2/03/2015

ABRAÇO

Abro os braços para ti                                        
Sinto o teu corpo a abrir
A minha alma deliciada ri
Do amor indolor sem sentir
Somos corpos navegantes
Num mar sem ondas e vagas
Natureza aclama verdejante
Terra enxuga nossas mágoas
Quero te deixar uma semente
Madura serena e proclamada
Por nós e por essa alegria só
Fruto eterno da carne e do pó
Na tua carente e casta morada

mongiardimsaraiva

1/17/2015

MUDANÇAS

Resisto às novas mudanças profundas                                
Sou a espada de um velho guerreiro
O meu paradeiro é a minha memória
Sinto uma vontade imensa de glória
Mas permaneço atento e à escuta
Quero perceber os sinais dessa luta
Que flui nesse verão de muito calor
Como se a razão derretesse o sabor
E as lágrimas fossem sempre adiadas
Eternamente ocultas sós e guardadas
Em rostos que expressam o novo amor

mongiardimsaraiva

8/11/2014

A VERDADE NUA E CRUA

Quero encontrar o meu alimento                                
Procurar sustentos que não tenho
Estou perdido no meio do rebanho
Sinto o gelo molhado da montanha
O frio corta-me todas as entranhas
Sou apenas a carne exposta e crua
Expulsaram-me sem dó da minha rua
A verdade obriga-me a ser verdade
E a procurar o alimento nas estrelas
Sustentar a matéria à luz das velas
Improvisar hinos e canções de glória
Renunciarei amargo à minha história
Serei um arauto de outras certezas
Não pedirei dinheiro às sociedades
Procurarei as ideias e as saudades
Como um espírito que vive do Amor
Das contemplações sem sentir dor

mongiardimsaraiva


7/20/2014

VERSOS SOLTOS

Escuto os sons cristalinos                        
Música expansiva dos sinos
Mente sagaz contemplativa
Leituras breves e precisas
Viagens aladas e sem volta
Idas marcadas sem revolta
Paisagens eleitas no espaço
Nos braços do eco do som
Meu profundo e amigo tom
Abro as asas e me comovo
Sou um pássaro desse chão
Subo ao céu do meu perdão
Quero ser uma estrela acesa
Acima da terra e da riqueza
Energias ligam-me à mente
Semente da minha natureza
Sou teu espaço para sempre
Aqui neste repente presente

mongiardimsaraiva

7/19/2014

ROTINAS

O regresso à dura rotina,                            
Nas formas categóricas
Do arrastado rame rame,
Que todos dizem infame.
Sem belezas eufóricas,
Acorrentadas na ilusão;
Escravizada a sugestão.
Dependemos de rotinas;
Das órbitas e das marés.
A energia vem do pulsar,
Do andar dos nossos pés.
Assim sou rotineiramente,
Rotina que não quer ser.
Que teima em desprezar,
Nossa rotina permanente.

mongiardimsaraiva







7/17/2014

NO LIMIAR

Estou no limiar da espera,                                      
Que me espera sem pesar.
Ainda respiro o ar devagar
E sinto a madrugada fria.
Uma língua de terra vazia,
Sem árvores e sem flores,
Limita a minha empatia;
Íngua dos meus amores,
Sozinha e sem as dores.
O tempo cerca-me agora,
Sem máscaras e anseios.
Quer mandar-me embora,
Pela bruma e sem rodeios.
Mudo, resisto às esperas
Sem ponderar os receios.
Apesar do pouco que veja,
Quero sentir nessa quimera,
Uma só fantasia que seja...

mongiardimsaraiva


7/11/2014

MARIPOSA

Abri a minha carta...                                      
Havia uma borboleta
Morta e seca, sem cor.
No papel manchado,
O desenho do pólen
Das asas de uma dor.
Quem assim a enviou,
Sofreu no duro amor
A saudade que ficou.
Agradeço-te meu pai,
Essa doce lembrança
Com asas de condor.
Deixaste-a suspensa
Para sempre em mim,
Mariposa morta e viva,
Musa do meu jardim...

