1/19/2020

Língua Portuguesa















Porque estou longe dela (pátria),
Mas carrego no peito o que ela me ensinou;
Palavras que são como abraços ou adagas
Que cravei na carne,
Na saudade daquilo que sou...


Mongiardim Saraiva

1/16/2020

Carta de Amor













Minha bela e doce amada,


A inspiração nua e crua provém de ti, ó Lua!


Quando saio pela rua, olho as casas, o céu e as pessoas. Mas à noite, só tenho olhos para ti, minha Lua. Na linda forma redonda, brilhante e só tua. Quando sorris para mim com malícia e me convidas, peço-te as carícias e os belos raios da tua essência.


Mandas-me um beijo e observas-me de longe, com paciência.
Quero sempre que desças e sonho convidar-te para um passeio. Mas quando te aproximas, olho-te curioso, apaixonado e com receio, já com saudades da tua ausência e radiante pela tua presença.


Vou levar-te para morar numa casa, longe e abandonada, onde possamos namorar em versos e estrofes do nada. Onde só tu e eu criaremos imagens e frases aladas.


E um dia voaremos juntos, pelo céu de muitas luas. Ficaremos íntimos e carentes, no brilho do teu luar. Anunciaremos então e por fim ao mundo, o dia em que iremos casar.


Do teu amoroso, ardente e eterno apaixonado,



Mongiardim Saraiva










12/30/2019

Ausência


















vida é expansão sensorial e consciente
algo que não tem tamanho nem forma
uma energia que brota de dentro de nós
para se tornar essência da nossa norma
sentimento ilhado preso na nossa voz
que procura outros lugares para morar
como albatroz pairante só e compassado
uma odisseia perpetuada no crepúsculo
das noites que nos agarram sem guarda
nas manhãs vagas do chilrear dos pássaros
e no brilho fugaz de uma estrela que tarda
somos essa ausência que nos transcende
que nos impulsiona para dentro do ser
uma imensa vontade de tudo abraçar
para lá do horizonte que podemos ter


Mongiardim Saraiva


12/27/2019

A esquerda pariu um sapo















a esquerda pariu um sapo
uma obra do reino fantástico
da roubalheira e da enganação
no planalto da encruzilhada
fizeram aparecer um charco
onde girinos comandam a nação
um sapo nunca aparece por acaso
mas no meio de muitos mosquitos
o império ficou assim mais raso
e os esquerdistas urram aflitos
agora não vale a pena chorar
o leite que já foi derramado
tudo é obra de um bando perdido
no ocaso de um país acabado

Mongiardim Saraiva

12/05/2019

Entre o sonho e o sono



















a janela entreaberta e larga
permitia a entrada de uma luz
que inundava o meu quarto encantado
onde os meus heróis não paravam de entrar
oriundos daquele cometa apaixonado
animados por aquele azul sem mar
como se estivessem vivos e presentes
nas aventuras e histórias de sonhar
eu passeava por entre o anil do céu
e o brilho cintilante das estrelas
como se tudo me pertencesse agora
ausente e contente no meu brincar
sentia no sono um acordar latente
que me queria ali feliz para sempre
puro encanto de um despertar

Mongiardim Saraiva

11/30/2019

Análise do discurso


Resultado de imagem para análise do discurso

 aquilo que sou não me pertence
devo-o à ideologia e à formação discursiva
não passo de uma bolha entre interdiscursos
que saltita imanente e dialógica sem parar
que arrasta ditos e já-ditos na interação verbal
sou muito pouco e gostaria de ser mais
não apenas o sujeito pobre da enunciação
mas um enunciado carregado de muitos sentidos
que não dependam de condições de produção
o sujeito de um discurso breve único e só
uma heterogeneidade mostrada e marcada
apenas constituída por vozes na minha voz
talvez um belo e perene novo enunciado
fora do tempo e do rol das memórias
sem conceitos estigmas e histórias


