2/23/2015

MOSCAS

Moscas moscas moscas                                            
Toscas grandes insistentes
Presentes em sujos bacanais
Ardentes fartos e indecentes
Pousam e posam nos currais
Lambem as feridas grupais
São os aviões dessa guerra
Que lança as bombas fatais
Zumbidos surdos e bêbados
Armas de fogo sem soldados
Pairam como gigantes alados
Na luz do calor da nossa dor
Jazem já pútridas as infames
Como gargalos que escorrem
Venenos de sangue sem cor

mongiardimsaraiva


 

2/20/2015

BUCÓLICA

Sem proferir uma queixa                                      
Beijarei a minha gueixa
Linda gentil e serviçal
Corpo sedoso e material
Deusa dos meus sonhos
Uma dádiva materializada
Mulher com olhos risonhos
Quero perpetuar em concha
Longas noites nesse orvalho
Nos campos ser o espantalho
De corvos águias e pássaros
Sentir o cibilar do nosso trigo
Em correntezas de ar fresco
Cheirar a doce palha contigo
E gemer cantigas de amor
No torpor do nosso abrigo

mongiardimsaraiva


2/10/2015

NOITE SEM LUZ

Procuro acariciar-te                                      
Persigo o teu passo
Beijos quero dar-te
Perto do teu abraço
Penso em amar-te
Deixar-te não faço
Sou o teu parceiro
Dos dias sem luz
Na cruz derradeiro
Morro só primeiro
Que a tua alegria
De seres escrava
De muitas orgias
Que ao dia conduz

mongiardimsaraiva





2/09/2015

JAZIDA

Apodrecimento vil e generalizado                                      
Homens e mulheres como o gado
Numa trilha sem chão e sem mata
Profunda ilusão na escuridão escapa
Raízes profundas se desagregaram
Da terra molhada e ensanguentada
Os vermes frios não puderam fugir
Ao descaso e à pobreza se juntaram
O dinheiro traçou sulcos e gerou pós
Tristeza que jaz a dois passos de nós

mongiardimsaraiva

2/06/2015

O LAMBER DAS FERIDAS

A noite veio lamber as feridas                                          
Causadas pela luz clara e cruel
Molhou e beijou todas as crostas
Chamou-as de queridas sem fel
E encerrou-as a sós como ostras
Dentro de uma sala de partidas
Sem destino e sem gosto de mel
A dor foi hoje mergulhada no rio
E os restos flutuaram sem navio
Gotas de sangue em água escura
Sem cinzas e lixos de amargura
Até ao raiar do dia novo e claro
Que aguarda as próximas noites
Como pedaços de um amor raro

mongiardimsaraiva

2/05/2015

ALCOVA

Quem nos ama esquece a nossa tristeza insana                                  
E ainda ri na nossa cama com a boca que aquece
Contagia a nossa pele com os odores perfumados
E entoa na voz do amor belos acordes amaciados
Pela doce vida longa desses afagos perpetuados
Com regozijo invocados nos cânticos da nossa fé
Tudo é motivo e abrigo para o fervor e esplendor
Dor sem dor que se aninha na alcova e esquece
De viver os dias do desamor e quase enlouquece

mongiardimsaraiva

MELANCOLIA

 Não observo nada em volta
Apenas fluxos descontínuos
Confundidos e sem escolta
Coisas que andam por andar
Sem um motivo e sem parar
Olhos pesados vazios irados
Que observam esbugalhados
Vidas que escoam pelo ralo
Triste compasso de um pesar
Por onde passam sem amar
Sem doces ritmos e embalos
Cadência triste vaga sombria
Beijando a nossa noite fria
Que nos deixa sem amá-los

mongiardimsaraiva

                                  

2/03/2015

ABRAÇO

Abro os braços para ti                                        
Sinto o teu corpo a abrir
A minha alma deliciada ri
Do amor indolor sem sentir
Somos corpos navegantes
Num mar sem ondas e vagas
Natureza aclama verdejante
Terra enxuga nossas mágoas
Quero te deixar uma semente
Madura serena e proclamada
Por nós e por essa alegria só
Fruto eterno da carne e do pó
Na tua carente e casta morada

mongiardimsaraiva

1/17/2015

MUDANÇAS

Resisto às novas mudanças profundas                                
Sou a espada de um velho guerreiro
O meu paradeiro é a minha memória
Sinto uma vontade imensa de glória
Mas permaneço atento e à escuta
Quero perceber os sinais dessa luta
Que flui nesse verão de muito calor
Como se a razão derretesse o sabor
E as lágrimas fossem sempre adiadas
Eternamente ocultas sós e guardadas
Em rostos que expressam o novo amor

mongiardimsaraiva

8/11/2014

A VERDADE NUA E CRUA

Quero encontrar o meu alimento                                
Procurar sustentos que não tenho
Estou perdido no meio do rebanho
Sinto o gelo molhado da montanha
O frio corta-me todas as entranhas
Sou apenas a carne exposta e crua
Expulsaram-me sem dó da minha rua
A verdade obriga-me a ser verdade
E a procurar o alimento nas estrelas
Sustentar a matéria à luz das velas
Improvisar hinos e canções de glória
Renunciarei amargo à minha história
Serei um arauto de outras certezas
Não pedirei dinheiro às sociedades
Procurarei as ideias e as saudades
Como um espírito que vive do Amor
Das contemplações sem sentir dor

