2/17/2014

TEATRALIZAÇÃO

Teatralizamos até quando nos olhamos,                        
Bichos estúpidos, carentes e humanos.
Contra nós pensamos e nos imolamos.
Como podemos nos achar superiores,
Se não sabemos cultivar os amores?
Quanto mais avançados, mais ilhados
E preparados para invejar e arrotar;
Excrescências, riquezas e vitórias...
Muito aquém das nossas histórias;
Pálidas, rotineiras, vis e sem graça.
O que nos falta para ser e crescer?
A natureza ainda vive e nos aguarda,
Como se quisesse ser complacente,
Com quem mente e usa espingarda.

mongiardimsaraiva

2/16/2014

O RISO DAS CONCHAS

Textos que habitam as ondas                      
E sabem ao sal das maresias,
Provocam o riso das conchas;
Dos cardumes, são doce empatia.
No passar pelo frio das águas,
Depuram-se tristezas e mágoas.
Guardam-se segredos e enredos.
As letras nadam na corrente
E a espuma lambe as pedras;
Húmidas e escassas que beijam,
Em ensejos de graça e quimeras.
Não fosse o som de uma gaivota,
Tudo pareceria um mar das frases,
Capazes, perdidas e sem rota...

mongiardimsaraiva



TRANSPARÊNCIAS

Procuro ser transparente;                          
Quero ver através de ti.
Aprender a ser paciente;
Encontrar o que refleti.
O vidro é transparência,
Como a água da fonte.
Espelho da tua ciência;
Margens de uma ponte.
A verdade me encanta,
Envolve e se agiganta;
Não há dúvidas cruéis.
Invertem-se os papéis;
Não existe a escuridão.
À noite; pura reflexão.
De dia; brilho e magia.

mongiardimsaraiva



2/13/2014

A CARNE

A carne é saborosa,                                    
Podre e indecorosa...
Não se compara a uma rosa,
Quando exala o seu perfume.
É boa para estrume;
Fraca, trémula e maldosa.
Na flor, reside o Amor.
Na outra, o vil estertor...
O mundo venera a carne,
Do carnaval e do efémero;
Sem sangue, não te graça...
Apunhalem a vossa carcaça
E bebam o líquido vermelho.
Quando olharem no espelho,
Vejam a carne a apodrecer...
Não se esqueçam de chorar;
A carne tem de morrer...

mongiardimsaraiva

2/12/2014

PRINCESAS

No tempo em que eu mais quis,
Recebi das nuvens, um presente;
A linda, bela e rosada; Beatriz...
Estava no céu do meu castelo.
O dom de ser pai, era o mais belo
E quando parei para olhar para trás,
Vi ao longe, uma estrada sinuosa...              
Marcada por curvas sérias; perigosas.
Lições de vida constantes; sofridas.
Muitas pedras escondidas e rugosas...
Achei que o destino estivesse traçado.
E quando tudo isso parecia o meu fado,
Veio Laura, para coroar o meu reinado.
Princesa agitada; senhora apressada...
A minha corte, estava assim reunida.
Pude escutar o som de muitas vozes;
Proclamavam alto, a minha história...
Beatriz e Laura, eram a minha glória.
Consegui sentir o apelo dessa missão;
Mostrar àquelas formosas damas,
O caminho do afeto e da união...

mongiardimsaraiva




2/10/2014

SENTINELA ALERTA

Sentinela alerta!!!                            
Alerta está!!!
Soldados, de pé...
A guerra começou.
É preciso salvar a fé;
O ódio se entregou.
Corram sem as armas
E construam os karmas.
Troquem as pistolas,
Por pão e por esmolas.
Usem a razão e a união.
Ergam templos de oração.
Fechem a porta da guerra.
Construam casas na terra
E exércitos de salvação...

mongiardimsaraiva






2/09/2014

USINA POÉTICA

Escrevo e me atrevo,                                      
A mostrar-te o que devo.
Sou um mentor sem torpor.
Atinjo o calor do meu ser,
Às vezes, para me entreter.
Mas sempre ligado à verdade.
Não quero parecer um covarde.
Sou um confessor do meu amor,
Mesmo que te provoque a dor.
Às palavras, destino um desfecho.
Quero que fiquem exaustas, soltas
E se entrelacem, em orgias gozadas.
Disfrutem no aconchego do poema
E permaneçam vazias e estilizadas,
Num fino lapso atemporal de fonema.
Pareçam belas, sem tu teres pena;
Apelo urgente, reservado e informal.
Ensejo premente; prazer sem igual.

mongiardimsaraiva

2/08/2014

GENESIS

O estranho túnel do tempo...