Mongiardim Saraiva



11/18/2019

Cão que ladra não morde



















só te ouço ladrar
bradar um uivo sem par
morder que é bom
não é o teu dom
a tua arma são as arruaças
badernas que usas de cor
em praças de muitas raças
que fingem morrer de amor
queres uma vida bem melhor
mas só pensas em reclamar
daqueles que te ousam calar
por que não cerras os dentes
de branco vil ensanguentado
e não usas a tua louca mente
para morder o teu próprio rabo
"cão que ladra não morde"
sempre ouvi o meu pai dizer
se for verdade vais enlouquecer
aos poucos parado e ilhado
só te resta seguir a matilha
que cospe um fel açucarado


Mongiardim Saraiva

11/11/2019

Brado retumbante













soltaram-no(s)
repentinamente
nas nossas barbas
de molho inocentes
até quando sorriremos
apenas para disfarçar
a nossa vil tristeza
da alegria que mente
ó povo embrutecido
que se ignora presente
é hora de nos cuidarmos
como a quem se quer
e não deixarmos soltar
quem solto nos quer presos
onde estão vocês agora
entristecidos e enganados
agitai-vos no vosso trono
feito de lama e de fuligem
trazei o vosso respeito à tona
e imaginai uma pátria virgem
desflorada pela luz de um sonho
não percais a calma e a alma
segurai a vossa bandeira firme
serrai os dentes bradai e repudiai
a nossa casa é um templo sagrado
o lugar de um bandido é na prisão
empunhai a espada do ardor inusitado
mesmo que a lança corte a tua mão

Mongiardim Saraiva


11/05/2019

Brado de guerra

















às vezes é melhor passar pela guerra
apesar da injustiça e das matanças
o horizonte abre-se com uma serra
e apagam-se os nós e as heranças
só de paz não vive o homem de bem
que teima em manter-se amargurado
é preciso acabar com o que é ditado
em versos que não abonem a glória
em letras fundas e cruas ser o brado
mudar o caos vazio e desfigurado
para que uma nova raça seja gerada
um povo que morre não tem história
apenas vive de uma lembrança ilhada
caminha na escuridão sem ter memória
segura na boca uma mordaça apertada


Mongiardim Saraiva


10/22/2019

Ávidos













tenho visto sórdidos trejeitos
afeitos e nus na prática decente
mentirosos contumazes e atentos
na sociedade doente sem semente
cicatrizes e meretrizes nos leitos
escorreitos que exalam a perfume
ode ao canibalismo cru e visceral
adubo com cheiro forte a estrume
que nos rega a carne nos rodízios
óleo que escorre do nosso animal
para outro animal já ressequido
fel que guarda a essência do mal
sempre pronto a engolir contido
dinheiro que nos mostra ser fatal
transformar uma natureza em cal
se nos deixarmos um dia abater
morrer vai ser um sonho delirante
radiantes e sós por esse turbilhão
cometeremos loucuras para ter pão
ávidos por um presente esfuziante
seremos carcaças podres e frias
cobertas de moscas e de orgias
as putas serão as nossas deusas
coitadas e exaltadas nas alegrias
à vida daremos o último suspiro
um longo pesado e eterno adeus
continuaremos a rir na batalha
e mataremos em nome de deus

mongiardimsaraiva

10/10/2019

As hienas

















ouço ao longe o riso das hienas
que se aproximam em grupos
e corpos preparados para trucidar
bocas fétidas negras e obscenas
erguidas pelas patas dianteiras
que sacodem o instinto de matar
covardemente tentam cercar-me
conheço-as de ocasiões certeiras
feitas de migalhas do meu jantar
já sei que não devo mostrar temor
pela procura ávida do meu sangue
sou eu quem devo atacá-las primeiro
ou despistá-las para sempre ao luar
num gesto bravo e atento com ardor
elas não resistem à tortura do mangue
sangue misturado nas areias sem cheiro
esfarrapadas pela sede e pela fome
perdem-me rapidamente nesse terreiro
em risos vis de escárnio e fingimento
sigo agora o caminho muito atento
apenas aos homens que cruzem a estrada
das pobres hienas esfomeadas sou vento
que leva para longe o som do seu lamento

