de sentir um porém 

carregado de dúvidas e de incertezas

procuro medir o que existe mais além 

como num jogo de verdades cruas e acesas

sou um fiscal nesse mundo seco e trivial

alivio a minha angústia com um café quente

faço apostas com o meu passado normal 

uso a minha miragem para me tornar ausente

insisto em segurar o meu afeto duro e total

sei que daqui a pouco tudo voltará ao normal 

sem sentir o perigo a rondar o meu presente 

o amor que transborda do meu ser é para alguém 

sei disso apesar de guardá-lo a sete chaves 

um dia transformar-se-á na espuma do vento

deixará de ser amor ou um afeto exacerbado

para pertencer à terra e aos confins do meu fado


Mongiardim Saraiva 


2/11/2021

Um brilho rarefeito



 O Natal diluiu-se numa simples taça, 

Onde todos os vestígios encontraram vida,

Decantada por um fogo de imagens raras. 

As velas derreteram e mostraram as cores;

Formas sugeridas pelo encanto e apreensão. 

Todos flutuámos naquele mar doce de vidro, 

Claro e transparente, como estátuas reféns 

Num acender e apagar sem sentido... 

Como se estivéssemos dependentes 

De um breve desfecho, arbitrário, surreal e imperfeito.

As flores teimaram em não desaparecer, 

Enquanto os reflexos das esferas do Natal 

Imanavam um brilho estelar, fugaz e rarefeito...


Mongiardim Saraiva

9/30/2020

 A Figueira

Cheguei de madrugada naquele lugar misterioso. Havia muitas camas e muitos corpos adormecidos. Fui recebido como um irmão, com simplicidade, desapego e muita fé. Trabalhei, rezei, comunguei e refleti. Fiz uma amizade. Ganhei a minha liberdade numa madrugada fria e sombria, mas promissora. Parti definitivamente em busca do meu amor.

Mongiardim Saraiva



9/24/2020

 O último abate

O velho Chico tinha o nariz adunco e mais parecia um cadáver ambulante. Naquele dia, saiu para caçar. A um estalo dos seus dedos, o motorista freou o velho Mercedes. Caçadeira por cima do vidro e dois tiros certeiros. Os cães salivavam loucamente, mas o velho Chico tombara antes daquelas perdizes. 

Mongiardim Saraiva




 O banho de enxofre

Entrei naquela banheira cheia de água, salpicada por pétalas que exalavam a enxofre. Mergulhei o meu corpo e alguns minutos depois comecei a ouvir uma voz melodiosa e muito jovem que atravessava a parede do quarto. Deslizei um pouco mais para baixo, fechei os olhos e comecei a relaxar. Extasiado, perplexo e incrédulo, pedi para que aquele momento se prolongasse como num sonho real e eterno.

Mongiardim Saraiva



7/01/2020

Raízes soberanas


 
                                         
                                       










A árvore possuía e perpetuava os belos corpos,
Esquálidos e entrelaçados no tronco delirante. 
Jovens iluminados por um campo verdejante,
Desnudados e adormecidos na seiva branca,
Escorriam pelos lapsos da minha ausência
Em espasmos doces e confinados à memória. 
Era eu um andarilho em busca da minha história...
Raízes que pudessem sustentar-me ao passado,
Na luz e no sol que sempre foram a minha glória.
Ao permanecer atento e alegre como uma sentinela,
Confinado às vozes sábias, ricas e soberanas,
Pude sentir o quanto almejava junto a mim,
A natureza de todo esse mistério sem fim...

Mongiardim Saraiva

5/12/2020

Terra apagada



Não te conheço mais,
Oculta em máscaras,
Ausências e desencontros
Nos horrores mortais
Da tristeza velada.
És uma réstia apagada,
Naquilo em que teimaste
E não quiseste, alucinada...
Já não suportas mais a tua dor,
Presa a ti sem a luz e o amor.
Queres libertar-te das tuas amarras
Para seres livre como um pássaro.
Poderes vagar pela imensidão do nada
E gritares o canto de uma terra consternada.
Sigo o teu pranto e conheço-te das madrugadas.
Sei que guardas no peito a prisão e a liberdade.
Sacudo-te entre as minhas mãos sem te magoar.
Sou da tua imensidão o mais fiel e dedicado guardião.
Lanço-me no teu perdão como nas profundezas do mar.
Aguardo-te sereno e renovado para passearmos de mão dada.
Não suporto mais a tua longa e permanente ausência.
Vem aliviar-me das máscaras, do álcool e das lacunas da guerra. 
Permite, ao menos, que construa contigo uma nova Terra...