mongiardimsaraiva

DESUMANIZAÇÃO

Humanização perdida no tempo.                                  
Esfumado o alento e a relação.
Não existe mais coração lento.
Tudo é rápido, vil e sangrento,
Como a guerra sem sentimento.
Efémeras batalhas entre irmãos.
Quem sobrevive a esse lamento,
Seca as suas lágrimas nas mãos
E padece do amor sem sustento.
Não há rajadas do nosso vento.
Tudo é vago, cru, seco e vão.
Pão frio, leve e sem fermento.

mongiardimsaraiva

7/08/2014

DESTROÇOS

A falta de profundidade,                              
Encalha todos os corpos
Na areia fina e movediça
Que arrasta sem piedade,
Esconde, suja e enfeitiça...
No lodo estão os destroços
Da nossa barcaça perdida,
Que jaz sem cor de justiça.
Quem mergulhar os ossos
No frio cruel da despedida,
Verá uma pérola escondida,
Brilhante, pura e radiante;
Carente dos destroços...

mongiardimsaraiva

7/07/2014

CÉUS E CURAS

Os dias são todos iguais;                                    
Pardais que só esvoaçam
Em bandos sós e desiguais.
Céu que teima em ser azul,
De norte a sul; sem nuvem.
Noites escuras que rugem
E encerram a madrugada.
Não vejo luzes; só cruzes,
Nessa terra sem mutação.
A oração não toca o céu;
Arrasta-se sem compasso.
À deriva e passo a passo.
Quando chegar a chuva,
O céu poderá escurecer
E abrigar a noite madura.
Os dias trarão essa cura
E mais um sopro do viver.

mongiardimsaraiva




6/24/2014

FIO AGONIZANTE

Escorraçado e sem limite,                                  
Um só fio, escorre isolado.
Quase parado; agonizante.
Águas podres sem nascente,
Perpetuam o caos delirante.
Uma reserva escassa e pura,
Quer beijar o nosso campo.
O pranto acenderá a chama;
Laços perdidos e sem cura.
Pó, transformado em lama,
Deitando-nos nessa cama
De mortalha fria e escura.

mongiardimsaraiva

6/15/2014

O VOO DO ALBATROZ

O teu talento é o teu sustento...                                        
Envolve o teu ser de sentimento
E transforma-te em energia cintilante,
Constante e eternizada pelo teu saber...
Que não te deixa morrer e te trás o viver,
Que se renova em cada detalhe dominante.
Mantem-te atento, positivo; entusiasmado,
Como um pássaro que observa a montanha
Em busca do alimento e que te acompanha,
Por vales, encostas e cumes esvoaçantes.
Quando sobrevoas a paisagem do sagrado,
Ouve-se o teu canto apaixonado; delirante.
As tuas asas sustentam-te, pleno e parado,
Como um grande albatroz divino; alucinante.
Deslizando entre correntes, brisas e rajadas
De vento e de lamento, pelas coisas paradas.

mongiardimsaraiva

6/01/2014

FOLHA SECA

Sonhei que era uma folha seca...                                            
E balançava na brisa, sem lamento.
Uma nau sem destino e sem vento;
Rangendo, oscilando e sem vida...
Apenas à espera de um sustento,
Que mantivesse a calma à deriva...
Tentei acordar, mas não consegui.
A folha, tinha voado para longe
E me arrastou, embevecida...
Tão longe, que no longe morri
E me tornei, uma folha sem vida.

mongiardimsaraiva

5/31/2014

TRANSE

O sangue percorre as entranhas,                        
Molhadas e banhadas pelo transe.
A carne, agita-se quente e fraca,
Em estímulos vagos e imperfeitos.
Tudo é um vazio, oco e rarefeito,
Como uma vil matança, sem faca.
Alegorias de uma morte profana,
No centro de uma robusta cama
Que segura dois corpos pesados.
Sons repetidos, agudos e cavos
Ecoam das tristes paredes nuas.
Escorrem suores transfigurados,
Que exortam o cheiro das ruas...