mongiardimsaraiva


9/21/2019

Voando na madrugada


























quando a noite se curva sobre a tarde

e se apodera da fadiga que em mim ficou 

liberto-me dos despojos de mais um dia claro

encanto-me na chegada dessa escuridão

as sombras projetam-se junto aos meus passos

como raros seres que caminham ao meu lado

em lapsos cegos de encantamento certeiro

sou lançado nos confins da madrugada

como ave de rapina atenta e encantada

subo lá no alto sereno em círculos fechados

e de lá avisto tranquilo todos os cansaços

da luta que se liberta dos laços

mergulho no vazio da imensidão velada

à procuro do meu alimento sagrado

não sou mais do que um pássaro ao vento

voando em círculos largos e concêntricos

livre leve e solto como a madrugada



mongiardimsaraiva

9/20/2019

Suspenso



















Suspenso, resiste às intenções dos amigos
Que torcem amigavelmente pela sua queda,
Apesar da luz forte e amarelada que parece mantê-lo ali para sempre
À mercê dos braços suaves e fortes da calmaria do lago.
À margem de si mesma, a imagem conseguiu parar no tempo
E evidenciar a saudade que sentimos dos tempos de outrora,
Em que as brincadeiras eram simples, leves e nos pertenciam...

mongiardimsaraiva

9/03/2019

Amazônia selvagem


















Música que brota da terra
No encanto da água
E nas matas que florescem
Onde a vida ri e serpenteia
Uma ode ao crepúsculo
Ao sol que tudo permeia
E às manhãs que cantam
Uma súplica a mil vozes
Que produz um eco infinito
E nos chama para afagar
Um estertor só e aflito
Que nos ama sem parar

mongiardimsaraiva

7/10/2019

Voraz

sinto-te tão voraz

esbelta corça em saltos magros

e altivos por cima de mim fugaz

sou dos teus gemidos uma alcova

aberta e preparada para te afagar

no sorriso da minha boca molhada

língua solta sedenta e transfigurada

em movimentos graciosos de batalha

aos braços longos quentes e brancos

atribuo o poder de me apertarem

até à doce aprazível e letal asfixia

revejo-te todos os dias na ventania

na tempestade e nas manhãs frias

que tardam em se abrir para o amor

sou da tua vontade o teu estertor

apesar do olhar lânguido que te deito

do teu cheiro sinto o ar rarefeito

sou lança que em ti avança sem dor








7/05/2019

NEO




















achei-os na imensidão daquela sala
sentados sós quietos e pendentes
amarelados e ausentes na fala
um olhar infinito sem distância
para dentro de uma tristeza rala
esperança que não podia esperar
pela ameaça de não poder estar
gente de todos os quadrantes
gordos magros brancos e negros
novos velhos jovens e sem idade
nivelados pelo mesmo estertor
corações flutuantes sem jangada
obras do infinito sem morada
apenas reféns da dor e do amor
tudo reduzido à imagem da cruz
sofrimento que nos transforme
no alimento para outras vidas
em seres que busquem a glória
e que aceitem o nó das partidas

mongiardimsaraiva

A condição humana sob a ótica do bem e do mal: um estudo comparativo entre Milton, Dante e Goethe