Mongiardim Saraiva





4/11/2020

Doar é viver!













Doar é libertar um amor que está aprisionado
É sacudir a alegria de poder ajudar realmente
É o eco de um dom que encanta e não mente
É cortar as amarras do nosso receio confinado
Saborear o encanto de ajudar a quem precisa
Elevar a nossa missão ao altar da comunhão
Trazer de volta a esperança de voar com a brisa
Escutar o cântico dos anjos dentro do coração
Abrir portas em muitas portas de um outro portão
Caminhar em liberdade na alegria e no perdão
Olhar a floresta do alto de uma nuvem que chora
E fazer o bem que se quer por esse mundo afora
O mundo está cheio de quem não tem mais pão
Doar é celebrar a vida que escorre pela nossa mão

Mongiardim Saraiva

3/08/2020

Marsoalex



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M  uito
A  tônito
R  everencio
S  entimento
O  nipresente
A  mor
L  uto
E  scritora
X  amã

Mongiardim Saraiva






2/09/2020

A família Addams


Era uma vez, numa pequena estrada vazia onde costumava caminhar descontraído e tardiamente com a ajuda da natureza, mas que naquele dia ficara estranhamente transfigurada e apagada pela bruma.



O "carocha" azul claro estava lá, como de costume, estacionado no começo da pista e passava quase despercebido para quem passasse por ali. Era de um azul desbotado e gasto pelo tempo. Fazia lembrar um automóvel que há muito tinha sido utilizado e que escolhera aquele lugar para descansar para sempre. Os pneus não tinham cor e o pó era visível em toda a extensão das rodas.


Já não era a primeira vez que notava aquela presença misteriosa que sugeria alguém muito velho e com poucos recursos materiais. Nunca tinha visto ninguém entrar nem sair daquele carro, o que aguçava bastante a minha curiosidade.
Tudo ficou mais claro, quando naquele dia apareceu ao longe a silhueta de um grupo de pessoas que se arrastavam pela trilha numa postura cadenciada, cujo movimento dos braços fazia lembrar o pêndulo de um  velho relógio de sala. Eram quatro vultos longilíneos, ligeiramente arqueados e vacilantes. A sua postura não era de caminhantes atléticos, mas sim de penitentes conformados com o seu destino incerto. 


Quando se aproximaram, pude constatar a presença de uma família que se deslocava compassada e silenciosamente em fila indiana, rigorosamente pelo lado direito, de modo a permitir espaço a quem quisesse ultrapassá-los ou cruzasse o seu caminho.  Na frente, surgiu uma mulher muito magra, nova, de rosto feio e ossudo, pele baça de tom de azeitona e rosto sério, mas que curiosamente parecia preparada para um cumprimento casual em caso de necessidade. Logo atrás dela estava uma outra mulher um pouco menos magra e muito semelhante à primeira. Os traços eram os mesmos e somente o seu corpo era menos esquelético que o da sua irmã. O terceiro elemento daquela família era a matriarca, de meia idade, rosto mais aberto que fugia ligeiramente aos traços das filhas, apesar da expressão facial muito parecida. Por último, e a fechar a fila como guardião, a figura de um homem alto, muitíssimo magro e com o rosto exatamente igual ao das suas filhas, expressão responsável, olhar penetrante e um ligeiro sorriso de cordialidade. O mais impressionante neles era a capacidade de se deslocarem milimetricamente afastados uns dos outros, em espaços iguais e no mais absoluto silêncio. 