A magistral música ambiente;

Sons cavos do túnel da mente,

Tempo duma memória recente.

Danças reminiscentes; tribais,

Embalos perdidos e ancestrais...

Canais abertos; passado e presente.

Ondas decorrentes; sons dormentes,

Vibrações certeiras; sempre primeiras...

Mergulhos profundos; velozes, imundos,

No descompasso das nossas noções...

Corações impregnados de amor e súor.

Jargões pesados, lançados no espaço...

Lambendo as covas da nossa garganta,

Em lamúrias santas e profanas de bagaço;

"Eu sei perfeitamente o que eu faço"...



mongiardimsaraiva


2/06/2014

ÁGUA

Cai a água muito aguada;                                
Desaguada em aguaceiro.
Rega os campos primeiro
E refresca a madrugada.
Seja bem vinda no calor
E no fogo cruel do amor.
Caia em forte enxurrada,
Para apagar a nossa dor.
Hoje te procuro ó água;
Ávido, seco e sedento...
Ouve bem esse lamento;
Afoga já a minha mágoa.

mongiardimsaraiva

2/02/2014

ENTREGA

Quando não tiveres o mar,                            
Sente na terra o teu pulsar.
Corre e abre os teus braços;
Precisas de muitos abraços.
Declama alto os teus versos,
Às correntes fortes dos rios.
Que levarão para longe o frio
E te trarão conforto e estio.
Conversa com a tua natureza;
Ela é branda, linda e amena.
Quero que tenhas a certeza,
Que tudo é belo e te acena.
És parte do sol, quando reza.
Da lua, quando diz um poema.
Todo o universo se contorce,
Escangalha, gargalha e tosse,
Para te ajudar a achar a sorte.
Querem te levar para bem longe,
Onde só encontrarás as nuvens;
Muito para lá do sul e do norte.
Brancas e espessas de paixão;
Leito macio, sereno e sem morte.

mongiardimsaraiva







1/31/2014

ENTRE QUATRO PAREDES

Estou entre as quatro paredes...                      
Não ouso esconder o meu pranto.
Quero prolongar a minha sede;
Não bebo, não falo, não canto...
Sou o mentor do meu profano;
Não vejo, não rio; sou espanto...
Acabo de possuir o teu encanto;
Sagrado, leviano, aceso; humano.
Nas paredes brancas me afoito,
Embriagado e enrolado num oito.
Sou a imaculada prisão do branco;
Leve, informal e inimiga do mal...
Entre o chão e o teto, me revejo;
Nesse cubo branco e oco; perfeito.
O alimento entre as quatro paredes,
São palavras que escapam das redes
E ampliam o bater do meu peito...

mongiardimsaraiva

1/30/2014

A CROSTA DAS MÁGOAS

A poesia não tem rosto,                  
Não fala e pensa, nem ri...
Ela faz parte do vento;
Sopra e geme aqui dentro,
Desde o dia em que a vi...
Resiste, transgride e acena,
Numa doce calma serena;
Brisa de um mar que senti...
Tudo fica suspenso nela;
As árvores, a vida e a terra,
Os homens, a lua e as águas.
Uma névoa cobre a guerra
E um choro sentido de vela,
Dilui a crosta das mágoas...

mongiardimsaraiva



1/20/2014

A GRANDE RODA SUFI

A roda gira,
Gira sempre,
Sempre gira,
Sem parar...
O Homem sente,
A sua mente;
Transcendente,
Sem notar...
E uma semente
De todo o Amor;
Grande mentor,
Poderá germinar
E estar presente
Em todas as rodas...
Como lembrança
E dávida presente,
A todos os seres;
Que a dançam,
Infinitamente,
Harmoniosa,
No seu girar,
Sem parar...