O papel da literatura não é o de explicar ou definir, mas sim o de ajudar a compreender ou facilitar observações de parâmetros esclarecedores que possam enriquecer e/ou esclarecer algumas questões que interessam à humanidade.
Assim acontece com a temática do bem e do mal, cujas entidades sempre fizeram parte do imaginário de grandes escritores que povoaram e provocaram a interpretação dos leitores, muitas vezes de uma forma peculiar e subjetiva.
O mal (muito mais do que o bem), sempre exerceu um fascínio enorme em todas as classes sociais, prendendo leitores e espectadores a desfechos criativos e mirabolantes, ao ponto de criar legiões de seguidores em todo o mundo. Os personagens (vilões, associados ao macabro) assumem muitas vezes uma projeção tal que são responsáveis pelo enredo de grandes obras literárias, enchem teatros, cinemas e garantem famosos espetáculos.
Por outro lado, o bem, não parece adquirir a mesma força e envergadura, o que nos leva a pensar que talvez o ser humano necessite de testar, através de emoções fortes, os limites da sua própria existência.
Dessa forma, o mal surge como grande protagonista, ao ponto de todas as religiões incorporarem alguma força de desordem ou destruição. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ligados ao cristianismo, apontaram a soberba humana como a raiz do mal e a graça divina como a fonte do bem. Charles Darwin, considerado o pai da teoria da evolução, colocou em xeque a ideia de uma natureza projetada por um Deus bondoso e misericordioso. O filósofo alemão, Immanuel Kant, afirmou que o ser humano está associado a uma vontade maligna que se constitui como um mal radical. Friedrich Nietzsche transcendeu a questão do bem e do mal na sua filosofia, ao idealizar um super-homem que estaria além de qualquer moral.
Neste breve estudo, são abordadas três obras de três grandes autores, respectivamente, John Milton (1667), Dante Alighieri (1308) e Johann Wolfgang Goethe (1774) e as suas obras, Paraíso Perdido, Divina Comédia e Fausto.
Em Paraíso Perdido, Milton inspira-se na tradição clássica e épica dos grandes poemas e trata magistralmente, em verso branco, alguns aspectos filosóficos e religiosos do ser humano, através da história da condenação de Adão e Eva quando cometem o pecado original e são expulsos do Paraíso. A obra trabalha a relação entre o bem e o mal, ao mostrar que a felicidade provém da obediência a Deus e a desobediência pode acarretar na queda do homem.
Na Divina Comédia, Dante idealiza uma viagem ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso, ao ser conduzido por Virgílio (a voz da sua consciência). Nessa epopeia, é apresentada (em versos decassílabos) uma sequência admirável de figuras conhecidas, condenadas pelos seus pecados e em busca da salvação. O bem é personificado pela mulher amada, Beatriz, que aparece para guiá-lo até Deus, já que ela fora iluminada pela graça. No "Inferno de Dante", os horrores são descritos de uma forma impressionante e quase real, o que torna a obra intensa e marcadamente expressiva.
Fausto, de Goethe, é uma obra clássica escrita admiravelmente em versos (diálogos rimados) que falam metaforicamente da existência humana. O personagem Fausto é um cientista e mago que é inconformado com a sua vida mundana. Ele resolve fazer um pacto com o diabo (Mefistófeles), ao vender a sua alma em troca de prestígio e regalias. A obra procura refletir os conflitos e dilemas do ser humano em relação à tomada de uma postura espiritual (bem) ou essencialmente material (mal), tendo como eixo as relações entre natureza e consciência, razão e emoção.
Através da literatura comparada, como ferramenta de análise e estudo, é possível estabelecer alguns pontos convergentes e divergentes nas três obras, apesar de terem sido escritas por autores com nacionalidades diferentes, em épocas diferenciadas e, consequentemente, em contextos variados.
Por exemplo, podemos considerar que em relação a Milton, em Paraíso Perdido e Dante, em A Divina Comédia, ao efetuarmos um paralelo, ambos os autores utilizam adjetivos muito poderosos para descrever a relação de forças antagônicas (bem e mal). Em Paraíso Perdido, Satã é considerado como um astro em todo o texto, já que o seu autor é um homem com fortíssimas convicções religiosas que deseja assim enfatizar o perigo do mal nas relações com a humanidade.
Por outro lado, Dante oferece-nos a maior e a mais contundente descrição do Inferno com todos os seus horrores. Existe um propósito em descrever o Inferno acompanhado dos seus pecadores, como um lugar muito triste e de grande sofrimento. O autor faz questão em nomear algumas pessoas que conviveram com ele e de relacionar os seus pecados com as diversas penitências atribuídas.
Um outro ponto a observar, ilustra a expressão poético-romântica na obra de Milton, quando Eva é tentada pelo fruto proibido e desobedece às determinações de Deus. Adão não aceita logo imitá-la, mas acaba por degustar a maçã e, ao fazê-lo de uma forma consciente, manifesta o seu amor incondicional à amada. Nesta obra, Deus é magnânimo na sua bondade, mesmo diante do pecado, ao estender a sua mão misericordiosa àqueles que são fracos e reconhecendo a sua natureza humana.
Em Fausto (obra do Romantismo), o personagem do cientista parece possuir uma índole generosa, para além do pacto realizado com o demônio, o que lhe atribui uma certa conotação com o bem, apesar de ter sucumbido às argumentações de Mefistófeles. É importante observar, a partir da personagem de Margarida, impregnada de romantismo, toda a manifestação do bem, em contraponto ao mal, representado por Mefistófeles.