mongiardimsaraiva


7/20/2014

VERSOS SOLTOS

Escuto os sons cristalinos                        
Música expansiva dos sinos
Mente sagaz contemplativa
Leituras breves e precisas
Viagens aladas e sem volta
Idas marcadas sem revolta
Paisagens eleitas no espaço
Nos braços do eco do som
Meu profundo e amigo tom
Abro as asas e me comovo
Sou um pássaro desse chão
Subo ao céu do meu perdão
Quero ser uma estrela acesa
Acima da terra e da riqueza
Energias ligam-me à mente
Semente da minha natureza
Sou teu espaço para sempre
Aqui neste repente presente

mongiardimsaraiva

7/19/2014

ROTINAS

O regresso à dura rotina,                            
Nas formas categóricas
Do arrastado rame rame,
Que todos dizem infame.
Sem belezas eufóricas,
Acorrentadas na ilusão;
Escravizada a sugestão.
Dependemos de rotinas;
Das órbitas e das marés.
A energia vem do pulsar,
Do andar dos nossos pés.
Assim sou rotineiramente,
Rotina que não quer ser.
Que teima em desprezar,
Nossa rotina permanente.

mongiardimsaraiva







7/17/2014

NO LIMIAR

Estou no limiar da espera,                                      
Que me espera sem pesar.
Ainda respiro o ar devagar
E sinto a madrugada fria.
Uma língua de terra vazia,
Sem árvores e sem flores,
Limita a minha empatia;
Íngua dos meus amores,
Sozinha e sem as dores.
O tempo cerca-me agora,
Sem máscaras e anseios.
Quer mandar-me embora,
Pela bruma e sem rodeios.
Mudo, resisto às esperas
Sem ponderar os receios.
Apesar do pouco que veja,
Quero sentir nessa quimera,
Uma só fantasia que seja...

mongiardimsaraiva


7/11/2014

MARIPOSA

Abri a minha carta...                                      
Havia uma borboleta
Morta e seca, sem cor.
No papel manchado,
O desenho do pólen
Das asas de uma dor.
Quem assim a enviou,
Sofreu no duro amor
A saudade que ficou.
Agradeço-te meu pai,
Essa doce lembrança
Com asas de condor.
Deixaste-a suspensa
Para sempre em mim,
Mariposa morta e viva,
Musa do meu jardim...

mongiardimsaraiva

DESUMANIZAÇÃO

Humanização perdida no tempo.                                  
Esfumado o alento e a relação.
Não existe mais coração lento.
Tudo é rápido, vil e sangrento,
Como a guerra sem sentimento.
Efémeras batalhas entre irmãos.
Quem sobrevive a esse lamento,
Seca as suas lágrimas nas mãos
E padece do amor sem sustento.
Não há rajadas do nosso vento.
Tudo é vago, cru, seco e vão.
Pão frio, leve e sem fermento.

mongiardimsaraiva

7/08/2014

DESTROÇOS

A falta de profundidade,                              
Encalha todos os corpos
Na areia fina e movediça
Que arrasta sem piedade,
Esconde, suja e enfeitiça...
No lodo estão os destroços
Da nossa barcaça perdida,
Que jaz sem cor de justiça.
Quem mergulhar os ossos
No frio cruel da despedida,
Verá uma pérola escondida,
Brilhante, pura e radiante;
Carente dos destroços...

mongiardimsaraiva

7/07/2014

CÉUS E CURAS

Os dias são todos iguais;                                    
Pardais que só esvoaçam
Em bandos sós e desiguais.
Céu que teima em ser azul,
De norte a sul; sem nuvem.
Noites escuras que rugem
E encerram a madrugada.
Não vejo luzes; só cruzes,
Nessa terra sem mutação.
A oração não toca o céu;
Arrasta-se sem compasso.
À deriva e passo a passo.
Quando chegar a chuva,
O céu poderá escurecer
E abrigar a noite madura.
Os dias trarão essa cura
E mais um sopro do viver.

mongiardimsaraiva




6/24/2014

FIO AGONIZANTE

Escorraçado e sem limite,                                  
Um só fio, escorre isolado.
Quase parado; agonizante.
Águas podres sem nascente,
Perpetuam o caos delirante.
Uma reserva escassa e pura,
Quer beijar o nosso campo.
O pranto acenderá a chama;
Laços perdidos e sem cura.
Pó, transformado em lama,
Deitando-nos nessa cama
De mortalha fria e escura.

mongiardimsaraiva

6/15/2014

O VOO DO ALBATROZ

O teu talento é o teu sustento...                                        
Envolve o teu ser de sentimento
E transforma-te em energia cintilante,
Constante e eternizada pelo teu saber...
Que não te deixa morrer e te trás o viver,
Que se renova em cada detalhe dominante.
Mantem-te atento, positivo; entusiasmado,
Como um pássaro que observa a montanha
Em busca do alimento e que te acompanha,
Por vales, encostas e cumes esvoaçantes.
Quando sobrevoas a paisagem do sagrado,
Ouve-se o teu canto apaixonado; delirante.
As tuas asas sustentam-te, pleno e parado,
Como um grande albatroz divino; alucinante.
Deslizando entre correntes, brisas e rajadas
De vento e de lamento, pelas coisas paradas.

mongiardimsaraiva

6/01/2014

FOLHA SECA

Sonhei que era uma folha seca...                                            
E balançava na brisa, sem lamento.
Uma nau sem destino e sem vento;
Rangendo, oscilando e sem vida...
Apenas à espera de um sustento,
Que mantivesse a calma à deriva...
Tentei acordar, mas não consegui.
A folha, tinha voado para longe
E me arrastou, embevecida...
Tão longe, que no longe morri
E me tornei, uma folha sem vida.

mongiardimsaraiva

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