Uns dias depois, enquanto caminhava já tardiamente por aquele mesmo lugar na companhia da minha mulher, percebi que o velho carro, vazio e enigmático, ainda lá estava. O meu impulso foi dizer-lhe que já o avistara antes e que achava que conhecia os ocupantes daquele "fusquinha". Adivinhando os meus pensamentos, ela perguntou-me se eu sabia a quem pertencia. Falei que sim, que tinha praticamente a certeza de quem era, embora nunca tivesse visto pessoas perto do carro e muito menos dentro dele. Ela olhou-me admirada e reconheci no seu rosto uma certa relutância por aquele lugar e por aquela situação estranha e desconcertante.


Quando estávamos já no final do nosso percurso, talvez a uns quinhentos metros do final da pista, apareceram eles, tradicionalmente enfileirados e cambaleantes à nossa frente. Como de costume, muito chegados à direita e preparados para se cruzarem conosco numa atitude silenciosa de reverência e simpatia, apesar do ar estranho e da feiura desmedida.


Notei, na minha mulher, uma certa curiosidade no olhar e uma vontade de me perguntar qualquer coisa. Já não dava tempo. Eles estavam muito próximos de nós e qualquer deslize da nossa parte poderia causar estragos e provocar algum constrangimento naquele encontro mágico e inusitado. 


Não resistimos à tentação de nos virarmos para trás para conferir aquela família especial e misteriosa que acabara de passar e também para que pudéssemos ver se eles entrariam, efetivamente, naquele carro. Mas não foi isso que aconteceu. Seguimos aquele estranho cortejo com o olhar, até se tornarem uma pequena mancha quase indelével no final da trilha. A minha mulher, extasiada e maravilhada com aquele episódio, perguntou-me com um ar levemente sarcástico e divertido se eu nunca tinha visto, por acaso, uma pequena "mão" (autônoma, rápida, expressiva, com os dedos transformados em pernas) acompanhando-os alegremente como se pertencesse à família... Achei o comentário estranhíssimo e sem sentido. Parei por um momento, olhei para ela e fiquei a pensar. O que ela queria dizer com isso? Ah, mas só se... Claro, ela tinha razão. Nunca tinha pensado nisso! Esbocei um sorriso de cumplicidade e tornei a olhar aquele horizonte, em busca de uma confirmação. Podia ser essa a chave da solução... 


Quando fomos embora, o velho automóvel tinha desaparecido como que por encanto, apesar de nunca os termos visto entrar no carro e/ou escutado o ruído do seu motor.



Mongiardim Saraiva






1/31/2020

Ode à genialidade













não deixe o seu gênio encarcerado
nas masmorras frias e desconcertantes
não se esconda na selva social degradante
que o quer sem voz pálido e anulado
não se baste como um boneco só e articulado
deixe que a sua genialidade faça estragos
e lhe traga um cariz de verdade verdadeira
ouse capitanear o seu navio em águas desgovernadas
ouça o rugir das águas que estalam no cavername
e receba os salpicos das ondas poderosas no casco
abra os braços e sorria para o grasnar das gaivotas
seja terra e porto seguro para aqueles que o procuram
deixe-os levar um pouco daquilo que o faz diferente
nos tons do seu sentimento e na pureza do olhar
nunca deixe ninguém comandar o seu barco
ele é seu e está a si destinado e acorrentado
atreva-se a desejar o que de melhor tem a vida
ofereça-se à experiência de exibir a sua arte
e não se deixe morrer nunca sem mostrar genialidade
à vida ofereça o que de melhor existe em si
tenha muita coragem grite e solte as amarras
há sempre alguém que o espera na outra margem
pronto para abraçá-lo e levá-lo para casa
não tenha medo de perder a sua outra imagem
decente e condizente com o orgulho social
a vida são dois dias e o seu gênio é imortal


Mongiardim Saraiva

1/22/2020

Fantasia em sépia





















Quando abracei esse homem sem rosto,
Senti no seu raro perfume o meu tempo voltar;
De mulher bela e envolvida por um doce amar,
Nos braços quentes e ardentes desse encosto.
Imagens nuas em sépia fizeram-me transpirar
Por querer que nesse abraço pudesse sonhar.
Hoje sou uma mulher madura e realizada.
Aos devaneios devo a minha obra prima,
Encantada pela luz daquela madrugada
Que teima em me beijar no calor desta rima.

Mongiardim Saraiva


Destaque

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Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)