Na Divina Comédia e apesar de todas as descrições do sofrimento, existem alguns momentos representativos do romantismo e do poético. O relato sobre o Paraíso é repleto de alusões ao amor, à felicidade e à realização dos bem-aventurados. É muito profundo e emotivo o encontro entre Dante e a sua amada Beatriz quando ela o recebe no Paraíso.
É notória e fortíssima a presença desta dualidade (bem e mal) durante toda a trajetória de vida dos homens, assumindo sempre um papel ativo e decisivo no campo filosófico e na conduta de uma sociedade pautada por hábitos, valores, convenções e doutrinas cujos interesses nem sempre foram convergentes. Em relação à literatura e particularmente, no texto literário, não poderia ser diferente.
Na história humana, a representação de Satã na literatura sofreu diversas metamorfoses ao longo dos séculos. Do diabo satírico ao trágico e da bestialização à humanização de anjo. Essas metamorfoses já haviam começado na Bíblia, ao ganharem força alegórica e simbólica na boca dos profetas. Os cristãos vão transformá-lo em inúmeros demônios que influenciaram as ações humanas através da possessão e depois através de várias metamorfoses, ao ser condenado a simbolizar todo o mal da humanidade. Os primeiros cristãos, especificamente os Padres do Deserto, que ao imitarem as provações de Jesus o transformaram em tentador nas suas crenças que estabeleceram um confronto de forças entre o bem e o mal, criaram uma cultura de profundo medo durante a Idade Média e Moderna. Medo esse que assolou boa parte da população da Europa e que moldou a nossa moral, os nossos padrões culturais e principalmente modificou a nossa maneira de pensar e fazer arte, incluindo a literária.
Todo esse simbolismo vai ser vivenciado, de alguma forma, por diversos autores como Dante Alighieri, John Milton, William Blake e principalmente pelos poetas do romantismo como Lord Byron e Charles Baudelaire. Esse último, foi o que talvez melhor utilizou o mito de Satã como representação de si mesmo, a partir da sua identificação com essas metamorfoses (Les Fleurs du Mal), atravessado pela angústia da existência, pelo tédio, pela visão pessimista do futuro e pelo desejo de retorno ao primordial. Satã tornar-se-ia um símbolo daquilo que Baudelaire acreditava ser o homem moderno, construído a partir de tensões entre o bem e o mal, o belo e o feio, o lírico e o antilírico, passado e futuro, tradição e modernidade.
No Brasil, a ideia do mal foi inicialmente lançada pela catequese do medo e do terror associada à ação dos padres jesuítas. Entretanto, o satanismo como elemento estético e artístico, só iria ser abordado como construção literária a partir do romantismo. Em um primeiro momento, com uma percepção do mal a partir de certa herança do maniqueísmo medieval, o Diabo foi materializado como tentador nas suas crenças e como manipulador das ações maléficas dos seres humanos. Em um segundo momento, o satanismo é reverenciado pelos poetas como parte de si. A partir daí, o homem toma consciência que traz em si o bem e o mal (Deus e Satã). Essa nova percepção vai mudar a ideia de que o poeta era um ser divino. Assim, a desmistificação da arte e do poeta proveniente do satanismo, a partir do afastamento de certos dogmas religiosos, da rebeldia contra os sistemas morais e éticos, o fascínio pelo grotesco e pela morte, viabilizará uma certa dialética entre a literatura e a comunidade e, consequentemente, uma aproximação maior entre a arte e a vida.
De forma diferente de Baudelaire que pensava Satanás como símbolo da visão pessimista do progresso, os poetas do realismo vão usar o mito como símbolo de renovação progressista e de rebeldia contra o passado. É a partir do simbolismo que as manifestações literárias ligadas ao mito vão ganhar diversas perspectivas, como por exemplo, um Satã arrependido que pede clemência a Deus ou que simboliza o poeta que sofre por amor. Outros construíram os seus poemas dirigidos a Satã quando imitaram as ladainhas e as orações católicas que faziam descrições bestiais ou angelicais de um Satã que refletia a própria solidão e tristeza, como um homem dividido em constantes crises espirituais. Algumas das ideologias que alicerçaram a formação da República no Brasil foram repensadas, principalmente porque o racionalismo e a descrença por algumas dessas correntes ideológicas como o positivismo, não supria o vazio existencial e a carência por algo indefinível. Por isso a busca pela transcendência, pela libertação da alma do cárcere da vida. Implicitamente, havia toda uma busca pelo esclarecimento dos mistérios da vida e da morte para que pudessem determinar os propósitos existenciais que não aceitavam como absolutas as teorias científicas, deterministas e evolucionistas que eclodiram no final do século XIX. Dessa forma, Satanás torna-se um agente vital para a recuperação do individualismo e aprofundamento da reflexão sobre o próprio ser.
Independentemente dos usos do mito de Satanás terem tido na poesia brasileira uma intenção satírica, trágica, metafísica ou apenas estética, é perceptível que eles refletem a própria condição do homem, buscando sempre algo para preencher um grave vazio existencial. A grande importância do mito de Satanás, associado à condição humana sob a ótica do bem e do mal, é que ele está ligado diretamente ao desejo de conhecimento e à contestação dos padrões.
Foi através do uso literário e muitas vezes com a preciosa utilização da literatura comparada, associada à problemática de questões cruciais como esta (a dualidade entre o bem e o mal), obtidas através de muitos contextos, opiniões e políticas diferentes da nossa história que surgiram reflexões (outros textos literários) que, certamente, vieram influenciar decisivamente a nossa literatura moderna na busca incessante por termos e valores que conduzam o homem a patamares de conhecimento que valorizem toda a sua existência de uma forma expressiva, bela e transcendental.