mongiardimsaraiva

1/18/2014

THE HOST OF SERAPHIM


Prece sublime,
Doce lamento,
Contato profundo,
Denso momento...
Vozes e súplicas;
Rituais de encanto,
Magia e oração,
Pedindo conexão...
Sacrifício e entrega;
Somos o poder,
Mística da guerra...
A riqueza das vozes;
Ancestralidade pura,
Clama por um deus,
Antes do adeus...

mongiardimsaraiva



1/16/2014

ODE AO SILÊNCIO

Não suportas o mudo silêncio?                          
Ele te incomoda, assim tanto?
Para mim, é dádiva e espanto;
Doce presença do ar que respiro.
Sensação leve, em movimento...
O silêncio não fala alto, nem ri;
Junta-nos aos seres e a ti...
Silenciar, é ouvir a voz das coisas
E reparar que não somos só nós...
Os silêncios, ampliam a nossa voz
E nos conduzem por vales e rios;
Pomares de frutos amadurecidos...
Sem silêncio, tornamo-nos frios;
Caóticos, confusos e poluídos...

mongiardimsaraiva



1/14/2014

A PASSAGEM

Pode ser breve e delicada,                              
Como um magro fio de cabelo...
Dolorosa, sangrenta e pesada;
Longa, como um denso novelo...
Segura e leve; quando preparada.
Persistente e amarga; alienada...
Prepará-la, exige aceitação,
Compaixão e compreensão.
Exercício da razão; sem noção...
Entrega total ao tudo e ao nada.
Quando a vida e a morte se beijam,
Existe um espaço que é do vazio;
Confluência do calor e do frio...
Lugar florido, onde a tristeza jaz;
Ponto impregnado de compaixão,
Onde não tem choro ou lamentação.
Perpétuo abrigo do Amor e da Paz...

mongiardimsaraiva








1/12/2014

BRUMA

Avanço pela bruma;                                  
Deixei de ver o chão...
O ar parece espuma;
O céu não tem perdão...
Já não há mais terra;
Não existe outra razão...
Sou fruto dessa guerra;
Não terei mais o pão...
Vou voar para longe;
Onde sinta o coração...
Meditar como monge;
Aceitar a escuridão...

mongiardimsaraiva

1/10/2014

AS FASES DA LUA

Linda lua nova, lua nova;                      
És criança e és a prova.
Nascida de uma semente,
Trazes a alegria e o presente,
Cantados numa linda trova
E vividos em quarto crescente.
Bela lua cheia, lua cheia;
Encantas a mulher e a sereia.
Do poeta e do lobo, és amante.
Entras inspirada e ofegante,
Nas noites claras, sem candeia.
Hoje, vejo-te sozinha e pensante;
Prenúncio de quarto minguante.

mongiardimsaraiva

1/05/2014

NA CRISTA DAS ONDAS

A bela musa aproximou-se esvoaçante,                      
Em movimentos ondulantes e marcantes...
Apoderou-se do meu ser, tímido e pacato,
Num abraço de alegria, beleza e predicado;
Como uma cigana colorida por mil cores,
Alegre, petulante e rica em seus odores...
A minha sorte estava quase a ser lançada,
Nessa dança fútil, contagiante e sagrada...
Queria poder obedecer aquele forte impulso
E para isso, deixei a minha musa dançar...
E mostrar as doces formas redondas...
Respirar e confirmar o desejo profundo,
De navegar na crista das nossas ondas...

mongiardimsaraiva

1/03/2014

O ANZOL

Sou cada vez mais um ser                          
Encerrado no meu parecer...
Isso para mim é até bom,
Já que me basta ter o dom
De fazer e viver, sem temer...
Os outros, já não estranham;
Pensam que estou resolvido...
Dos males curado e protegido;
Entregue aos dias que venham...
Na verdade, sou só um aprendiz,
Iniciado nas escolhas que eu quis.
Volátil e cego na claridade do sol;
Fácil de pescar, com um anzol...

mongiardimsaraiva

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Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)