mongiardimsaraiva

5/27/2014

ENVELHECER

No envelhecer, nasce um novo ser,                    
Mais pleno, ciente e aprofundado.
Tudo o que dizem do envelhecer,
Não passa de um discurso furado.
Enquanto jovens, bravos guerreiros
Ou marinheiros crus desgovernados,
Um mar de rosas se ergue em volta
E as criaturas velejam pelo infinito.
Quando a música desce o seu tom
E a claridade escurece e se apaga,
Os seres têm de cortar as amarras.
A luz, é agora o brilho das estrelas
Que os velhos observam sem ver...
Como pontos luminosos sem forma,
Numa cobertura restrita e sem céu.
Onde é permitido transcender o véu
Das coisas que flutuam, sem norma.
Tudo parece estar longe do saber;
Envelhecer, é nascer para morrer...

mongiardimsaraiva



5/23/2014

O CAMINHO DO PARAÍSO

Agilizai-vos seres incautos...                                    
Não tomais o mundo para vós.
Deixai a quimera ser o arauto,
Ao anunciar-vos a sua voz...
Correi sublimes e esvoaçantes.
Não percais a brisa delirante.
Procurai o horizonte semblante
E levai a palavra por nós...
Os querubins e os guardiões,
Farão soar as suas trombetas
Ao receber-vos alegres e sós,
Eternamente castos e louvados
Num só nome, perpetuados...

mongiardimsaraiva

5/22/2014

ODE AOS PORCOS

Os "porcos" chafurdam na merda,                                  
Com ares de gente envaidecida...
Pobres, vorazes, endinheirados,
Altivos, robustos e sem filosofia...
Boca escancarada e dourada.
Riem, comem e fodem nas orgias.
Coitados dos que por ali passam,
Sem lhes render a vénia do dia...
Cabeça baixa e com vergonha,
De mostrar que nada podem,
Contra a triste e vil serventia.
Lancemos "pérolas" aos porcos,
Para que escorreguem, caiam
E percam o rumo desse norte.
Na realidade do seu chiqueiro;
A antecâmara da sua morte...

mongiardimsaraiva



5/20/2014

O DESPERTAR DOS MÁGICOS

A borboleta aguarda a chegada da luz,
Inflamada e acesa, numa bola de sol.
O cantar dos bichos, celebra e seduz,
Como o degustar de uma vida mole.
São ervas, folhas e troncos que riem.
Pássaros, rãs e joaninhas aos pulos.
A geada deslizou pelos ocos casulos,
Em que dormiam os insetos da noite.
O dia desperta a coragem e a magia,
Como um bom feitiço ou num açoite.
Os reflexos e as sombras se abraçam,
Por entre os canaviais da natureza.
Uma orgia de brilho, luz e fantasia,
Sacode agora a mata inteira; de dia.

mongiardimsaraiva


5/15/2014

DESPIDO

Despido de todas as roupas,                              
Sentado, gelado e iluminado,
Pela luz de uma lâmpada oca,
Mantenho-me atento e ligado.
Sou aquilo que restou do fado;
Uma carne em decomposição,
Que aguarda sem ter noção.
Quero estar e não estar aqui.
Sou conflituoso e indecoroso.
A minha aparente ingenuidade,
Está estampada no meu rosto.
Não passo de mais um corpo,
Branco e trémulo que aguarda;
O destino, cansado e deposto.

mongiardimsaraiva

5/02/2014

SENTIMENTOS

Sentimentos que vão e que não voltam,                                          
Incomodam tudo o que está em volta
E deixam dentro, um vazio de revolta,
Num descompasso atípico sem alegria.
Incitados pela morte de mais um dia,
Assistem preplexos aos risos sem nexo
E aos requintes da crueldade sem tema.
Sentidos, nada podem sentir, senão pena.
Uma podre indecisão, criada pela letargia;
Triste mania, por se sentir impotente e fria,
Como uma gueixa obediente, só e imaculada.
Quando a toalha é jogada às feras da manada,
Sentimentos são poupados, mortos ou reprimidos,
Como pedaços de esperança, arrancados e sofridos.

mongiardimsaraiva



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