mongiardimsaraiva


Referências:


FELIZARDO, Alexandre Bonafim et al. Estudos semânticos-discursivos da obra literária, volumes 1 e 2. Uberaba: Uniube, 2011. 27/58 p.








6/13/2019

Olha a peluda!
















O tempo de ser militar
Escoa-se pelo ralo do quartel.
Oficiais sargentos e praças
Festejam as virtudes do fel.
Soldados velhos que se vão
Em arrufos de insana glória.
Cabelos que voltam a crescer
No começo de outra história.
E gritam alegres os saudosos:
Olha a peluda! Olha a peluda!
No pátio triste de outrora
Há uma imagem sem ternura;
Da "velhice" que se vai embora...


Nota: "Passar à peluda" (gíria militar) é uma expressão portuguesa que significa a transição do serviço militar obrigatório para o regime civil, quando os soldados terminam a sua prestação de serviço. Na origem dessa expressão, pensa-se que a palavra "peluda" diz respeito à permissão do uso dos cabelos mais compridos (associado a um conceito de liberdade),  no momento da saída dos militares dos quartéis. Já o termo "velhice", é alusivo aos soldados que estão há muito tempo a cumprir o serviço militar obrigatório e prestes a terminá-lo.



mongiardimsaraiva


Destaque

o pastor (poema selecionado) 2019

Um tributo ao poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro / O Guardador de Rebanhos)